Chegou dos Açores para se tornar um dos maiores especialistas em subidas de divisão que o país conheceu nos anos 70. Foram quatro, pelos três clubes que representou no escalão principal antes de se deixar tentar pela NASL.
2018-03-15

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1966

Há uma série de constantes na carreira de João Carlos. Era um defesa central fiável, segundo se diz forte no desarme em carrinho e no jogo aéreo, mas também um jogador no qual se podia confiar, razão pela qual nem precisava de muito tempo para lhe entregarem a braçadeira de capitão. Apesar da chegada tardia ao futebol de I Divisão – tinha 24 anos quando apareceu no Atlético – e das constantes passagens pelo escalão secundário, ainda ficou à beira dos 200 jogos entre os grandes, feitos também ao serviço de União de Tomar e Estoril. Já trintão, seguiu atrás do irmão, Virgínio, para a América do Norte, onde representou os Connecticut Bi-Centennials antes de se estrear como treinador-jogador na primeira passagem do Santa Clara pelos escalões nacionais.

José Carlos e Virgínio Costa destacavam-se no futebol açoriano, tanto em São Miguel, de onde eram oriundos, como depois na Terceira, onde frequentaram a escola do orfanato João Batista Machado. De regresso a Ponta Delgada, um, Virgínio, avançado conhecido no futebol açoriano como “Martelo”, só representou o Santa Clara, enquanto o outro, João Carlos, alinhava como defesa-central mas pelo União Micaelense. Quando a qualidade do futebol os trouxe para o continente, os dois foram parar ao mesmo clube, no entanto: o Atlético. João Carlos chegou em 1966, tinham os alcantarenses acabado de garantir a subida de divisão, mas nem o facto de vir de uma divisão regional o impediu de se afirmar aos olhos do treinador, o espanhol Angel Oñoro: foi titular ao lado do capitão Candeias desde a primeira jornada, uma derrota com a Académica na Tapadinha, por 2-0.

Aliás, logo nessa primeira época, João Carlos fez todos os minutos do Atlético em competição, nas 26 jornadas do campeonato e nas quatro partidas da Taça de Portugal. Nesta prova, aliás, fez dois dos seus três golos, a abrir uma goleada de 6-0 ao FC Famalicão. Um deles foi de penalti, como o único que marcou numa década de campeonato: aconteceu a 18 de Dezembro de 1966, num 4-1 ao Varzim, na Tapadinha. Angeja tinha falhado um penalti na vitória por 2-0 frente ao FC Porto, a 2 de Novembro – a primeira vez que João Carlos defrontava um grande – e foi ele o escolhido para pegar na tarefa de bater as grandes penalidades do Atlético até ao final da época. Aí, no entanto, o Atlético acabou por descer – de nada serviu o empate em casa com o Sporting, na penúltima ronda. Em 1966/67, João Carlos foi jogar o campeonato da II Divisão, aproveitando para somar ali o primeiro título de campeão: comandada pelo ex-defesa benfiquista Artur Santos, a equipa alcantarense ganhou a Zona Sul, graças a uma suada vitória por 1-0 no Barreiro, frente ao Luso, enquanto o GD Peniche perdia por 3-0 em Sesimbra, impondo-se depois na final ao União de Tomar, por 3-2, com golo da vitória no último minuto.

João Carlos esteve nesse jogo, realizado no Estádio do Restelo, em Lisboa. Como voltaria a estar maioritariamente como titular na campanha de 1968/69, na qual, contudo, o Atlético acabou por descer. Teve a época ensombrada por dois autogolos – um em Tomar, logo na jornada de abertura, quando tentou deter um remate de Ferreira Pinto e acabou por desviá-lo do guardião Botelho, e outro na derrota caseira com o SC Braga, na penúltima partida que fez pela equipa alcantarense. A derrota em Setúbal, por 4-0, a 23 de Março, condenava o Atlético à descida e nas três últimas partidas o treinador, Peres Bandeira, sacrificou-o, talvez por saber que ele iria sair. A verdade é que tanto João Carlos como Tito, o goleador daquele Atlético, seguiram para Tomar, onde em 1969 começaram a representar o União de Tomar que Oscar Tellechea tinha conseguido manter na I Divisão.

