Lucas era um tipo de sorriso fácil. Quando os médicos lhe descobriram problemas cardíacos, abandonou os relvados e, mantendo a boa disposição, assinou pelo Sindicato. Morreu, ainda assim, demasiado jovem.
2017-10-25

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1999

O gosto pelo futebol falou sempre mais alto em João Lucas. Depois de ver dez anos de carreira culminar num abandono prematuro, aos 28 anos, por força de uns exames médicos que lhe revelaram uma displasia arritmogénica do ventrículo direito, não deixou de continuar ligado ao desporto que o apaixonava. Tornou-se delegado do Sindicato dos Jogadores para a Zona Norte, jogava a brincar no Pasteleira, do Porto, sempre monitorizado por um aparelho que lhe media os batimentos cardíacos, ao mesmo tempo que se dedicava à atividade de DJ e preparava uma biografa capaz de alertar para os perigos da morte súbita em desportistas. Acabou por falecer vítima de paragem cardio-respiratória, sete anos depois de ter anunciado que tinha de colocar o ponto final.

Natural das Caldas da Rainha, Lucas inciou-se no Ginásio de Alcobaça, em cujas camadas jovens se destacou a ponto de chamar a atenção de um clube maior na Zona Centro, a Académica. Chegou a Coimbra para jogar nos juniores, onde José Viterbo o foi desenvolvendo, até se tornar um médio rotativo mas ao mesmo tempo criativo e dotado de boa técnica. Ainda assim, em 1998, quando é altura de dar o salto para os seniores, não o julgam pronto e o jogador acaba emprestado ao SC Pombal, que falha por um ponto a subida na Série D da III Divisão. A rodagem serviu de alguma coisa e, a 22 de Agosto de 1999, Carlos Garcia convocou-o para a estreia da Académica no campeonato da II Liga, na Figueira da Foz. A 8’ do fim, com o resultado em 3-0, fê-lo entrar em campo para o lugar do internacional Vítor Paneira. Mas a equipa da Académica era forte – tinha, por exemplo, João Tomás, que em Janeiro saiu para o Benfica – e Lucas não teve muitas hipóteses: só foi titular uma vez, nos 6-1 ao Alcains, na Taça de Portugal, a 14 de Novembro, e após mais uns minutos em campo numa derrota em Albufeira, com o Imortal, foi mas uma vez emprestado, desta vez ao Anadia FC.

A época de 2000/01 foi, assim, a primeira de afirmação de Lucas na equipa da Académica. Mas não foi uma boa época. Carlos Garcia saiu em Outubro, deixando a equipa em 14º lugar. Hassan Ajenoui, que tinha orientado Lucas na Anadia, assegurou a continuidade até meados de Dezembro, altura em que apareceu em Coimbra o treinador que mais acreditou em Lucas: João Alves. Seria, contudo, em 2001/02, ano da subida da Académica à I Divisão, que Lucas se tornaria titular indiscutível, marcando mesmo três golos (ao GD Chaves, ao Estrela da Amadora e ao União de Lamas) e sendo o mais utilizado do plantel. A festa da subida, feita apenas no último dia, depois de a Briosa ter chegado a meio da prova com 11 pontos de avanço sobre o quarto classificado. A 5 de Maio de 2002, Lucas estava no onze que Alves fez alinhar – mesmo tendo sido expulso, por acumulação de amarelos, na penúltima jornada, uma derrota por 3-1 em Felgueiras – na vitória sobre a Naval de Wender (que viria a estar intimamente ligado ao resto da história do médio).

Lucas pôde assim estrear-se na I Divisão a 23 de Agosto de 2002, num jogo com o Sporting recém-coroado campeão, marcado para a Figueira da Foz. Alinhou a lateral direito e a Académica perdeu por 2-0 num Estádio José Bento Pessoa a rebentar pelas costuras. A 6 de Outubro, no Funchal, marcou o primeiro golo na Liga, ainda assim incapaz de impedir uma derrota da Académica por 2-1. E uma boa primeira metade de época valeu-lhe mesmo a chamada à seleção B para um particular com a Eslovénia, em meados de Janeiro. Uma lesão, a meio desse jogo, porém, custou-lhe o resto da temporada, no qual, já com Artur Jorge à frente da equipa, a Académica conseguiu a manutenção de forma dramática, na última jornada, em Taveiro. Lucas é que só voltou a jogar oficialmente a 24 de Agosto, já no novo campeonato, numa vitória por 2-0 sobre a UD Leiria, na Marinha Grande. E foi sob o comando de João Carlos Pereira que se tornou imprescindível numa segunda metade da temporada decisivo para mais uma manutenção alcançada in-extremis, com sete vitórias nas últimas 13 jornadas. Entre elas, uma goleada por 5-0 sobre o Belenenses, no Restelo, o resultado mais volumoso da história do clube em saídas, no qual Lucas fez o último golo.

O jogo da manutenção, um 4-1 ao Estrela da Amadora, a 9 de Maio de 2004, foi o último de Lucas com a camisola negra da Briosa. Teve nesse dia – como tivera durante a maior parte da época – a honra de ser capitão de equipa. No defeso, porém, mudou-se para o Boavista, equipa com outras ambições, que ainda há três anos tinha sido campeã nacional. No Bessa, com Jaime Pacheco, depois Carlos Brito, Petrovic e mais uma vez Pacheco, Lucas só não jogou quando não pôde e ainda fez três boas épocas, com vitórias sobre o FC Porto e o Benfica. Esteve, por exemplo, nos 3-0 ao Benfica de Fernando Santos, a 9 de Setembro de 2006. E quando, a 19 de Maio de 2007, alinhou nos 90 minutos de uma vitória por 2-1 sobre o Marítimo, que garantia a nona posição na Liga aos axadrezados, estava, sem o saber, a despedir-se da competição. No final da época transferiu-se para o Estrela Vermelha de Belgrado, à data campeão da Sérvia e envolvido na fase de qualificação da Champions.

Lucas anda fez a estreia nas competições europeias, alinhando na vitória por 1-0 sobre o Levadia Tallin, da Estónia, a 1 de Agosto de 2007. Esteve nas quatro partidas da qualificação para a Liga dos Campeões – e o Estrela Vermelha foi afastado pelo Glasgow Rangers – e depois no play-off e na fase de grupos da Liga Europa. Faria o último jogo em Braga, a 19 de Dezembro de 2007, entrando aos 18 minutos para o lugar do defesa senegalês Gueye. Os sérvios perderam por 2-0 (um dos golos foi de Wender) e das depois Lucas soube que tinha de parar. Tinha-lhe sido diagnosticada uma displasia arritmogénica do ventrículo direito que lhe deixava a vida em risco se continuasse a jogar futebol profissional. Lucas anunciou formalmente o abandono da carreira em Março de 2008 e assumiu as funções de delegado para a Zona Norte do país do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol. Queria sensibilizar todos para os riscos da morte súbita no desporto – razão pela qual o Sindicato lançou já, depois da sua morte, o Projeto João Lucas, destinado a ajudar na prevenção e investigação deste problema. Ao mesmo tempo, ia jogando para matar saudades no Pasteleira (onde também estava Wender) e nos veteranos do Boavista, ainda que sempre monitorizado por um aparelho que lhe media os batimentos cardíacos.

Lucas faleceu em Maio de 2015, vítima de paragem cardio-respiratória, deixando o futebol português em estado de consternação. Tinha 35 anos.