Um mistério, este Bukovac. Apareceu no Sporting para substituir Inácio, quando nem se sabia bem de onde vinha e ainda hoje subsistem dúvidas até acerca da sua nacionalidade. Seguro, só mesmo mais tarde, como empresário.
2018-01-13

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1982

Poucos se lembrarão de ter visto jogar Bukovac. Ele não jogou assim tantas vezes no nosso campeonato e aquelas que jogou não foram memoráveis. Mas quem já via futebol na década de 80 não esquece este búlgaro. Ou será jugoslavo? Enfim, quem já via futebol na década de 80 não esquece este jogador do leste europeu – é jugoslavo mesmo, ainda que muita gente persista no erro de lhe chamar búlgaro – que João Rocha apresentou em 1982 como sucessor de Inácio – que debandara para o FC Porto – e que, com Kostov, ele sim internacional búlgaro de créditos firmados, protagonizou a inovadora rábula dos casamentos fictícios. Foi o ponto alto da carreira de Dusan Bukovac, que ainda insistiu como jogador durante uma mão cheia de anos mas viria a ser muito mais reconhecido no papel de implacável empresário de jogadores. Aí, sim, tem um currículo apreciável.

A história começa, para nós, em 1982. Acabado de se sagrar campeão, o Sporting foi afetado pela mesma irredutibilidade negocial do presidente João Rocha que noutras ocasiões lhe dera tanto jeito: o defesa-central Eurico e o lateral esquerdo Inácio, que acabavam contrato, saíram para o FC Porto. Para substituir Inácio apareceu um jugoslavo com barba e cabelo à Bee Gees, de seu nome Dusan Bukovac. Uma pesquisa aos Cadernos de A Bola daquela altura revela que Bukovac nascera na cidade de Godine – uma cidade que não existe e que quer dizer “ano” em servo-croata. O escrutínio feito naquela altura pelos jornalistas aos jogadores vindos de fora do país não era como hoje, pelo que ninguém se preocupou em descobrir o passado deste jogador. Se o tivessem feito, veriam que além de uma época com pouca utilização no OSC Bremerhaven, na II Bundesliga alemã, apenas se lhe encontravam as presenças no plantel do Olympia Wilhelmshaven, da Oberliga (terceira divisão) Nord. Não era propriamente o tipo de currículo que se esperava de um lateral que vinha para jogar o campeonato português e a Taça dos Campeões Europeus.

Com Bukovac chegou Vanio Kostov, internacional búlgaro que era capitão do Slavia Sofia. E aí se colocou um problema adicional: eram estrangeiros e havia que conseguir inscrevê-los. A solução foi tão célere como imaginativa. Bukovac e Kostov casaram com duas cidadãs portuguesas – que nem conheciam – e adquiriram logo ali a dupla-nacionalidade. A 23 de Outubro de 1982, uma semana depois de Kostov, Bukovac estreou-se assim na equipa do Sporting, entrando antes da meia-hora para o lugar de Festas num Varzim-Sporting em que os leões sofreram a primeira derrota da época (1-2). Mesmo assim, a 10 de Novembro, na primeira mão da Supertaça, contra o SC Braga, António Oliveira apostou nele para titular, no meio-campo. Nova derrota (outra vez 1-2) ditou que Bukovac não voltasse a ter grandes oportunidades em Alvalade. Até final da época só jogou mais quatro vezes, sempre saindo do banco, uma das quais na segunda mão da Supertaça, na qual os leões derrotaram os minhotos por 6-1, permitindo-lhe a conquista do único troféu que alcançou em Portugal.

No Verão de 1983 Bukovac decidiu baixar um patamar e assinou pelo Farense, onde chegara o treinador búlgaro Hristo Mladenov. Estreou-se a 11 de Setembro, ocupando a meio-campo um lugar que nas duas primeiras jornadas tinha pertencido a Jorge Jesus, numa visita ao terreno do Rio Ave, de onde os algarvios saíram vergados a uma derrota por 2-1. Com o treinador búlgaro, Bukovac foi alternando partidas a titular com algumas ausências, mas quando, em meados de Março de 1984, Mladenov foi demitido e substituído por um então estreante Manuel Cajuda, o jugoslavo tornou-se fixo no onze do Farense: não perdeu um minuto de jogo nas derradeiras oito jornadas de campeonato, nas quais os algarvios mantiveram o 12º lugar na tabela. O lugar no onze, aliás, manteve-o na temporada seguinte: foi o defesa-esquerdo mais utilizado por Fernando Mendes, alinhando em 25 das 30 jornadas do campeonato, incluindo as vitórias contra o Benfica (1-0) e o empate (1-1) com o Sporting, no São Luís. Ainda assim, o Farense desceu, porque entrou para a última partida a precisar pelo menos de um empate com o Salgueiros, em Vidal Pinheiro, e perdeu por 3-1.

Esse jogo, a 31 de Maio de 1985, acabaria por ser o último de Dusan Bukovac na I Divisão. Ainda jogou pelo Estoril, no segundo escalão, e ensaiou um regresso ao topo no Portimonense, mas sem chegar sequer a jogar. Aos 30 anos, percebeu que a sua ligação ao futebol seria muito mais proveitosa noutras atividades e investiu na carreira de empresário, na qual chegou a conseguir acordos de nível estratosférico. O contrato de pensão que negociou para Balakov no VfB Estugarda, em nome do qual o búlgaro assegurou que receberia um milhão de euros por ano enquanto fosse declarado apto para jogar futebol por uma junta médica, ainda hoje é dado como paradigmático de capacidade negocial. Bukovac dedicou-se ainda ao golfe – costuma jogar nos encontros de amadores pelo Sporting – e já esteve envolvido em dois atos eleitorais do clube de Alvalade: nas últimas eleições fez parte da Comissão de Honra de Bruno de Carvalho, mas antes disso, em 2009, tinha sido o diretor desportivo apresentado por Paulo Pereira Cristovão, quando este concorreu a umas eleições do clube.