Referência incontornável do FC Porto e da seleção nacional durante década e meia, confundia os adversários com uma aparência frágil antes de os derrotar em campo. Pinga era sinónimo de bom futebol. E de títulos.
2017-09-30

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1934

Dele se conta que foi o primeiro craque de dimensão internacional no futebol português. Fazia o que queria à bola com um pé esquerdo que era ao mesmo tempo mágico no drible e forte no remate. E com um cérebro que, através do passe, inventava caminhos onde os outros só viam muros intransponíveis. Artur de Sousa, dito Pinga por herança paterna, marcou o futebol no Porto na primeira metade da década passada, a ponto de acerca dele se contarem histórias que se transformaram em lendas daquelas que os pais contavam aos filhos quando queriam fazer crescer neles o fascínio pelo futebol.

Desde muito cedo que Artur começou a frequentar o campo de jogos do Marítimo e se transformou na coqueluche das equipas inferiores dos verde-rubros. Filho de Manuel de Sousa, conhecido no Funchal como Pinga, o pequeno começou por ser o Pinguinha, mas os dotes que mostrava como avançado-centro depressa lhe valeram a promoção na alcunha. Subia de escalão a escalão e, quando chegou ao primeiro team, já foi como Pinga que assinou os dois golos que marcou na estreia, aos 18 anos, num dérbi contra o União da Madeira. Estava encontrado um craque, mais um a ajudar o Marítimo a ganhar campeonato após campeonato na Madeira, justificando a atribuição ao clube do epíteto de “Maior das Ilhas” que ainda hoje é cantado em cada jogo que os verde-rubros fazem.

Quem também andava pelo Funchal naquela altura era o médio húngaro Josef Szabó, que se rendera aos encantos da ilha depois de lá ter passado numa digressão do Ferencvaros. Szabó jogou e treinou o Nacional, mas em 1929 mudou-se para o Marítimo. E quando, em 1930, teve um convite para ser treinador-jogador do FC Porto, não descansou enquanto não conseguiu levar com ele o ainda jovem Pinga. Aquele que viria a ser um dos treinadores mais importantes na história do futebol nacional tinha aquilo que mais ninguém tinha na Madeira: um termo de comparação. E sabia que Pinga seria grandioso onde quer que jogasse.

Szabó não conseguiu trazer Pinga às primeiras, levando até a que o jogador acabasse por sair do Marítimo e assinar pelo União Micaelense. A estratégia, contudo, não resultou e o jogador ainda voltou ao Funchal. A 30 de Junho de 1930, Pinga integrou a seleção do Funchal que foi ao Estádio do Lima jogar com a congénere do Porto, reatando-se ali os contactos. Lá voltou a 30 de Novembro do mesmo ano, quando Portugal recebeu a Espanha no Campo do Ameal e, privado dos homens de Benfica, Sporting e Belenenses por imposição da AF Lisboa, o selecionador, Laurindo Grijó, chamou Pinga para jogar a avançado-centro. A estreia do madeirense com a camisola da seleção ficou marcada por uma derrota (0-1), mas acabaria por ser decisiva no seu futuro. Acertou-se a transferência.

A 23 de Dezembro de 1930, Pinga assinou pelo FC Porto, a pretexto de ter arranjado um emprego na cidade, na fábrica de um dirigente do clube. O Marítimo queixou-se, alegou que tinha havido documentos falsificados, mas no Porto diziam que era tudo propaganda dos clubes de Lisboa, que tinham sido ultrapassados na corrida ao craque. Incontestável foi que dois dias depois já Pinga envergava a camisola azul e branca, num particular com o Salgueiros. E logo ali faturou – ele que, fosse como fosse, já não tinha sido inscrito a tempo de participar no Regional portuense que o FC Porto haveria de ganhar. O primeiro jogo oficial de Pinga pelo FC Porto aconteceria apenas a 8 de Novembro de 1931: 10-2 ao Boavista, tendo o madeirense marcado o quinto golo. Acabaria esse regional com 17 golos em oito jogos, obtendo mais sete nos oito jogos que levaram os portistas a ganhar o Campeonato de Portugal, após final e finalíssima contra o Belenenses em Coimbra: 4-4 na final (bis de Pinga) e 2-1 na finalíssima, duas semanas depois, com mais um golo do craque.

Pinga já derivara para interior esquerdo e por essa altura já deixara a sua marca goleadora também na seleção nacional, onde continuou a jogar mesmo quando estava impedido de o fazer pelo clube: a 31 de Maio de 1931 marcara na vitória de Portugal frente à Bélgica, por 3-2. Essa era a medida real do talento do jogador, que na competição clubística tinha pouco quem se lhe comparasse. Em 1932/33 fez 31 golos em 12 jogos que conduziram o FC Porto a mais uma vitória no campeonato regional – os oito que fez nos 19-1 ao Coimbrões, a maior goleada de sempre do clube, ficaram na história – e mais onze na caminhada portista até às meias-finais do Campeonato de Portugal, onde a equipa baqueou frente ao Sporting.

Mas vinha aí polémica. A começar pelo facto de a FPF se ter recusado a aceitar a inscrição do FC Porto no Campeonato de Portugal de 1933/34, porque os azuis e brancos se haviam negado a fornecer jogadores para uma seleção regional. Assim, sagrando-se mais uma vez campeão regional, o FC Porto viu-se compelido a ocupar o calendário com jogos particulares contra equipas estrangeiras que aproveitavam o clima ameno de Portugal para por aqui passar. Foi no Natal de 1933 que Pinga, Valdemar Mota e Acácio Mesquita receberam a designação de “Diabos do Meio-Dia”, porque em jogo efetuado à hora de almoço desbarataram por completo a defesa do First Viena, super-equipa austríaca que o FC Porto venceu por 3-0.

