Antes de ganhar o segundo nome, que é apanágio dos treinadores, Paulo era só o Fonseca, defesa central forte no jogo aéreo, mas a quem faltaram sempre alguma velocidade e mais oportunidades mas sobraram as lesões.
2018-03-05

1 de 10
1994

Paulo Fonseca, um dos melhores treinadores portugueses da atualidade, foi jogador de nível médio na I Divisão. Tal como na qualidade de técnico, cedo prometeu e chegou a assinar pelo FC Porto. A diferença é que se como líder da equipa ainda lhe deram uma oportunidade nos dragões, como futebolista foi andando de empréstimo em empréstimo até à cedência final. Três boas épocas, no Leça, no Belenenses e no Marítimo, desembocaram numa experiência infeliz no Vitória SC e, depois, no amadurecimento na Amadora, mais até na II Liga do que no escalão principal. Ali se fez treinador.

O início de tudo foi bem longe. Paulo nasceu em Nampula, Moçambique, mas veio para Portugal na sequência do 25 de Abril e da descolonização forçada e apressada. Como tantos outros “retornados”, a família Fonseca acabou na margem sul do Tejo, no Barreiro. O jovem Paulo, no alto do seu metro e 88, era forte também em personalidade, gostava de futebol e começou por se inscrever no Galitos. Veio depois a fixar-se no Barreirense que representou a partir dos juvenis e que, tenha ou não sido para adotar uma postura politicamente correta, ainda recentemente descreveu como o clube do coração. Ali, numa equipa onde o desinvestimento foi forte após o falhanço do regresso à I Divisão – derrota na Liguilla com o CD Aves, em 1990 – começou a jogar nos seniores ainda com idade de júnior, na II Divisão de Honra, em Maio de 1991, tinha ele acabado de fazer 18 anos.

A despromoção já era inevitável e, a 12 de Maio, numa receção ao Estoril, José Araújo, que substituíra Gabriel Mendes no comando da equipa, incluiu-o entre os titulares, formando dupla de centrais com Pascoal. O jogo acabou empatado (1-1), a estreia de Fonseca mereceu aplausos gerais da crítica. Na jornada seguinte, uma deslocação ao terreno do também já desenganado Lusitano de Vila Real de Santo António, o risco foi ainda maior: os centrais foram Fonseca e Duka, ambos de 18 anos. E o Barreirense, que sofrera 75 golos nos 36 jogos anteriores, incluindo a maior goleada da sua história em casa (0-9 do Portimonense), voltou do Algarve com um 0-0 que mostrava que ali estavam dois centrais de futuro. Assim foi, de facto: os dois formaram a dupla de centrais mais utilizada pelo Barreirense nas épocas seguintes. Depois de uma posição a meio da tabela em 1991/92, a equipa dirigida por Luís Norton de Matos acabou em terceiro lugar em 1992/93 e voltou a cair para décimo em 1993/94.

Nestes três anos, Fonseca foi quase sempre titular. A exceção foi parte da época de 1992/93, em que Norton de Matos optou maioritariamente por Duka e Luís Miguel. Mas quando este saiu para a União de Leiria, em 1993, Fonseca voltou a emparelhar com Duka. E quando Duka foi embora, para o SC Espinho, em 1994, tornou-se capitão de equipa. Já orientada por Jean Paul, a equipa do Barreirense voltou a falhar a subida (quinto lugar), mas Fonseca chamara a atenção dos clubes de topo e no Verão de 1995 assinou contrato com o FC Porto. Chegado às Antas, contudo, a concorrência era tanta que só lhe restava a via dos empréstimos. Seguiu assim para Leça, onde o aguardava uma difícil tarefa. Primeiro, ter de ganhar um lugar a Isaías e Matias – e esta foi facilitada, porque o capitão de equipa saiu para o FC Porto a meio da época. Depois, conseguir a manutenção num cenário de privações: o Leça andou toda a época com salários em atraso e o treinador, Fernando Festas, até se demitiu por, explicou, não ser capaz de “tirar o máximo de um plantel alimentado a sandes”.

Tudo se conseguiu. Fonseca estreou-se na I Divisão a 17 de Setembro de 1995, numa receção ao FC Porto, que os dragões venceram por 2-0. Só a partir de Dezembro, no entanto, assumiu a titularidade em pleno: foi na vitória por 3-1, em Santo Tirso, à 13ª jornada, resultado que valeu ao Leça FC passar para cima da linha de água. E a verdade é que não mais voltou a estar em posições de despromoção, festejando a permanência graças a um empate caseiro (1-1) com o Sporting, no último dia, já com António Pinto aos comandos. Antes, no último jogo de Fernando Festas, a 17 de Março, Fonseca também tinha sido titular num amplamente festejado 0-0 em casa com o Benfica. Tudo somado, no final da época, o moçambicano ainda não foi dado como apto a integrar o plantel do FC Porto, mas subiu um degrau, passando para o Belenenses de Quinito, equipa que entrava no campeonato com aspirações europeias. Coletivamente, a época não correria tão bem quanto o esperado – Quinito acabou por ser substituído por Vítor Manuel e o Belenenses foi apenas 13º no campeonato – mas, individualmente, Fonseca, deu mais um passo rumo à afirmação.

