Foi um dos melhores médios europeus da sua geração, aliando disponibilidade física com sagacidade tática e um remate extraordinário, que lhe valeu alguns dos golos mais importantes do futebol português na década de 80.
2018-01-15

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1977

O jeito sempre divertido e por vezes no limiar da irresponsabilidade articulava-se mal com a contenção que se pedia às grandes vedetas do futebol. Carlos Manuel, a locomotiva que Eriksson ajudou a transformar num dos melhores médios da Europa, era muitas vezes inconveniente nos atos e nas palavras. Na história do futebol português ficou graças a uma mão cheia de golos decisivos e pelos diferendos que foi alimentando.

Essa forma de ser marialva notava-se, por exemplo, nos intervalos dos jogos, quando Carlos Manuel era capaz de puxar de um cigarro e fumá-lo com prazer. Diziam-lhe que isso o prejudicava mas ele era dos que mais corria em campo, desfazendo equipas adversárias com uma mudança de velocidade ou uma arrancada em força, marcando golos de longa distância graças a um pontapé tão forte como certeiro. E jogou na I Divisão até aos 36 anos, quando Filipe Soares Franco o convidou a substituir Fernando Santos como treinador do Estoril. Chegava aí ao fim uma carreira marcada por ruturas. Algumas ainda por explicar, como a de Dezembro de 1987, com o Benfica, quando o clube lhe pagou cinco mil contos para ir para o Sion, na Suíça; outras justificadas, como a que assumiu com a seleção, quando lhe perdoaram a suspensão vitalícia saída da revolta de Saltillo, no Mundial de 1986, e ele se recusou a voltar enquanto Silva Resende fosse presidente da FPF.

E, no entanto, tanto o Benfica como a seleção tinham grandes feitos de Carlos Manuel nas mais belas páginas da sua história. Ninguém esquecera o golo de Estugarda, que em 1985 permitira à equipa nacional ganhar à RFA e apurar-se para o Mundial. Ou o golaço, também de fora da área, com que decidiu a favor do Benfica a final da Taça de Portugal de 1982/83, jogada nas Antas contra o FC Porto após uma longa batalha jurídica, que a empurrou para o início da época seguinte. Era quando as coisas se apresentavam mais complicadas que a força de Carlos Manuel vinha à tona. E já era assim desde a adolescência, quando deixou o liceu aos 13 anos para se empregar numa tipografia em Lisboa. Estávamos em 1971 e Carlos Manuel Correia dos Santos, nascido a 15 de Janeiro de 1958, na Moita, já sonhava ser futebolista desde os quatro anos, quando lhe deram o primeiro equipamento “à jogador”.

A “aventura” em Lisboa não durou muito, pois rapidamente o pai lhe arranjou emprego como aprendiz de serralheiro na CP, no Barreiro. Foi por essa altura que decidiu tentar a sorte no Barreirense: mandaram-no voltar dali a uma semana mas ele acabou por ser aceite na CUF, no mesmo dia em que os técnicos reprovaram Chalana. Abalroado, o treinador das camadas jovens, via-lhe qualidades e insistia para que o experimentassem na primeira categoria, o que no entanto só veio a acontecer quando ele substituiu Mário João como treinador principal. A estreia deu-se a 4 de Abril de 1976, quando entrou para o lugar de Vítor Pereira nos últimos 20 minutos de um empate a um golo contra o SC Braga, no Estádio Alfredo da Silva. Aquele foi, no entanto, o último ponto da CUF no campeonato. Até final, quatro derrotas, uma delas (o 5-1 com o Benfica na Luz) com oito minutos de Carlos Manuel em campo, levaram à descida da qual o clube nunca recuperou.

Carlos Manuel passou então dois anos escondido no escalão secundário. No primeiro, a equipa da CUF ainda discutiu a subida com o Marítimo, baqueando por apenas um ponto. No segundo, a distância já foi maior e quem subiu foi o Barreirense. E nesse ano de 1978, quando lhe recusaram os 10 contos que ele pedia de ordenado, Carlos Manuel mudou-se mesmo para o Barreirense, com Frederico e Araújo. De regresso à I Divisão, chegou nessa época a liderar o troféu Somelos-Helanca, instituído pelo jornal “A Bola” para premiar o futebolista mais regular do campeonato, e estreou-se na seleção de esperanças. Foi titular nos 33 jogos feitos pela equipa nessa temporada, incluindo a vitória (1-0) sobre o Sporting, no D. Manuel de Melo. E fez os primeiros golos no campeonato: a estreia deu-se a 10 de Setembro de 1978, quando num remate de longe deu início à reviravolta do Barreirense frente ao Belenenses no Restelo (de 0-1 para 3-1, e depois 3-2).

