Figura incontornável do futebol da zona leste de Lisboa, Morais trocou as riscas verticais do Fósforos pelo recém-nascido grená do Oriental. Defesa fiável, foi o primeiro número 3 do futebol português.
2017-12-08

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1949

Houve uma altura, a meio da década de 40, em que as gentes da zona leste de Lisboa decidiram que queriam bater-se de igual para igual com os outros. Decidiram então juntar forças. Entre os rapazes que jogavam no Fósforos, os que defendiam as cores do Marvilense e os que usavam o emblema do Chelas FC, fez-se uma só agremiação: o Clube Oriental de Lisboa. Na altura, o que mais impressionava os observadores era a quantidade de miúdos que acorriam à Azinhaga dos Alfinetes, onde antes havia dois campos e passou a haver só um, para jogar futebol. O Oriental era um clube progressista, com ideias novas, como se viu no seu primeiro jogo oficial: a 15 de Setembro de 1946, nas Salésias, em desafio da primeira jornada do Campeonato de Lisboa, as camisolas do COL apresentavam… números nas costas. Algo que até aí só se vira a clubes ingleses. Com o número 3 jogou Morais.

Morais era ainda um rapaz de 18 anos. Vinha das categorias inferiores do Fósforos, a equipa que metia mais gente naquele primeiro onze do Oriental (além dele, estavam o guarda-redes Fernando, o médio-direito Isidoro, o médio-esquerdo Carlos Costa, o extremo-direito Roçado e o interior-direito Leitão). A alinhar como defesa-esquerdo, coube-lhe a camisola com o número 3. Mas a história das camisolas teve muito que se lhe dissesse: a inovação não chegou a tempo de Barcelona e, já tendo prometido “uma surpresa”, a direção do clube improvisou, mandando tingir umas camisolas de grená e estampando lá um emblema simples, diferente daquele que tinha sido adotado pelo novo clube e que ia buscar elementos aos emblemas dos três clubes. O jogo acabou por sorrir ao Belenenses, por 2-1, mas o Oriental ainda haveria de ganhar aos azuis na segunda volta, por 4-3, num desafio que deu que falar e começou a marcar a quebra do que era então o campeão nacional.

O percurso do Oriental foi sendo feito pela II Divisão. Em 1947/48, acabou a prova em terceiro lugar da Zona C, atrás do Barreirense e da CUF. Em 1948/49 já só perdeu a subida para a Académica devido a castigo: o Oriental liderava a tabela da fase final quando se provou que tinha subornado os jogadores do FC Famalicão. Pires de Lima, ministro da educação, afastou minhotos e lisboetas e decretou uma final nacional entre a Académica e o Portimonense, que os estudantes ganharam. Mas em 1949/50 o Oriental concretizou mesmo o sonho da subida: ganhou a Zona C e acabou a fase final em segundo lugar, atrás apenas do Boavista, mas festejando na mesma o acesso à I Divisão com os axadrezados. A 17 de Setembro de 1950, quatro anos depois da estreia na primeira equipa, Morais estava a jogar pela primeira vez na I Divisão, lançado como titular por Alberto Augusto numa deslocação ao terreno da Académica. O Oriental perdeu por claros 5-0, mas haveria de acabar o campeonato num extraordinário quinto lugar, apenas atrás de Sporting, FC Porto, Benfica e Atlético. Morais jogou todos os minutos do campeonato, incluindo a vitória (3-1) sore o Belenenses ou o empate a zero com o Sporting, no Carlos Salema – e atenção que os leões marcaram 91 golos em 26 jornadas. A 21 de Janeiro de 1951 fez ainda, de livre direto, um golo nos 5-1 ao Boavista.

Alternando entre as duas laterais da defesa e aventurando-se por vezes no meio-campo, sempre que o treinador queria dar uma faceta mais defensiva à equipa, Morais era um dos fixos daquele primeiro Oriental. Na segunda época, falhou dois jogos, por lesão contraída em Novembro: saiu a 10 minutos do fim de uma goleada por 6-0 ao Barreirense. Já por essa altura o Oriental andava pelo fundo da tabela, adivinhando o que viria a acontecer. Apesar de no decurso do campeonato ter ganho ao Sporting e de na reta final da prova ter transformado o Carlos Salema num feudo inexpugnável, onde de seguida não passaram Académica, Salgueiros, Belenenses e Estoril, o Oriental entrou na última ronda a depender de terceiros: para escapar à descida, tinha de ganhar ao Boavista e esperar pela derrota do Atlético, em casa, com o SC Covilhã. Os orientalistas até ganharam por 3-0, mas o SC Covilhã, que seguia tranquilo a meio da tabela, apanhou cinco em Alcântara.

Para Morais e o Oriental era o regresso à II Divisão. Curto, por sinal. A vitória na Zona Sul conduziu o clube à fase final e ao título de campeão nacional do escalão secundário, festejado a uma jornada do fim com uma vitória no terreno do Salgueiros (1-0). Privado durante grande parte da nova época de jogar no Engenheiro Carlos Salema, que sofria obras de beneficiação, o Oriental voltou a descer. Morais fez mais um golo – outra vez de livre, numa derrota por 3-2 com o Lusitano de Évora – mas, apesar de até ter conseguido empatar com o FC Porto e o Benfica, o Oriental foi último da tabela e regressou à II Divisão. Por lá passou mais dois anos: em 1954/55 ainda ganhou a Zona Sul, mas perdeu o direito à subida na fase final, atrás de Torreense e Caldas; e em 1955/56 voltou a ser campeão do segundo escalão, êxito garantido com um épico 3-0 em deslocação ao terreno do Coruchense.

A aproximar-se dos 30 anos, Morais garantiu mais dois anos na I Divisão. Tranquilo o primeiro, com mais um golo – desta vez à Académica e em lance de bola corrida –, sofrido o segundo, com mais uma despromoção. A 23 de Março de 1958, mais de uma década depois de ter vestido aquela camisola com um número nas costas, Morais despedia-se da I Divisão com uma derrota por 3-1 em Torres Vedras. Face às ausências de Capelo e Rogério, teve a honra de capitanear a equipa nesse momento, bem como nos jogos da Taça de Portugal que se seguiram. O Oriental voltava à segunda divisão, de onde já só sairia depois de Morais pendurar as chuteiras.