Chegou ao Barreiro, vindo da Moita, como promissor extremo-esquerdo. Foi-se aperfeiçoando e acabou por baixar para a posição de defesa-esquerdo, a que ocupou no primeiro período áureo do Barreirense na I Divisão.
2018-03-01

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1952

Tal como muitos jovens futebolistas da margem sul do tejo na década de 40, Carlos Silva teve de viver com uma limitação: à I Divisão chegava-se pelo campeonato regional e este era quase sempre para o Vitória de Setúbal. Foi por isso que este promissor extremo-esquerdo da Moita só chegou ao grande futebol aos 28 anos, anos depois de a FPF instituir o esquema de subidas e descidas de divisão. Mesmo assim, ainda foi a tempo de protagonizar cinco anos de fulgor, contribuindo para um quinto, um sexto e um sétimo lugares que são marco na história do clube alvi-rubro.

Carlos Silva começou no Moitense, como extremo-esquerdo, posição que o levou à escola de Artur Baeta, no Barreiro. Ali chegou em 1944, com uma rotina futebolística perfeitamente identificada: primeiro, perdia-se o regional para o Vitória FC e depois jogava-se, quase sempre com excelentes resultados, o campeonato nacional da II Divisão. Muitas vezes, porém, este nem tinha fase final: era só uma forma de manter ocupadas as equipas que não jogavam a I Divisão na sequência dos regionais. O Barreirense, com Carlos Silva na linha avançada, ganhou a sua série em 1944/45 e em 1946/47, ficando apenas atrás do Fósforos (de Lisboa) em 1945/46. Em 1947/48, já com subidas e descidas sancionadas pela FPF, a coisa ganhou outro aliciante e a equipa liderada por Francisco Câmara acabou a fase final em segundo lugar, apenas atrás do SC Covilhã, que subiu.

O sonho haveria de se tornar realidade apenas três anos mais tarde. Em 1950 esteve quase – o Barreirense liderou a fase final até à última jornada mas, aí, uma derrota por 7-1 em Marvila contra o Oriental inverteu as posições e levou à promoção dos grenás. Em 1951, contudo, tudo correu a contento, com a superioridade sobre o Salgueiros, o União de Coimbra e o Lusitano de Évora a valer o título de campeão do segundo escalão e a subida ao primeiro. A 23 de Setembro de 1951, aos 28 anos, Carlos Silva estreou-se no principal campeonato, jogando como defesa-esquerdo no empate a três golos com o Estoril, no Campo do Rossio. Viria a jogar todos os minutos desse campeonato, que a equipa comandada por Francisco Câmara acabaria na 11ª posição, valendo a permanência, festejada a quatro jornadas do fim, em Braga, mesmo com uma derrota por 2-1.

Menos utilizado a seguir, na campanha que levou o Barreirense às meias-finais da Taça de Portugal – alinhou em apenas uma partida –, Carlos Silva viria a viver uma segunda época menos feliz do ponto de vista individual: Duarte foi o primeiro defesa-esquerdo escolhido pelo novo treinador, Artur Quaresma, e só a partir de inícios de Fevereiro é que Silva regressou ao onze. Ainda fez 11 das últimas doze jornadas no quinto lugar final do Barreirense, incluindo as vitórias em casa sobre o Sporting (2-1) e o FC Porto (4-0), bem como os empates com o Benfica (1-1 em casa) e o Belenenses (1-1 nas Salésias). Uma segunda volta retumbante, que culminaria com uma Taça de Portugal infeliz no sorteio: depois de afastar o Belenenses (vitórias por 2-1 e 1-0), a equipa do Barreiro teve pela frente o Benfica, que viria a ganhar a prova. Carlos Silva jogou nas duas partidas com o Belenenses e na derrota caseira com os encarnados (0-1), mas já não fez a viagem a Lisboa para a goleada (0-6) que afastou o Barreirense da competição.

Já com 30 anos e o emprego na CP assegurado, o defesa-esquerdo do Barreirense foi mantendo a regularidade. Falhou apenas dois jogos de campeonato no nono lugar de 1953/54 (bem como a eliminação da Taça de Portugal, aos pés do FC Porto), ainda foi maioritariamente titular nos dois anos seguintes (um 11º e um sexto lugares), mas perdeu o estatuto de primeira escolha em 1957, com 34 anos. Mesmo assim, quando as coisas apertaram, o treinador, que era o húngaro Josef Fabian, chamou-o. No jogo da salvação, em casa contra o Sporting, a 17 de Março de 1957, foi titular, ainda que a 20 minutos do fim, com a sua equipa a ganhar por 2-1, tenha recebido a sua única ordem de expulsão no principal campeonato, por agredir Pompeu. O resultado, no entanto, já não se alterou e o único efeito da expulsão foi mesmo o castigo que o impediu de estar no início da campanha que o Barreirense fez até às meias-finais da Taça de Portugal: só se estreou nas meias-finais, com duas derrotas ante o Benfica.

A carreira de Carlos Silva, no entanto, estava a chegar ao fim. Só viria a alinhar mais três vezes com a camisola alvi-rubra, a última das quais a 20 de Outubro de 1957, numa vitória por 4-1 sobre o Caldas SC, no D. Manuel de Melo. Tinha superado os 100 jogos na I Divisão, com esse travo amargo de nunca ter marcado um golo. Mas também é verdade que não era essa a sua missão.