Era um médio-ala rápido e com apetite pelo golo, sendo raras as épocas em que não fazia pelo menos uma mão-cheia. Regular e competitivo na I Divisão, foi ainda talismã na segunda, onde em quatro anos somou três subidas por três clubes diferentes.
2018-02-20

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1978

O físico, alto e magro, ágil e veloz, portanto, recomendava-o para a linha lateral e foi por lá que Vitinha foi desenvolvendo o seu futebol, desde os primeiros pontapés, no RFC Fundação, até ao pendurar das chuteiras, no distante futebol de Macau. Pelo meio, o sonho frustrado de fazer carreira no Benfica, a esperança de uma primeira época de sénior no Estoril, a levá-lo à seleção de sub20, e uma carreira onde fez sempre parte das primeiras escolhas dos muitos treinadores que foi tendo, com uma apetência especial por marcar, precisamente, aos encarnados.

Vitinha começou a jogar futebol no RFC Fundação, de onde passou para as muito competitivas camadas jovens do Benfica. Ali fez o seu percurso, mas quando, em 1978, completou os 18 anos, não conseguiu vaga no plantel principal. Restou-lhe a saída para um Estoril que, por influência de José Torres, acolhia muita gente vinda do Estádio da Luz. Ali, Vitinha nem começou como primeira escolha, mas rapidamente convenceu o treinador a dar-lhe a titularidade. A estreia oficial fê-la a 25 de Agosto de 1978, substituindo Fonseca a 20 minutos do fim de um empate a zero com a Académica, em Coimbra. Uma semana depois já era titular na equipa que recebeu o Varzim, perdendo por 5-3 na Amoreira. E logo nessa primeira época falhou apenas quatro jogos de campeonato.

Em Janeiro de 1979, aliás, Vitinha viveu um período de grande fulgor. O seu primeiro golo como profissional, a 14 de Janeiro, abriu uma cavalgada impressionante do Estoril para a baliza do FC Porto, à data campeão nacional, em jogo da Taça de Portugal: Vitinha fez o 1-0 aos 81’, mas os canarinhos só pararam nos 3-0, afastando a equipa de Pedroto da competição. Uma semana depois, na Póvoa de Vazim, o jovem ala lisboeta marcou o primeiro golo no campeonato, a valer um empate a uma bola. Entrou nessa altura nas cogitações da equipa técnica nacional, que nessa Primavera o chamou por três vezes, durante a preparação para a fase final do Mundial de sub20, que se iria realizar no Verão. Vitinha, no entanto, acabou por ser preterido pelo selecionador Peres Bandeira e não fez a viagem até ao Japão.

Isso não o impediu, no entanto, de fazer uma segunda temporada individualmente mais bem conseguida. Aumentou o total de golos no campeonato para três, um dos quais ao Benfica, na Luz, a dar à equipa estorilista uma vantagem de 1-0 ao intervalo – nesse dia 7 de Outubro, os encarnados responderiam com quatro golos no segundo tempo, três deles da autoria do central Humberto Coelho. No final da época, o Estoril foi antepenúltimo do campeonato e acabou por descer de divisão. Vitinha jogou esse ano no União de Lamas, a Norte, mas em 1981 estava de volta à Amoreira, como fixo da equipa que Jimy Hagan ia comandar no regresso a escalão principal. Só entrou na equipa à quarta jornada, em meados de Setembro, mas até final da época só de lá saiu por castigo: na sequência de uma expulsão frente ao Rio Ave, em Vila do Conde, a 2 de Maio de 1982, não pôde estar na derrota em casa com o Sporting (0-3), partida na qual os leões confirmaram matematicamente a conquista do título.

Vitinha voltaria ao onze nas duas últimas jornadas, jogando os 90 minutos na decisiva vitória por 1-0 sobre o Académico de Viseu, que valeu a permanência, no derradeiro dia. Esse objetivo, bem como mais quatro golos – entre eles um ao Sporting, numa derrota por 3-2 em Alvalade, e um bis numa exibição de sonho, a valer um 2-1 frente ao Portimonense, em finais de Março – foram os aspetos mais positivos da época de Vitinha, que ficaria mais um ano no Estoril. A sua última época na Linha, mesmo marcada por grande regularidade, mais uma vez, ficou manchada por duas expulsões, próprias de um jogador que fervia em pouca água. Fez, além disso, mais quatro golos, que começavam a ser uma marca habitual, ganhando no final da época o direito a escolher o destino. Assinou pelo Vitória de Setúbal, onde Manuel de Oliveira estava a montar uma equipa para atacar os lugares europeus e contava com ele.

Mesmo num Vitória FC que acabou o campeonato em quinto lugar, Vitinha foi sempre titular, acabando a época com mais quatro golos e a expulsão da praxe (desta vez num empate a zero em Portimão). A equipa baixou o ritmo na temporada seguinte, acabando-a na 11ª posição e a precisar de penar para assegurar a manutenção, mas 1984/85 foi o primeiro campeonato que viu Vitinha em campo em todas as jornadas. Mais uma vez com quatro golos, dois deles ao Benfica: o primeiro na Luz, numa derrota por 4-3, o segundo no Bonfim, num remate de longe que deu início a uma recuperação de 0-2 para 2-2. O futebol em Setúbal, no entanto, estava a perder fulgor e o Vitória foi disso espelho: em 1985/86, é verdade que uma lesão contraída ante o Marítimo pode explicar parte do problema, mas não só Vitinha teve a sua época menos preenchida como os sadinos acabaram despromovidos.

Foi uma porta aberta para outra faceta da carreira. De regresso ao segundo escalão, fez parte da equipa que Malcolm Allison reconduziu ao topo do futebol nacional, obtendo a primeira de três subidas à I Divisão, com três clubes diferentes: subiria ainda com o Farense de Paco Fortes em 1990 e com o Estoril de Fernando Santos em 1991, proezas às quais pôde somar a promoção à II Divisão de Honra com o Amora FC de Jorge Jesus em 1992. Pelo meio, Vitinha passou ainda dois anos atribulados na I Divisão com a camisola do Farense, chegando mesmo aos sete golos em 1987/88 – mais uma vez, um deles foi ao Benfica, na Luz, no empate a duas bolas que ajudou a despedir Ebbe Skovdhal, em Novembro de 1987. A 21 de Maio de 1989, ainda antes de fazer 30 anos, despedir-se-ia da I Divisão, com uma derrota por 3-1 em casa frente ao SC Espinho que carimbava a despromoção da equipa já liderada por Fortes. Nessa altura já jogava sobretudo à esquerda, para dar lugar a Pitico na direita do ataque.

Até final da carreira, Vitinha falhou o que podia ter sido um grande momento: na Primavera de 1990, já não fazia parte do onze-base do Farense que jogou a final da Taça de Portugal frente ao Estrela da Amadora. Além do Estoril e do Amora FC, representou ainda o SL Fanhões, a convite do seu ex-colega Isidro Beato, que depois o levaria com ele para Macau, numa tentativa de fazer renascer o GD Negro Rubro. Quando o dinheiro macaense acabou, Vitinha pôs ponto final numa carreira que ainda assim o levou a superar a marca dos 200 jogos na I Divisão.