No SC Braga, foi uma espécie de faz-tudo, ocupando várias posições em campo. Atravessou duas gerações de “guerreiros”, desde os que o acolheram à saída dos juniores, em 1950, aos que lá estavam na despedida, em 1966, na conquista da Taça de Portugal.
2017-10-24

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1955

O que podia ter sido o jogo da vida de Armando, ele já não o disputou. Atrás das costas, tinha década e meia de batalhas, umas ganhas e outras perdidas, mas todas com o vermelho e branco do SC Braga. Quando chegou o desafio mais importante da história do clube, a final da Taça de Portugal de 1966, a vida trocou-lhe as voltas: já tinha 34 anos, ia retirar-se do futebol, assinara contrato para ir trabalhar para o Canadá no final da época e já não pôde sequer ver a forma como Perrichon marcou ao Vitória FC o golo que garantiu que o troféu ia para o Minho. Teve, no entanto, a sua quota parte de mérito, uma vez que anda capitaneou a equipa na caminhada até à final, marcando nela, inclusive, um golo, coisa que desde que recuara para a defesa era rara nele.

Filho de um chapeleiro famoso em Braga, Armando era visita frequente nos treinos do SC Braga. Um dia, tinha ele 16 anos, e tendo um dos jogadores caído lesionado, o treinador, Alberto Augusto, acercou-se da assistência em busca de um substituto. Alguém apontou para o jovem Armando que, mesmo com uma bota mais pequena do que a outra, impressionou na posição de defesa-direito. No final, pediram-lhe para passar pela sede do clube para assinar a ficha e foi integrado na equipa de juniores. Por lá ficou, até que, em finais de Outubro de 1950, Josef Szabo o levou na comitiva que ia jogar um particular a Viseu. O treinador húngaro terá gostado do que viu e, logo a seguir, apostou nele para a viagem à Covilhã, onde o SC Braga ia jogar a oitava jornada do campeonato. A 5 de Novembro de 1950, Armando estreava-se na I Divisão, ainda que com um resultado pouco animador: derrota por 4-0.

Não jogou mais nessa época, que os minhotos terminaram na sétima posição. E, tendo-se metido o serviço militar pelo meio, colocou o futebol em segundo plano durante uns tempos. A fazer a recruta em Lisboa, foi um dia ver um Atlético-Barreirense, onde reencontrou Szabo, que na altura dirigia os alcantarenses. O velho treinador falou-lhe na hipótese de se mudar para a capital, mas Armando acabou por regressar a Braga onde, contudo, Fernando Vaz não lhe deu grandes hipóteses na equipa que obteve o quinto lugar, no campeonato de 1953/54. Sem jogar, aliás, acabou por rumar a Fafe, onde se foi mantendo ativo. No final da época regressou e Mário Imbelloni, investido na posição de treinador-jogador, revelou-lhe que tinha outras ideias para ele: “tu vais ser avançado-centro”, disse-lhe. O argentino tinha sido expulso na primeira jornada, contra o Sporting, e não poderia jogar na segunda, no terreno do FC Porto. Assim sendo, nas Antas, foi na frente do ataque que jogou Armando, tendo os bracarenses arrancado ali um excelente empate face ao FC Porto de Vaz, a prenunciar o que viria a ser a repetição do quinto lugar anterior.

Nessa época, Armando acabou por jogar em cinco posições, entre a defesa, o meio-campo e o ataque, marcando um golo, na derrota em casa frente ao Boavista (1-2), a 13 de Março de 1955. Provava a utilidade que voltou a ter na temporada seguinte, na qual até fez três golos, contra o Belenenses, a CUF e o Vitória FC. O SC Braga, no entanto, acabou por ficar em último lugar do campeonato e caiu no segundo escalão. Não demorou muito a regressar, ainda assim: segundo classificado da Zona Norte da II Divisão, apenas atrás do Salgueiros, repetiu depois na fase final esse mesmo posicionamento, graças a um final renhido, em que salgueiristas, bracarenses e vimaranenses acabaram com os mesmos pontos. Estava garantido o regresso à I Divisão, onde nos quatro anos que se seguiram Armando, tanto com Janos Szabo como com José Valle, se fixou mesmo na posição de defesa-direito para a qual Alberto Augusto o tinha escolhido. É dessa altura a alcunha que ganhou nos campos de futebol: “Hesita”. Tudo porque a cada bola mais difícil que ele disputava, José Maria I, um dos parceiros de defesa, gritava-lhe sempre: “Vai! Não hesites!”.

Nesses quatro anos, nos quais o SC Braga voltou a conseguir um quinto lugar (em 1957/58), Armando falhou apenas nove jogos do clube, entre campeonato e Taça de Portugal. Quando a equipa desceu outra vez à II Divisão, sob o comando do regressado Josef Szabo, em Maio de 1961, ele já era capitão. Tal como foi na qualidade de capitão que, três anos mais tarde, viveu a epopeia do regresso, na que se diz ainda hoje ter sido a maior enchente de sempre no Estádio 1º de Maio. Aconteceu a 19 de Abril de 1964 e o SC Braga subiu com uma vitória em casa face ao outro candidato, o SC Covilhã, por 4-1. A união de todo o Minho, hoje difícil de imaginar, foi de tal maneira evidente que dias depois da partida os dirigentes bracarenses se deslocaram até Guimarães para agradecer o apoio dos adeptos locais. Já com 32 anos, com o título nacional de  campeão da II Divisão conquistado na final frente ao Torreense (2-1), Armando começava a pensar na retirada, mas ainda jogou por mais duas épocas na I Divisão, com a regularidade de sempre.

O grande destaque das duas últimas temporadas de Armando como futebolista, no entanto, foi a participação na Taça de Portugal. Em 1964/65, depois de um décimo lugar no campeonato, a equipa minhota chegou às meias-finais, onde foi eliminada pelo Benfica com duas derrotas, uma delas copiosa (9-0 na Luz, com bis de Eusébio e Pedras e hat-trick de Yaúca). No ano seguinte, no entanto, tudo seria diferente. O SC Braga repetiu o décimo lugar na Liga, da qual Armando se despediu a 24 de Abril de 1966, com uma derrota em casa face ao Vitória SC, por 5-3. Com ele em campo, a equipa tinha acabado de eliminar o Benfica nos quartos-de-final da Taça de Portugal (4-1 em casa e 1-3 na Luz). José Valle, o treinador, demitiu-se e foi substituído pelo jogador Rui Sim-Sim na fase decisiva da prova. Mas Armando, que até marcara o último golo da sua carreira nos 5-2 à Ovarense com que começara a caminhada, em Setembro, tinha de precaver o futuro: assinara um contrato de trabalho no Canadá e foi para lá que foi, já não marcando presença na renhida meia-final com o Sporting (vitória bracarense na negra, depois de dois empates a uma bola) nem na final com o Vitória FC (1-0, graças ao tal golo de Perrichon, ainda hoje celebrado na cidade).

A Taça, porém, também é dele. Só não pôde erguê-la na varanda do Estádio Nacional.