Tal como à chegada a Lisboa, João Carlos não demorou a impor o seu futebol. Encaixou ao lado do capitão Faustino e foi totalista na primeira época: alinhou a tempo inteiro nas 26 rondas do campeonato, incluindo a épica vitória por 3-0 contra o FC Porto, a 8 de Março, e só falhou meio jogo na eliminação tomarense da Taça da Portugal, a 24 de Maio, nos quartos-de-final, frente ao Leixões, em Matosinhos, porque foi expulso na sequência de um penalti cometido sobre Raul Machado. Apesar disso e da chegada de Fernando Cabrita aos comandos da equipa em Fevereiro, o União de Tomar acabou por descer de divisão. Pretexto para mais uma subida, ainda que desta vez muito mais complicada: os nabantinos acabaram a Zona Sul em segundo lugar, a dez pontos do Atlético, e ficaram a dever a promoção ao alargamento do campeonato de 14 para 16 equipas, que levou à realização de uma Liguilha. João Carlos esteve nesses três jogos, um empate com o Leixões, uma vitória sobre o Marinhense e novo empate com o Varzim, em São João da Madeira, a abrir a festa.

Regressou, assim, ao convívio dos grandes em 1971, ano em que o irmão, Virgínio, fez as suas únicas partidas na então ainda tímida North American Soccer League (NASL), ao serviço do Toronto Metros. João Carlos, contudo, continuava a ser um dos esteios da defesa nabantina: falhou apenas as últimas quatro partidas do campeonato, por se ter magoado após a vitória por 1-0 frente ao Leixões, não estando por isso na decisiva vitória caseira sobre o Vitória de Guimarães (3-2). A manutenção chegou à justa e João Carlos veria chegar em 1972 um treinador que seria muito importante para o seu final de carreira: António Medeiros. Enquanto Medeiros durou à frente da equipa (foi demitido em inícios de Abril, após uma derrota em casa com o Vitória de Guimarães), João Carlos foi titular inamovível e capitão de equipa. Depois da saída do leceiro, ainda fez mais dois jogos, mas voltou a falhar as quatro últimas jornadas, bem como a eliminação da Taça de Portugal, aos pés da CUF (0-5), a 6 de Maio.

O União de Tomar desceu, mas João Carlos ainda ficou mais um ano, a permitir-lhe uma saída em beleza. Na II Divisão, os nabantinos festejaram a subida a uma jornada do fim, com uma vitória por 3-2 em Odivelas a deixar o Atlético a uma distância insuperável. Na final, em Coimbra, frente ao SC Espinho, a vitória chegou a parecer fácil – havia 4-1 a 10 minutos do fim, tendo um dos golos sido apontado por João Carlos, de penalti – mas complicou-se, com dois golos do brasileiro Telé a fixarem o 4-3 quando ainda havia cinco minutos por jogar. João Carlos, no entanto, não foi com a equipa para a I Divisão: correspondeu ao convite de António Medeiros e seguiu para o Estoril, que acabara de subir ao segundo escalão, mas onde havia um projeto que se supunha ser de grande futuro. E, pelo menos no imediato, assim foi: logo na primeira época na II Divisão, o Estoril subiu. Garantiu a promoção a uma jornada do fim, batendo o outro competidor, o Barreirense, por 2-0, e ganhou depois a final do campeonato, derrotando o SC Braga por 1-0.

Em 1975, já com 33 anos, João Carlos voltava assim à I Divisão, agora como capitão do Estoril. Totalista logo na primeira época, que a equipa de Medeiros acabou num excelente oitavo lugar, esteve por isso na vitória frente ao Sporting (1-0 na Amoreira, em Fevereiro) e no empate com o FC Porto (2-2 nas Antas, em Abril). Na temporada seguinte, porém, viu o sonho americano interromper-lhe a carreira no futebol luso. Despediu-se do Estoril, já o clube era comandado por José Bastos e José Torres, a 3 de Abril de 1977, com uma vitória por 1-0 frente ao CD Montijo. Duas semanas mais tarde, a 17, estava em Washington, a comandar a defesa dos Connecticut Bi-Centennials frente aos Diplomats, naquele que foi o seu jogo de estreia na NASL. Numa equipa onde também estava Vítor Móia, ainda alinhou 21 vezes nesse campeonato, marcando um golo, ao Cosmos de Pelé e Chinaglia. Os Bi-Centennials não chegaram aos play-off e João Carlos acabou por regressar a Portugal, onde ainda representou o Marinhense, na II Divisão, em 1978/79. Foi, depois disso, o primeiro treinador do Santa Clara nas divisões nacionais, liderando a equipa insular na Série E da III Divisão de 1979/80.

João Carlos acabou por emigrar para o Canadá e vive atualmente em Toronto.