Não ganhou títulos, mas é um dos brasileiros que mais vezes jogou na I Divisão: foram 279 jogos, repartidos entre Leixões, FC Porto e SC Espinho, antes de se perder pelos escalões inferiores e de ter ido dar uma ajuda no futebol dos EUA.
2018-02-16

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1965

Atravessou o Atlântico à aventura, com mais dois compatriotas, mas dentro de campo era o exato inverso: um médio seguro, daqueles que raramente perdia a bola e a quem faltaria mais golo para poder rivalizar com os melhores. Ainda assim, marcou uma era no Leixões, a ponto de António Teixeira o ter levado com ele quando se mudou para o FC Porto. Nas Antas apanhou um período de vacas magras e, em quatro anos, não ganhou nada a não ser o prazer de jogar com alguns dos melhores futebolistas nacionais. Esse saber, aplicou-o durante toda a vida, até depois de se retirar dos relvados, quando emigrou para os Estados Unidos e por lá se tornou treinador de equipas das comunidades imigrantes.

Bené chegou a Portugal em 1963, vindo do Brasil, com 22 anos. Veio ao mesmo tempo que outros dois compatriotas, Geraldinho e Vagner, todos trazidos pelo mesmo empresário, que começou por tentar colocá-los no Vitória FC. Os três foram, no entanto, parar bem mais a Norte, ao Leixões. Bené chegava com fama de ter jogado na Portuguesa dos Desportos, mas não é hoje possível confirmá-lo. A verdade é que o treinador, o igualmente brasileiro José Carlos Bauer, os utilizou a todos assim que pôde: a equipa foi eliminada da Taça de Portugal pelo FC Porto, logo no início de Outubro, antes de começar o campeonato, e à segunda jornada da prova principal, a receção ao FC Porto no Estádio do Mar, a 27 de Outubro, lá estavam os três brasileiros no onze. O jogo acabou empatado a uma bola e quem mais se destacou até foi Vagner, autor da assistência para o golo leixonense, marcado por Ventura.

Logo no primeiro campeonato, que o Leixões acabou na oitava posição, Bené participou em 15 jogos, quase sempre como médio ofensivo – esteve indisponível nos meses de Dezembro e Janeiro, o que explica boa parte das ausências. Na nova época, com a chegada ao clube de José Maria Pedroto, assumiu outra importância, tendo até feito três golos, o primeiro dos quais ao FC Porto (derrota por 3-1 nas Antas), a 1 de Novembro de 1964. Pedroto fê-lo baixar um pouco no campo, para médio-centro, onde Bené impunha um futebol seguro, com maestria no último passe sempre que se aproximava dos homens da frente. Foi, no entanto, só com Manuel de Oliveira, que Bené ganhou a dimensão de um dos melhores médios do campeonato. O técnico do Barreiro chegou a Matosinhos no Natal de 1965, para substituir o brasileiro Jair Raposo, e Bené – que nem sempre tinha sido opção até aí – assumiu a titularidade.

Bené fez dois golos nesse campeonato, ao Beira Mar e ao Belenenses, mas foi num épico jogo dos quartos-de-final da Taça de Portugal, a 19 de Abril de 1966, que mais brilhou: era já a negra, em campo neutro, depois de dois empates a uma bola, e a verdade é que, graças a dois golos de Bené, nem dois prolongamentos chegaram para separar as duas equipas, que recolheram aos balneários com 2-2 no placar. Houve quarto jogo no dia seguinte, Manuel de Oliveira trocou nove jogadores do onze – só ficaram o guarda-redes Rosas e o defesa-central Rocha – e o Leixões acabou por perder (1-2), após prolongamento. Mas se nesse ano o Leixões só conseguiu obter a permanência mesmo à justa, a consolidação do trabalho de Manuel de Oliveira traria uma equipa muito mais segura em 1966/67, com um tranquilo sétimo lugar. Bené só falhou um jogo em toda a temporada – a derrota em Aveiro com o Beira Mar, a 5 de Março de 1967 – marcando por isso presença em 25 jornadas de campeonato e nos oito desafios que levaram o Leixões mais uma vez aos quartos-de-final da Taça de Portugal.

Aliás, o que mais chama a atenção na revisão da carreira de Bené nos anos seguintes é mesmo a regularidade. Em 1967/68, com António Teixeira ao comando, ainda falhou dois jogos, a derrota em casa com o Sporting, logo a abrir o campeonato, e a vitória frente ao Belenenses, a 7 de Abril de 1968. Mas depois desse dia, foram quase quatro anos de presenças ininterruptas: Bené só voltou a faltar a um jogo a 2 de Janeiro de 1972, já no FC Porto, quando Paulo Amaral optou por lançar o ainda adolescente António Oliveira. Foram 96 jornadas consecutivas sempre a jogar no campeonato, com o prazer de ganhar a todos os grandes com a camisola do Leixões. A tal ponto que, em 1970, quando foi contratado para coadjuvar Tomy Docherty no FC Porto, António Teixeira, o treinador que deixara os matosinhenses no 11º lugar do campeonato e os conduzira às meias-finais da Taça de Portugal, ter decidido levar com ele Bené.

