A polivalência e o arreganho fizeram dele um símbolo do Benfica, único clube que representou e ao qual jurou fidelidade para a vida. Só foi assíduo na primeira equipa durante três anos, mas o que lhe importava era o emblema.
2018-02-22

1 de 3
1953

Entrevistado por Varela Silva, no final dos anos 70, quando já era uma “velha glória” do futebol do Benfica, Francisco Calado disse que em miúdo quera ser o Tarzan. Era um sonhador, um homem de ideais, e nenhum se lhe aplicava tão bem como o que mandava defender as cores que ostentava com todas as forças que tinha. Calado não foi um jogador fora-de-série, passou mesmo boa parte da carreira na sombra de companheiros mais talentosos, mas quando optou por pendurar as botas fazia parte da história do Benfica, porque nunca negou esforços e cumpriu em todas as posições a que os treinadores o mandavam jogar. O amor ao Benfica falava sempre mais alto: “Podem colocar-me na categoria que quiserem. Se for preciso até compro as botas, mas do Benfica não saio”, disse um dia.

A verdade é que a carreira de Calado foi feita de alguns anos nas segundas categorias, tapado a meio-campo por internacionais como Francisco Ferreira, Félix Antunes ou Francisco Moreira. Nunca desistiu, fosse por persistência pura e simples ou por apetência pelo desporto. Uma apetência que já revelava desde tenra idade e que até lhe custou o primeiro emprego, era ele ainda um adolescente. Assim que acabou a instrução primária, o jovem Francisco empregou-se como marçano numa alfaiataria, na Baixa lisboeta, mas mutas vezes os fatos ficavam por entregar porque ele se entretinha a jogar futebol no Terreiro do Paço. Chamado à pedra pelo patrão, acabou despedido e com mais tempo para se dedicar ao futebol a sério, que jogava no Águias de Campo de Ourique. Chegou pouco depois ao Benfica, ainda para integrar a equipa de juniores, comandada por Janos Biri, mas nem assim se inibia de jogar à mesma pelo clube do bairro, sempre que conseguia convencer os responsáveis de que não tinha ficado cansado no desafio pela equipa grande.

Campeão nacional de juniores, foi promovido aos seniores, mas andou muito tempo a jogar pelas reservas. A primeira oportunidade foi-lhe dada por Ted Smith, a 29 de Dezembro de 1948, numa deslocação a Olhão em que se viu privado de vários titulares. Calado apareceu como interior esquerdo, o Benfica ainda esteve a ganhar, mas acabou por permitir que o Olhanense virasse para 2-1. Os encarnados ainda viriam a ganhar a Taça de Portugal nesse ano, mas nessa caminhada até à final já Calado não jogou uma única vez. Como não jogaria na conquista do título de campeão nacional e na vitória na Taça Latina de 1949/50 ou na conquista da Taça de Portugal de 1950/51. Nesta época, aliás, até tinha feito seis jogos no campeonato, um a defesa-direito, por ausência de Jacinto, e cinco seguidos como médio desse mesmo lado, entre Janeiro e Fevereiro, quando Smith se viu privado de Moreira. Foram, no entanto, situações episódicas: depois de alinhar na vitória por 4-2 frente ao Oriental, a 4 de Fevereiro de 1951, Calado só voltou a representar oficialmente a primeira categoria do Benfica em Janeiro de 1954, não entrando, por isso, nas conquistas da Taça de Portugal de 1951/52 e 1952/53.

Decisivo para esta mudança foi o argentino José Valdivieso, que entrou no clube em finais de Dezembro de 1953, em substituição de Ribeiro dos Reis, e logo ao primeiro jogo no comando apostou nele para médio-centro, em vez de António Manuel. Apesar de o Benfica ter perdido os três primeiros desafios com ele (contra Académica, FC Porto e Sporting) e de, ao quinto jogo, ter levado 5-0 em Braga, o treinador segurou Calado como titular nas 16 rondas que faltavam do campeonato, que os encarnados terminaram na terceira posição. De caminho, a 7 de Março de 1954, o médio marcou o seu primeiro golo na I Divisão, na conversão de um penalti que abriu uma goleada de 5-0 sobre o Oriental. E mesmo tendo Valdivieso saído no final da temporada, para dar lugar a Otto Glória, Calado já não se punha em causa: na época de estreia do treinador brasileiro, coroada com a dobradinha, só falhou um jogo de campeonato – a vitória frente ao Barreirense, a duas jornadas do fim – mas estava em campo nos 3-0 ao Atlético que, conjugados com o empate do Sporting frente ao Belenenses, permitiu ao Benfica ser campeão em cima do apito final da prova.