Titular a partir da terceira jornada, após duas derrotas e sete golos sofridos nas duas primeiras, viria a ser um dos destaques dos azuis, marcando a 26 de Janeiro de 1997 o seu primeiro golo na I Divisão. A vítima foi Preud’homme, cujo Benfica foi nessa tarde batido em casa por 2-1. Ao lado de Fonseca no centro da defesa azul estava Paulo Madeira, um dispensado das águias, o que tornou o caso ainda mais falado. Mesmo assim, findo o campeonato, a Fonseca só restou a possibilidade de novo empréstimo. Seguiu para o Marítimo de Augusto Inácio, onde terá feito a sua melhor época de sempre. Aos 24 anos, era já um jogador calejado, tendo contribuído com 31 presenças (em 34 jornadas) para o quinto lugar e qualificação europeia dos insulares. Falhou apenas os jogos com o FC Porto e viu do banco a derrota caseira com o Vitória SC, em finais de Novembro, estando por isso na vitória (1-0) sobre o Benfica nos Barreiros e no empate (1-1) com o Sporting em Alvalade. Era agora um jogador apetecível no mercado dos “europeus”, pelo que o FC Porto acabou por incluí-lo como moeda de troca quando quis ir buscar o ex-leão Capucho a Guimarães.

No Vitória SC, contudo, Fonseca nunca foi feliz. As lesões e a concorrência impediram-lhe a afirmação na equipa comandada primeiro por Zoran Filipovic e, depois, por Quinito, que até já o conhecia do Restelo. Em dois anos, Fonseca fez apenas sete jogos, um deles para a Taça de Portugal. No Verão de 2000, o Vitória SC deixou-o ir à sua vida e Fonseca assinou pelo Estrela da Amadora, onde entretanto chegara Quinito e se lembrara dele. Fonseca foi titular nas primeiras seis jornadas da Liga, nas quais o Estrela fez apenas um ponto. À sétima, Quinito sacrificou-o e ganhou por 4-0 ao Campomaiorense. Mas duas semanas depois o próprio treinador acabou por sair para dar lugar a Carlos Brito. Com Brito, Fonseca jogou apenas cinco vezes até final da época, uma delas na Taça de Portugal. O Estrela desceu de divisão, mas ali estava a começar a etapa mais importante da vida do atual treinador do Shakthar Donetsk: aos ensinamentos que tirara de Quinito – vê-se no Paulo Fonseca treinador muita da bonomia no comportamento e na liderança daquele seu ex-técnico – pôde então juntar a aprendizagem metodológica que foi beber a Jorge Jesus.

O treinador que chegou ao Estrela em 2001 foi, no entanto, Álvaro Magalhães. Fonseca começou a época como suplente, mas após a derrota em Vila do Conde, em finais de Janeiro de 2002, o clube contratou Jorge Jesus, que há pouco deixara Setúbal. A classificação não se alterou muito – subiu de sexto para quarto, falhando na mesma a subida – e a utilização de Fonseca também não – só foi titular em  cinco das 14 jornadas com o novo técnico –, mas o central moçambicano passou a encarar mais a sério a hipótese de vir a tornar-se treinador. Na verdade, ele ainda jogou durante mais três épocas. Em 2002/03 foi maioritariamente titular na campanha que levou à subida de divisão do Estrela, com Jorge Jesus e depois João Alves à frente da equipa. Pôde assim voltar à I Divisão, onde a equipa da Reboleira repetiu o último lugar e a despromoção. A derrota em casa com o Vitória SC, a 2 de Maio de 2004, foi a sua despedida do principal escalão enquanto jogador. Ainda jogaria, muito episodicamente, na campanha que levou a nova subida de divisão, em 2004/05, época após a qual pendurou as chuteiras e se tornou treinador dos juniores do clube.

E a verdade é que Paulo Fonseca é muito melhor treinador do que foi jogador. Após dois anos nos juniores do Estrela, assegurou a manutenção do 1º de Dezembro na III Divisão em 2007/08; quase subiu da II Divisão B à II Liga com o Odivelas em 2008/09 e levou duas vezes o Pinhalnovense aos quartos-de-final da Taça de Portugal (em 2009/10 e 2010/11), andando sempre perto dos lugares de subida à II Liga. Em 2011/12, já no CD Aves, na II Liga, repetiu a presença nos quartos-de-final da Taça de Portugal e ficou a apenas dois pontos da subida à I Divisão. Não subiu a equipa, mas subiu ele, que nesse verão assinou pelo FC Paços de Ferreira. Ali, na histórica temporada de 2012/13, levou os castores nas meias-finais da Taça de Portugal e na terceira posição da Liga, que valia a pré-eliminatória da Champions. Saiu para o FC Porto, onde viria a fracassar, vítima de um plantel demasiado fraco para as exigências do clube. Paulo Fonseca, no entanto, soube dar o passo atrás para dar dois à frente: regressou à Mata Real, onde um oitavo lugar lhe garantiu a entrada no SC Braga. E no Minho, em 2015/16, ganhou a Taça de Portugal, batendo na final o FC Porto de José Peseiro. Nesse Verão optou por deixar o país, assinando pelo Shakthar Donetsk, onde foi campeão ucraniano e venceu a Taça em 2016/17, somando-lhes a Supertaça de 2017/18 e uma campanha invejável na Liga dos Campeões, onde para a semana discutirá com a AS Roma a entrada nos quartos-de-final.