Os argumentos técnicos ter-lhe-iam permitido jogar mais à frente no campo, mas foi como defesa-lateral que desbravou caminho, cometendo a então rara proeza de chegar às seleções nacionais como jogador do Marítimo.
2017-10-13

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1977

Na família de Olavo, o futebol era coisa importante. O seu avô materno era Alexandre Rodrigues, extremo-esquerdo do Marítimo nos anos 20 e 30 e mais tarde treinador, dirigente e mecenas do clube de que chegou a ser também o sócio número um, até morrer, com 90 anos. O tio era Adelino Rodrigues, de quem se diz que era pior futebolista mas igualmente bom dirigente, tendo sido um dos rostos por trás do crescimento do Marítimo na década de 70, na qualidade de diretor do departamento de futebol. Se é verdade que quem sai aos seus não degenera, então o pequeno José Olavo limitou-se a ser fiel à tradição familiar e aos 18 anos, com idade de júnior e chamadas à seleção nacional da categoria, já jogava entre os seniores do clube da família, que era também o dele, de coração.

Para que se perceba bem a dimensão do feito de Olavo é preciso compreender o Portugal e a Madeira dos anos 70. As deslocações entre o Funchal e o continente eram tão difíceis que foi preciso fazer aprovar uma alteração regulamentar que autorizasse o “campeão das ilhas” a jogar nas competições nacionais. Isso só aconteceu em 1973, altura em que os verde-rubros foram admitidos na Zona Sul da II Divisão. Foi nestes tempos complicados que Olavo mereceu a chamada à seleção nacional de juniores que em 1976 foi jogar o Torneio de St. Malo, a França. É verdade que o selecionador era José Moniz, um madeirense, que podia até ter feito ponto de honra na presença de um conterrâneo, mas todo o percurso do jovem Olavo viria depois a dar-lhe razão. E as suas qualidades como lateral, a velocidade e a técnica apreciável, levaram-no a registar mais internacionalizações, nomeadamente as conseguidas em 1979 e 1980 na seleção de sub21 que jogou a qualificação para o Europeu.

Para trás, ficava um início de carreira de grande destaque nas equipas jovens do Marítimo. Olavo ainda chegou a jogar no Académico de Fátima, um emblema de estudantes, por cedência do seu clube, mas quando se destacou, precisamente num jogo contra a equipa verde-rubra, o tio Adelino chamou-o de volta. E em 1976/77, ainda antes de completar 19 anos, Olavo já estava na equipa de seniores que Pedro Gomes conduziu ao título de campeã nacional da II Divisão e à subida natural ao escalão principal. Aqui chegado, no entanto, Olavo nem esteve entre as primeiras escolhas do treinador: estreou-se no campeonato apenas a 20 de Novembro de 1977, quando o Marítimo se deslocou à Luz, para defrontar o Benfica. Terá Pedro Gomes pensado que, conhecendo Chalana da seleção de juniores, o miúdo seria a melhor arma para travar o pequeno genial, mas a verdade é que lhe saiu o tiro pela culatra, pois o jogo acabou com 6-0 a favor dos encarnados.

Olavo, no entanto, ganhou o lugar. Até final desse campeonato, foi titular em todas as partidas à exceção de uma – a derrota por 6-1 em Braga – contribuindo, por exemplo, para as três últimas jornadas em que a baliza de Quim ficou a zeros. A três jornadas do final, a equipa já dirigida por Fernando Vaz era penúltima na tabela, mas a vitória por 1-0 em Guimarães, o empate a zero em Setúbal e os 2-0 em casa ao Varzim, no encerramento da prova, permitiram-lhe acabar em 12º lugar, com os mesmos pontos que o Portimonense, que desceu de divisão. O Marítimo, contudo, prosseguia entre os grandes. Olavo mostrava que podiam contar com ele e a segunda época foi disso prova: esteve em campo nos 2700 minutos do campeonato que o Marítimo concluiu num mais descansado 10º lugar. Esteve, por exemplo, na vitória sobre o Benfica (2-1), nos Barreiros, a 4 de Março de 1979, o primeiro sucesso deste Marítimo sobre um dos grandes do futebol nacional.

Aliás, apesar da estreia aziaga, os jogos com o Benfica costumavam correr-lhe bem. A 1 de Junho de 1980, no encerramento do campeonato seguinte, voltou a estar na equipa que travou o Benfica nos Barreiros, desta vez com um empate a uma bola. Jogo importante para ele, porque regressara uma semana antes de uma lesão grave, contraída em Janeiro, numa partida em casa contra o Portimonense, e que lhe roubara meio campeonato. Foi essa a razão pela qual Olavo não tomou parte na excelente campanha que o Marítimo assinou nessa edição da Taça de Portugal, da qual foi afastado apenas nas meias-finais, pelo FC Porto. As lesões, aliás, foram o calvário deste lateral veloz e dotado de boa técnica: em Janeiro de 1981, voltou a sofrer grande percalço, desta vez no jogo em casa com o Sporting. Forçado a sair antes da meia-hora, perdeu o resto da temporada que acabou com a queda do Marítimo para a II Divisão, devido ao 15º lugar que lhe coube no final.

É verdade que Olavo ainda foi pedra basilar no regresso, por via do primeiro lugar na Zona Sul da II Divisão, alinhando em todas as partidas que conduziram à subida. E que em 1982/83 voltou a impor a regularidade como arma, sendo mais uma vez titular a tempo inteiro na equipa de António Teixeira e depois Mário Lino. Isso não chegou, contudo, para evitar nova despromoção. E Olavo não podia saber que a 5 de Junho de 1983, no dia em que se consumou a descida de divisão, por via de uma derrota por 3-0 em Portimão, com apenas 24 anos, estava a fazer o seu último jogo na I Divisão. Um carrinho que o atingiu em zona infeliz, num jogo contra o Nacional, nos Barreiros, a contar para o campeonato da II Divisão, partiu-lhe a perna e dessa lesão Olavo nunca chegou a recuperar. Ainda foi operado duas vezes, integrou o plantel do Marítimo que voltou a jogar a I Divisão, em 1985/86, mas acabou por abandonar o futebol e ocupar o lugar de deputado na Assembleia da República, para o qual fôra eleito nas listas do PSD, nas legislativas que conduziram à nomeação do primeiro governo de Cavaco Silva.

Olavo não ficou muito tempo na política. A morte prematura dos pais, João e Maria Clara, levaram-no a regressar ao Funchal para se ocupar dos negócios da família, na área dos vinhos. Trabalha hoje como empresário do ramo imobiliário, dedicando-se à recuperação de prédios no Funchal que o viu brilhar como jovem estrela do futebol.