Otto Glória começou por utilizar Calado a meio-campo, mas a partir de meio da época passou-o para a linha avançada, primeiro como interior-esquerdo e finalmente como extremo direito. Foi aí, na ponta direita, que Calado alinhou nos dois jogos da primeira eliminatória da Taça de Portugal, frente à CUF (2-2 e 5-1). Já não estaria no resto da caminhada, incluindo a vitória frente ao Sporting, na final, por 2-1, mas assegurara o direito a colocar o nome entre os vencedores da dobradinha. Aliás, o regresso de Calado ao onze não podia ser mais retumbante. Depois desse jogo com a CUF, a 10 de Maio de 1955, Otto Glória só voltou a dar-lhe a titularidade à sexta ronda do campeonato seguinte, a 23 de Outubro. A ocasião era a deslocação ao Jamor, para defrontar o Sporting, que ainda não concluíra a construção do Estádio José Alvalade e Calado partiu da ponta direita para fazer o seu primeiro hat-trick no campeonato, tornando-se assim decisivo na vitória encarnada por 3-1. A época acabaria por não ter títulos para o Benfica, mas a contribuição de Calado não deixou de ser valiosa: este foi, aliás, o campeonato em que ele mais posições ocupou, pois além de extremo-direito foi ainda médio, dos dois lados, defesa-direito e até defesa-central.

A chegar aos 30 anos, Calado ainda alinhou em 12 partidas no título de 1956/57, às quais somou mais quatro na Taça de Portugal – e um golo fundamental, a fazer o empate (2-2) caseiro com o Torreense, a cinco minutos do fim de um jogo na Luz que deu origem a terceiro desafio e assim permitiu que o Benfica chegasse às meias-finais. No entanto, voltaria a não estar na final, que os encarnados ganharam ao SC Covilhã, ganhando mais uma dobradinha. Nesse mês de Junho de 1957, na que foi a sua estreia internacional, teve a honra de capitanear a equipa do Benfica que abriu a Taça Latina com uma vitória por 1-0 frente ao St. Etiènne. Jogou como defesa direito e foi dele, aliás, o golo da vitória, obtido com um remate de longe – seria o último golo de Calado pela equipa principal do Benfica. Além da final dessa Taça Latina (perdida por 1-0 frente ao Real Madrid), Calado ainda representaria o clube por mais dez vezes, na época sem troféus de 1957/58. Esteve, por exemplo, como defesa direito na estreia do Benfica na Taça dos Campeões Europeus, face ao Sevilha FC, em Setembro de 1957 (1-3 e 0-0).

A despedida do campeonato, Calado fê-la a 23 de Março de 1958, com uma vitória por 3-1 frente ao Salgueiros, em Vidal Pinheiro. Seguia-se a Taça de Portugal, mas Otto Glória voltou a tirá-lo do onze, só o chamando a um jogo: a final. Calado já ganhara por duas vezes o troféu, mas não tinha jogado uma só final. A 15 de Junho de 1958, apareceu como defesa-direito na equipa que perdeu a decisão por 1-0 frente ao FC Porto. Retirar-se-ia em seguida do futebol, mantendo a ligação ao clube através do atletismo e do râguebi, cuja equipa continuou a defender até aos 42 anos, em 1969. Fora do futebol, Calado trabalhou para Joaquim Ferreira Bogalho, o presidente que construiu o Estádio da Luz, numa casa de câmbios na Baixa, antes de se tornar bancário, na União de Bancos Portugueses. Faleceu em Fevereiro de 2005, aos 77 anos, no Hospital de São Francisco Xavier, em Lisboa.