À chegada às Antas, Bené formou com Pavão e Custódio Pinto um meio-campo de elevadíssimo rendimento: os três foram titulares nos 30 jogos oficiais que o FC Porto fez nessa época, 26 de campeonato e quatro de Taça de Portugal. O brasileiro, por sua parte, só não esteve nos últimos 12 minutos da temporada, quando, a perder com o Vitória FC, em desafio da Taça de Portugal, António Teixeira (que entretanto herdara a equipa, face à saída de Docherty) o substituiu por um avançado (Nóbrega), na tentativa de evitar a eliminação. Sem sucesso. A equipa, porém, dera boa conta de si, mantendo-se bem viva na luta pelo título até finais de Março, quando um empate caseiro com a Académica (0-0) e uma derrota frente à CUF no Lavradio (0-1) a atirou em definitivo para a terceira posição. Chegava para a presença na Taça UEFA, pelo que a 15 de Setembro de 1971, já com 30 anos, Bené pôde finalmente estrear-se nas provas internacionais: esteve no onze escalado por António Teixeira para a receção aos franceses do FC Nantes, que os portistas acabaram por perder por 2-0, comprometendo desde logo a sua continuidade em prova.

Teixeira, porém, não durou muito tempo à frente da equipa. Em finais de Outubro, após uma derrota em casa com a Académica, que deixava o FC Porto em nono lugar, já a seis pontos do Benfica, foi demitido e substituído pelo brasileiro Paulo Amaral. Este chegou com um pedido claro da direção: renovar a equipa, aproveitar os muitos jovens de valor que as camadas jovens estavam a produzir. E Bené foi um dos primeiros sacrificados. A 19 de Dezembro, após três jogos sem ganhar e com 0-0 ainda no marcador, a 25 minutos do fim, Amaral trocou Bené por mais um atacante (Lemos). O FC Porto ainda ganhou por 1-0 e no jogo seguinte, a visita a Setúbal, já foi o mais ofensivo Oliveira quem surgiu no onze. A época seria, de qualquer modo, para esquecer em termos coletivos: o FC Porto teve quatro treinadores e acabou o campeonato em quinto lugar. No Verão de 1972, o clube apostou no chileno Fernando Riera e Bené teve direito a uma alegria imensa: fez parte da comitiva portista que foi ao Brasil jogar com o Vasco da Gama e viu o pai pela primeira vez em oito anos. As lágrimas jorraram-lhe pelo rosto quando viu a surpresa que lhe tinham preparado.

Riera, contudo, preferiu dar a titularidade na equipa a Celso, médio mais físico contratado ao Boavista, e esta acabou por ser a temporada com menos utilização em Portugal do médio, que já fazia 32 anos e parecia aproximar-se do fim. Mas não seria assim tão simples acabar-lhe com a carreira. É que Riera também não reconduziu o FC Porto aos lugares de topo e cedeu a posição a outra velha raposa: Béla Guttman. E o húngaro devolveu-o à titularidade, colocando-o a par de Marco Aurélio e Pavão no meio-campo portista. Na que acabaria por ser a sua última época de azul e branco, Bené só falhou dois jogos de campeonato, despedindo-se sem ganhar um único título a 29 de Maio, no Estádio do Mar, com uma derrota por 2-0 frente ao Leixões que valeu à sua ex-equipa a permanência na I Divisão. Não era, contudo, o fim da história: Bené ainda jogou um campeonato pelo SC Espinho, descendo de divisão sem grande utilização na equipa de Fernando Caiado, e um último no Leixões.

De regresso a casa, formou com Frasco e Eliseu um meio-campo que chegou para assegurar a manutenção. Acabou, aliás, por ser duplamente providencial nesse objetivo. Primeiro, porque foi titular em 24 das primeiras 29 jornadas. Depois, porque na última, a 30 de Maio de 1976, mesmo tendo começado no banco, entrou a tempo de ajudar a virar um jogo em casa com a CUF no qual, face aos resultados de Beira Mar e União de Tomar, a derrota significaria a descida de divisão. Quando, ainda antes de acabar a primeira parte, Raul Oliveira, o treinador interino, o mandou substituir Serrano, a CUF ganhava por 2-1. Até final, porém, o Leixões ainda virou para 3-2 e Esteves até falhou um dos dois penaltis assinalados a seu favor nesse jogo por António Garrido. Para Bené, ainda assim, este era o final da história na I Divisão. Com 35 anos, seguiu para o SC Lamego, do terceiro escalão. Ainda voltou ao Leixões, em 1977/78, mas já na II Divisão. E jogaria ainda uma época no FC Penafiel, também na Zona Norte da II Divisão, e outra no SC Freamunde, um patamar abaixo.

Quando Bené viu que as pernas já não respondiam para o ritmo do futebol em Portugal, emigrou para New Jersey, onde existe uma das mais numerosas comunidades portuguesas nos Estados Unidos. Ali terá ainda dado uns toques e treinado equipas das ligas secundárias que por essa altura proliferavam. Conta-se também que se terá tornado bombeiro, mas esta é a altura em que se lhe perde o rasto em Portugal.