Vieram então as primeiras entrevistas, nas quais Carlos Manuel justificou com ironia a força que exibia em campo. “Nove horas por dia a malhar nas rodas do comboio com uma marreta de oito quilos: talvez seja esta a explicação…”, disse, lembrando que continuava a trabalhar na atrelagem de vagões e carruagens. Não o fez por muito tempo, porém: em 1979, com vários convites nas mãos, assinou pelo Benfica, onde conheceu uma ascensão meteórica. Estreou-se a 16 de Setembro, em Aveiro, jogando em vez de Pietra nos últimos 11 minutos de um 3-0 ao Beira Mar. Foi titular pela primeira vez a 7 de Outubro, num 4-1 ao Estoril, na Luz. Marcou o primeiro golo à Benfica a 9 de Dezembro, lançado diretamente por Bento, num 3-0 em Espinho. E a 26 de Março de 1980 já estava na seleção A: Mário Wilson, que era seu treinador no Benfica, chamou-o para ocupar o lugar de Frasco nos derradeiros 13 minutos de uma derrota por 4-1 com a Escócia, em Hampden Park.

Começavam aqui oito épocas e meia de vermelho em que ajudou a ganhar quatro campeonatos nacionais, cinco Taças de Portugal e duas Supertaças. Em todas elas foi fazendo golos, sendo que poucas eram as vezes em que o tiravam do onze. Encerrou 1979/80 com dois golos no campeonato e três na Taça de Portugal, em cuja final ganhou o primeiro troféu, alinhando os 90 minutos na vitória o 1-0 sobre o FC Porto. Em 1980/81, à chegada do treinador húngaro Lajos Baroti, já era indiscutível. Alinhando sobretudo como médio-direito, foi, com Nené, um dos únicos jogadores a marcar golos nas quatro frentes em que a equipa se envolveu: contribuiu com sete para a vitória benfiquista no campeonato, incluindo o primeiro bis, ao Varzim; somou-lhes dois na Taça de Portugal, em cuja final voltou a marcar presença, garantindo a dobradinha com um 3-1 ao FC Porto; fez um na primeira mão da Supertaça, competição em que o Benfica garantiria o sucesso sobre o Sporting, com um 2-2 em Alvalade seguido de um 2-1 na Luz; e assinou ainda mais um na longa carreira da equipa até às meias-finais da Taça dos Vencedores das Taças, de onde foi afastada pelo Carl Zeiss.

Do quase pleno, porém, a equipa do Benfica passou à desilusão. Em 1981/82, fruto de uma lesão de longa duração de Alves, Carlos Manuel passou boa parte da época como médio-centro, mas a equipa não correspondia e claudicou em todas as frentes. Baroti deu então a vaga ao sueco Sven Goran Eriksson, que compreendeu que tinha de dar carris à locomotiva barreirense. Na primeira temporada com o sueco, na qual o Benfica ganhou campeonato e Taça de Portugal, perdendo a Taça UEFA com o Anderlecht apenas na final, Carlos Manuel esteve em 47 dos 49 jogos da equipa. Falhou apenas a vitória por 1-0 no Estoril, a 26 de Setembro, para a Liga, e o empate a um golo em Craiova, na meia-final europeia, por ter visto no jogo com os romenos em casa um amarelo que o afastava. E começaram a sair-lhe os golos decisivos. Na final da Taça de Portugal, que foi jogada apenas no início da época seguinte, devido a um diferendo acerca do local, foi uma bomba de Carlos Manuel a dar a vitória ao Benfica sobre o FC Porto, nas Antas (1-0). Mais tarde, em Outubro de 1983, foi nele que começou a epopeia da qualificação para o Europeu: marcou, outra vez em remate de longe, na vitória (1-0) sobre a Polónia, em Wroclaw, que deixava a seleção a uma vitória sobre a URSS de chegar à festa do futebol continental, que se realizaria em França.

