Veio do Boavista para desempenhar um papel às vezes principal mas quase sempre secundário na Académica que ganhou a Taça de Portugal e acabou por ser pedra basilar no nascimento do GD Chaves, quando se mudou para Trás-os-Montes.
2018-03-03

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1937

Minhoto de nascimento, Augusto Domingues, que no futebol ficou conhecido como “Peseta” devido às origens galegas, jogou por Boavista e Académica na I Divisão, chegou a ser utilizado na campanha da Briosa rumo à vitória na edição inaugural da Taça de Portugal, mas a sua contribuição mais valiosa para o futebol nacional terá sido dada como treinador: tinha deixado Coimbra para se estabelecer em Trás-os-Montes, ainda jogou nos escalões secundários pelo Flávia SC, mas tornou-se figura da cidade como primeiro treinador do então formado GD Chaves, hoje a maior potência desportiva da região.

As primeiras referências a Peseta são encontradas na campanha do Boavista no Campeonato de Portugal de 1934, tinha ele acabado de fazer 20 anos: a 13 de Maio, apareceu como interior direito de uma equipa do Boavista que também incluía, por exemplo, Janos Biri e Costuras, e que, vinda do regional portuense, foi eliminada logo à primeira ronda com uma derrota por 1-2 em Vila Real, face à formação local. O futebol nacional estava, porém, em ampla remodelação: a temporada de 1934/35 foi a primeira em que se realizaram os campeonatos da Liga e, fruto da classificação no regional portuense, o Boavista foi apurado para jogar a II Liga. Os axadrezados ganharam a Zona Norte e apuraram-se para jogar a final nacional, contra o Carcavelinhos. Peseta jogou a final, que acabou empatada (1-1), mas já não fez parte das escolhas para a finalíssima, em Coimbra, onde os lisboetas se impuseram por 2-1.

A participação no Campeonato de Portugal não foi tão brilhante, pois o Boavista apanhou logo a abrir com o Benfica, que lhe ganhou por 8-3 em Lisboa e 6-2 no Porto, Peseta, no entanto, estava firme na equipa, tendo alinhado nos dois jogos. E o Boavista crescia: no final desse ano de 1935, conseguiu através do regional portuense o apuramento para o campeonato da I Liga. A estreia, a 12 de Janeiro de 1936, foi especial para o avançado minhoto: foi dele o golo que deu ao Boavista o empate (1-1) face ao Belenenses. Viria a marcar mais dois, nas oito partidas em que participou: um no empate caseiro (2-2) contra o Sporting e outro na vitória (2-0) frente à Académica, em Coimbra. Os golos à Académica, aliás, eram uma constante para ele. Em 1936/37, depois de se sagrar campeão nacional da II Liga, com uma vitória por 2-1 frente ao União de Lisboa na final nacional, o Boavista apanhou a Briosa logo na primeira eliminatória do Campeonato de Portugal. Foi um golo de Peseta que, depois da derrota por 4-1 em Coimbra na primeira mão, deu início à reviravolta boavisteira: os 2-1 no Ameal até foram irrelevantes, pois a FPF transformou-os em 3-0, face à irregularidade na inscrição de um jogador da Académica e o desempate, em Aveiro, voltou a ser favorável aos portuenses, agora por 2-0.

A carreira axadrezada não seria muito mais longa, porém. O FC Porto interrompê-la-ia logo a seguir, com duas vitórias largas, sendo o 6-1 do Ameal, a 13 de Junho de 1937, a última vez que Peseta envergaria a camisola do Boavista. No final do Verão já estava em Coimbra e fazia parte da equipa da Académica que ganharia, só com vitórias, o seu regional, apurando-se assim para jogar a I Liga. Seria o primeiro de seis títulos regionais ganhos por Peseta em Coimbra, onde no entanto nem sempre foi indiscutível. Totalista no primeiro campeonato da I Liga que disputou com a camisola da Briosa, viria a marcar mais dois golos na que viria a ser a última edição do Campeonato de Portugal, onde a Académica só foi travada nas meias-finais, pelo Benfica (2-1 em Coimbra e 1-4 em Lisboa). Semanas depois dessa eliminatória, a 23 de Julho de 1938, Peseta foi um dos 15 jogadores incluídos na longa (quase quatro meses) digressão africana feita (de barco) pela equipa de Coimbra, com partidas em inúmeras colónias portuguesas e até na África do Sul.

De regresso, porém, o minhoto perdeu alguma preponderância. Não jogou uma única vez na I Liga, fazendo a única partida numa competição nacional dessa época a 11 de Junho de 1939, em vez de Nini, como interior-esquerdo na derrota (0-2) frente ao Sporting, na primeira mão das meias-finais da recém-criada Taça de Portugal. Na segunda mão, Albano Paulo recuperou o titular e a Académica ganhou por 5-2, apurando-se para a final da prova. Peseta fez a viagem até às Salésias, a 25 de Junho, para ver, de fato e gravata, os companheiros ganharem ao Benfica por 4-e e assegurarem a surpreendente vitória na competição. Na época em que menos vezes jogou, o nome dele também estava entre os dos vencedores.

Peseta ficou em Coimbra por mais quatro anos, três deles ainda como membro frequente da equipa da Briosa. Em 1942/43, já jogou pouco: foram apenas quatro partidas na Liga, a última das quais a 2 de Maio de 1943, numa derrota caseira com o Olhanense, por 6-2. Uma semana antes, a 25 de Abril, tinha-lhe pertencido um dos golos da vitória (2-1) em Guimarães, face ao Vitória SC. Nessa altura, quase com 30 anos, ter-se-á deixado de futebóis até se fixar em Chaves, onde ainda representou durante três temporadas a equipa do Flávia SC, que em 1946/47 ainda jogou a II Liga. Em Setembro de 1949, o Atlético Clube Flaviense e o Flávia Sport Clube fundiram-se para formar o Grupo Desportivo de Chaves, clube de que Peseta foi o primeiro treinador.