A Stadium descreve então Pinga como o mais completo jogador português e acontece a cena da fuga. É difícil distinguir hoje o que é verdade do que é mito, mas parece consensual que Pinga não estaria satisfeito por o FC Porto ter ido buscar três jogadores ao Boavista – Carlos Pereira, Castro e Vasco – a quem ia pagar mais do que ao seu maior astro, que ainda ganhava os 500 escudos mensais do seu primeiro contrato. O resto é a lenda. Nuns locais lê-se que Pinga foi intercetado na Estação de São Bento, de malas feitas e pronto a apanhar o comboio para Lisboa. Aqui, as interpretações variam: ia para o Benfica? Para o Sporting? Para o Belenenses? Ou até para a Madeira, alegando saudades de casa? Noutros locais, porém, conta-se que chegou mesmo a apanhar o comboio e que a interceção se deu pouco antes de embarcar rumo ao Brasil, onde o esperava um chorudo contrato com uma equipa local.

Seguro é que Pinga ficou e que lhe aumentaram o contrato. E, depois de ganhar mais um regional do Porto, a 20 de Janeiro de 1935 estava no onze titular que Josef Szabó fez alinhar na primeira jornada do primeiro campeonato da I Liga. O primeiro resultado foi um empate nas Salésias com o Belenenses (1-1), mas na segunda jornada, uma vitória por 7-1 em casa contra a Académica, Pinga já fez um golo. Somou, ao todo, onze, incluindo um hat-trick ao Sporting, nuns 4-2 no Lima a 3 de Março de 1935. O FC Porto venceu o campeonato, só tendo Pinga falhado a última ronda, o empate a duas bolas com o Sporting no Campo Grande.

Os anos que se seguiram foram coroados com muitos troféus para Pinga e para o FC Porto. Os regionais sucediam-se, figurando o ano de 1939 como exceção pouco honrosa. A 15 de Outubro, na Constituição, por ocasião de um FC Porto-Ac. Porto, Pinga foi um dos quatro expulsos do FC Porto na primeira meia-hora de jogo. Como se isso não bastasse, minutos depois de ser expulso, reentrou em camço, para agredir o árbitro, Silva Correia. E minutos mais tarde, tendo um quinto jogador portista caído lesionado, o juiz (que já era outro, pois Silva Correia tinha sido apedrejado pelos adeptos) teve de dar por terminada a partida. Pinga foi castigado com um ano de suspensão e o FC Porto acabou o regional em terceiro lugar, colocando um ponto final em 21 anos seguidos de vitórias na prova. E o problema maior nem era esse: é que a qualificação para o campeonato nacional era feita de acordo com as classificações dos regionais e à AF Porto só cabiam duas vagas. Queria isto dizer que o FC Porto, campeão nacional em 1938/39, não iria poder defender o título em 1939/40.

Nada que a burocracia não resolvesse. Nesse ano, a Federação Portuguesa de Futebol alargou o campeonato, de forma a aumentar o total de vagas de Lisboa e do Porto, dando assim ao FC Porto a possibilidade de entrar no campeonato. Possibilidade que os portistas aproveitaram da melhor forma, conquistando o bicampeonato com o brilhantismo que se percebe no facto de terem ganho 17 dos 18 jogos. Pinga, cuja pena foi comutada a tempo de entrar em campo a partir da segunda jornada, marcando em sete das nove jornadas da segunda volta e ajudando a equipa a aguentar a forte pressão do Sporting, que acabou a prova com menos dois pontos apenas.

Aquele acabaria por ser o último troféu nacional conquistado pelo génio madeirense: até final da carreira, foi somando títulos regionais, mas nunca conseguiu, por exemplo, vencer ou sequer jogar uma final da Taça de Portugal. Despediu-se da seleção no dia de Ano Novo de 1942, aos 32 anos, numa vitória por 3-0 frente à Suíça, em Lisboa, mas ainda foi mantendo a regularidade no FC Porto até final da época de 1944/45. Tendo o FC Porto sido eliminado pelo Sporting nos quartos-de-final da Taça de Portugal, em Abril, decidiu sujeitar-se a uma revolucionário – para a época – operação ao menisco, castigado por tantos anos de futebol. A recuperação levou um ano: Szabó, que voltara ao clube, só voltou a chamá-lo a 28 de Abril de 1946, numa goleada de 9-2 frente ao Elvas, na qual ainda fez um golo. Uma semana depois, a 5 de Maio, jogou pela última vez no campeonato, mostrando-se impotente para ajudar o FC Porto a evitar uma derrota com o Sporting em Lisboa (1-0).

A 6 de Julho, no Campo do Lima, teve direito a festa de despedida, com um jogo do FC Porto contra uma seleção de jogadores de Benfica, Sporting e Belenenses. Foi um acontecimento muito emocional, que mexeu com toda a cidade do Porto. Pinga deixava naquele dia de jogar, para se entregar à vida de treinador: ainda dirigiu a equipa do Tirsense que, estando na II Divisão eliminou surpreendentemente o Sporting da Taça de Portugal, em 1949. Quando faleceu, ainda jovem, vítima de uma cirrose que lhe veio do vício do álcool, era um dos treinadores das camadas jovens do FC Porto.