Carlos Manuel já passara definitivamente da direita para o meio, formando agora dupla com o sueco Stromberg, outro poço de força com consciência tática. Em 1983/84, voltou a ser campeão, mas teve duas expulsões a ensombrar-lhe a época: Mário Luís mostrou-lhe dois amarelos, num empate em Braga, para o campeonato, e Alder Dante deu-lhe um vermelho direto em Alvalade, no jogo que acabou por ditar a eliminação do Benfica na Taça de Portugal (1-2 com o Sporting, depois de Carlos Manuel ter dado vantagem às águias, com mais um tiro do meio da rua). No fim da época, lá esteve no Europeu: foi titular nos três jogos da fase de grupos, mas acabou por ser politicamente sacrificado para assegurar o equilíbrio entre blocos de Benfica e FC Porto na meia-final contra a França. Carlos Manuel já era uma estrela no Benfica, porém. Um dos mais ouvidos do balneário, como se viu quando o húngaro Pal Csernai chegou para ocupar a posição de Eriksson, que saíra para a Roma. Csernai levou a equipa a uma época fraca, apenas salva pela vitória frente ao FC Porto, por 3-1, na final da Taça de Portugal, numa tarde em que Carlos Manuel e Pietra passaram das palavras de contestação aos atos e fizeram eles mesmos o onze, nele incluindo Shéu, que o húngaro afastara do onze titular em Novembro para fazer do extremo José Luís um médio-defensivo.

Apesar de tudo, no final dessa época, Carlos Manuel esteve para seguir para o SC Braga: só renovou quatro dias antes de acabar o contrato. Ainda fez dois campeonatos sob o comando de John Mortimore, com um segundo lugar em 1985/86 e o seu último título de campeão em 1986/87. Aí, passara já pela glória e morte na seleção. Primeiro, o mítico golo de Estugarda, a valer a Portugal uma inédita vitória por 1-0 na Alemanha e o regresso a um Mundial, 20 anos depois da saga de 1966. Ou até o golo à Inglaterra, a valer nova vitória por 1-0 na estreia lusa no Mundial do México. Mas também todo o imbróglio de Saltillo, a resultar na eliminação logo na fase de grupos e no afastamento da seleção de todos os convocados, devido às atitudes de reivindicação e contestação que assumiram durante a prova. A derrota por 3-1 contra Marrocos, a 11 de Junho de 1986, foi, para Carlos Manuel, o adeus à seleção, com apenas 28 anos. Uma despedida que ele não quis nunca interromper, recusando-se a regressar mesmo depois de as penas de afastamento aos revoltosos de Saltillo terem sido comutadas.

Em Dezembro de 1987, acabou por sair também do Benfica, rumo ao FC Sion. Difícil de explicar, porque a equipa já vira passar o desorientado Ebbe Skovdahl pelo banco e promovera Toni a treinador principal. O último jogo de Carlos Manuel com a camisola do Benfica foi, aliás, o primeiro de Toni ao comando: uma derrota por 3-0 com o Sporting, na Luz, a 6 de Dezembro, na primeira mão da Supertaça. No regresso a Portugal, vindo da Suíça, em Junho de 1988, foi apresentado como bandeira eleitoral de Jorge Gonçalves na corrida à presidência do Sporting, com cuja camisola se estrearia a 21 de Agosto, numa vitória por 2-0 frente ao Leixões. Carlos Manuel ainda jogou dois anos em Alvalade, mas não conseguiu ganhar troféus. Saiu mesmo da equipa em Dezembro de 1989, quando ao clube chegou o treinador Raul Águas. Dali seguiu para o Boavista, onde no entanto nunca foi constante, nem com João Alves, nem depois com Raúl Águas ou Manuel José, que já o tinham orientado de verde e branco.

Em 1992, aos 34 anos, assinou pelo Estoril, onde ainda jogou durante ano e meio antes de se tornar treinador. Jogou pela última vez na I Divisão a 23 de Janeiro de 1994, na derrota estorilista frente ao Farense, em casa (0-1). Uma semana depois, tendo Fernando Santos saído, foi ele o eleito para o substituir, mas já não salvou a equipa da despromoção. Fechou a carreira com 357 jogos e 49 golos no campeonato, mais 42 jogos e 8 golos na seleção. Como treinador, a sua liderança baseada na liberdade e no companheirismo permitiu-lhe deixar o Salgueiros às portas da qualificação europeia e ser contratado pelo Sporting. Em Alvalade, contudo, falhou, passando a alternar o trabalho em clubes de menor dimensão com tarefas de comentador e até de jornalista na Sport TV. Depois de passagens por Angola, Guiné-Bissau e Irão, é atualmente um dos responsáveis pelo programa Bar Sport TV, onde leva ex-jogadores a contar histórias pitorescas das suas carreiras.