Era um predestinado do desporto, como pode comprovar-se pelo êxito que teve em várias modalidades antes de escolher o futebol. Neste, representou e treinou todos os clubes do seu Barreiro. E fartou-se de marcar golos.
2017-10-01

1 de 8
1952

João Júlio era rápido. E nadava bem. E tinha boa compleição física. Desde petiz que percebeu que o desporto era coisa para ele: campeão regional de 50 e 100 metros no atletismo, praticante bem sucedido de natação e basquetebol, cedeu ao apelo da bola e das chuteiras, passando a envergar a camisola listada do Barreirense. Ao longo de uma carreira longa em que fez entrar a alcunha “Faia” no ouvido dos adeptos portugueses fez mais de 100 golos na I Divisão, coisa que só estava ao alcance dos verdadeiramente grandes. E não só jogou como treinou os três clubes da terra: fossem do Barreirense, da CUF ou do Luso, nenhum dos que discutiam futebol ao largo da barbearia Paris tinha más palavras para dizer dele.

A história de Faia começa com o Barreirense ainda na II Divisão. Aos 18 anos, ainda não era titular da equipa que, num jogo dramático, venceu o Lusitano de Évora no Campo do Rossio e assegurou o regresso ao escalão principal. Mas a conquista também teve o nome dele, pois alguns jogos fez durante a época, deixando adivinhar desde tenra idade que ia ser um nome incontornável na equipa. E assim foi logo desde a época seguinte: ausente nas duas primeiras partidas, foi chamado ao onze para a terceira jornada, uma receção ao Boavista, a 7 de Outubro. Com 19 anos acabados de fazer, mostrou logo ao que vinha: aos 38 minutos de jogo, bateu Mota para o segundo golo de uma vitória fácil por 4-0. Foi o primeiro de cinco golos que fez nesse campeonato, aos quais somou mais um na Taça de Portugal. O suficiente para chamar a atenção do Sporting, que no final da temporada o pediu emprestado ao Barreirense para o levar numa digressão ao Brasil.

A participação na Copa Rio, contudo, não terá sido suficiente para convencer os responsáveis leoninos a avançar para a contratação de Faia. Bem devem ter-se arrependido, porque logo na temporada seguinte o avançado-centro desatou a marcar golos de forma imparável. Foram 20 em 24 jogos, a começar logo com um “hat-trick” ao SC Covilhã nos 3-1 da primeira jornada, contribuindo para o excelente quinto lugar do Barreirense. Faia fez ainda mais cinco “bis” neste campeonato, um deles ao Sporting, na vitória dos Barreirenses por 2-1, em casa. Aliás, neste seu primeiro campeonato “a sério” cometeu a proeza de marcar aos três grandes, pois pertenceu-lhe ainda o golo do empate em casa com o Benfica e um dos que valeu ao Barreirense golear o FC Porto por 4-0.

Um ano volvido, Faia resolveu mudar de ares. Fechou a carreira de jogador do Barreirense com mais um golo ao FC Porto, ainda assim insuficiente para evitar a eliminação na Taça de Portugal (1-2, a 30 de Maio de 1954) e, ao abrigo da lei estudantil, saiu para a Académica. Demorou a entrar na equipa de Alberto Gomes, fazendo a estreia apenas em Novembro, na receção ao Lusitano de Évora. E o primeiro golo demorou ainda mais tempo. Só o marcou em Fevereiro, ao FC Porto, pois então. E apesar de uma segunda época mais bem conseguida a nível individual - foi internacional B contra a seleção do Sarre, voltou a marcar aos três grandes, chegou aos 15 golos e falhou apenas uma partida em toda a temporada – teve de suar muito para ajudar a Académica a evitar a descida de divisão e acabou por voltar a casa. A 9 de Setembro de 1956, Faia voltava a vestir a camisola vermelha e branca do Barreirense, na ocasião para uma visita às Antas que até correu mal – derrota por 4-0.

Mesmo mantendo o score goleador em altas, durante mais duas épocas nos dois dígitos, Faia tinha-se tornado sobretudo um modelo de continuidade. Entre 16 de Outubro de 1955, data em que marcou presença numa derrota da Académica frente ao Atlético, na Tapadinha, e 22 de Março de 1959, o dia em que nem um golo dele e outro de José Augusto evitaram um empate com o Lusitano e a descida de divisão do Barreirense, Faia não falhou a uma única jornada do campeonato. Foram 100 jornadas seguidas sempre a subir ao campo, algo de absolutamente invulgar naquela época, sobretudo para um avançado, mais sujeito a lesões. A II Divisão não era para ele, portanto. E a coisa arranjou-se: a meio da época seguinte, Faia trocou o Barreirense pela CUF de Fernando Vaz, que via nele o jogador de que precisava para tornar o seu ataque letal. Manteve-se no Barreiro, mas voltou ao campeonato dos grandes, defrontando o Sporting em Alvalade a 10 de Janeiro de 1960.

Ainda o esperavam mais três anos e meio, agora de verde e branco, com algumas proezas assinaláveis. Em 1960/61 voltou a superar a marca dos dez golos, muito graças a um póquer que fez nos 7-1 ao Lusitano de Évora, a 28 de Maio. E na temporada seguinte não ia mal lançado, quando se lesionou com gravidade, em Guimarães, a 4 de Fevereiro de 1962. A época acabou ali para ele. Ainda ensaiou o regresso na época seguinte, mas sem sucesso. A 2 de Dezembro de 1962, fez o seu último golo na I Divisão, numa derrota em casa com o FC Porto (1-2). A 30 de Dezembro, naquele que foi o jogo de estreia de Manuel de Oliveira à frente da equipa, despediu-se do campeonato, em nova derrota caseira, desta vez contra o Leixões. Excedentário num plantel que entretanto vira chegar Ferreira Pinto do Sporting, Faia deixou a CUF aos 30 anos para ainda jogar mais uns quantos no Luso, na II Divisão.

Voltaria como treinador, em Fevereiro de 1967, para substituir Anselmo Fernández, após uma derrota com o Beira Mar, em Aveiro. Até final da época, ganhou três jogos, um deles ao Sporting em Alvalade, com golo de Fernando Oliveira (atual presidente do Vitória de Setúbal), mas a equipa caiu do sexto para o nono lugar e o treinador anterior regressou para a nova época. Faia, mesmo assim, ainda treinou mais clubes, como o Luso, o Oriental, o Portimonense ou o Barreirense, numa carreira na qual, no entanto, nunca teve o sucesso que conseguira dentro do campo.