Fez parte da primeira equipa campeã de Moçambique, mas ainda chegou a Portugal a tempo de ser internacional e de se tornar importante no Belenenses e no Penafiel.
2016-08-16

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1976

Entrou em Portugal por baixo, na categoria, mas por cima no mapa. Veio rotulado de jovem prodígio, com importância no título de campeão de Moçambique do Textafrica, em 1976, mas nem assim teve a possibilidade de arrancar pela I Divisão. Passou dois anos no Chaves, a esfolar-se em pelados da Zona Norte da II Divisão, antes de Juca o contratar para o Belenenses. Entre os azuis do Restelo e Penafiel, os dois clubes que representou na I Divisão, passou os 250 jogos e quase chegou aos 50 golos. Ficou a um, que bem podia ser o que lhe anularam em Alvalade, num jogo com o Sporting que marcou o início daquela que foi a sua melhor e pior época ao mesmo tempo: obteve a única internacionalização da sua carreira, mas acabou a lamentar a primeira descida de divisão da longa história do Belenenses.

Nascido em Tete, no norte de Moçambique, João Lopes começou bem cedo a ser conhecido por Djão. No futebol, destacou-se no Textafrica, o antigo Sport Clube, de Vila Pery (hoje Chimoio), quase 400 kms mais a sul. E destacou-se a tal ponto que até marcou um golo na final do primeiro campeonato de Moçambique após a independência, em 1976. O Textafrica, assim nomeado por causa de uma empresa têxtil, ganhou por 3-1 Desportivo de Maputo, no Estádio da Machava, na capital, tendo o jovem Djão feito o golo da tranquilidade. Ainda começou o campeonato de 1977 no hemisfério sul, mas a meio da temporada estava a viajar para Portugal, para jogar no Desp. Chaves. E duas épocas depois, sem que os transmontanos se aproximassem sequer nos lugares de luta pela subida, chegou ao Restelo para vestir o azul do Belenenses. O treinador era outro moçambicano, Juca, que apesar da feroz concorrência – Cepeda, Lincoln, Gonzalez, Amaral… – lhe foi dando boas oportunidades e o consolidou como titular a partir de Novembro.

Djão estreou-se na I Divisão a 23 de Setembro de 1979, substituindo Eurico a 19 minutos do fim de um jogo em Espinho, que os azuis acabaram por empatar a uma bola. Era um Belenenses diferente, aquele. Lutava pelos primeiros lugares, somava duas vitórias e dois empates nas quatro primeiras jornadas, e a ideia era forçar o ataque para não perder pontos para o topo da tabela. O primeiro golo de azul fê-lo a 4 de Novembro, na segunda vez que foi titular: marcou-o a Silvino, em Setúbal, e valeu um suado sucesso por 1-0 sobre o Vitória sadino. Djão só fez mais um em toda a época, na vitória em casa sobre o Sp. Espinho, mas acabou por ser importante na quinta posição que o clube ocupou na tabela final. Melhoraria a produção individual em 1980/81, com quatro golos na Liga e três na Taça de Portugal, marcando presença nas 36 partidas competitivas que os azuis jogaram na época, chegando às meias-finais da Taça de Portugal e terminando o campeonato num 11º lugar que já prenunciava o que aí vinha.

É que a época de 1981/82 foi simultaneamente a melhor e a pior para Djão. Começou bem. Fez o primeiro golo do campeonato, batendo o sportinguista Meszaros com um remate de longe num polémico jogo em Alvalade que os azuis empataram a duas bolas e onde acabaram com quatro jogadores expulsos. Tudo por causa de protestos contra a arbitragem de Mário Luís. A equipa de Artur Jorge, ainda assim, arrancou bem a época e a 23 de Setembro Djão foi chamado à seleção nacional portuguesa por Juca, o mesmo treinador que o trouxera para o Belenenses. Jogou em vez de Chalana nos últimos 15 minutos de um amigável contra a Polónia, em Alvalade, que Portugal venceu por 2-0. Só que a confusão depressa chegou ao Restelo. Nessa época, o Belenenses teve nove treinadores e, apesar dos oito golos de Djão no campeonato (bisou ao Sp. Espinho e marcou em ambos os jogos com o Sporting, que acabou por ser campeão nacional), acabou por descer de divisão. Os dois anos seguintes, por isso, Djão passou-os de regresso ao escalão secundário, ainda que na Zona Sul.

O regresso à I Divisão, em 1984, foi retumbante. A equipa de Jimmy Melia era uma máquina de fazer golos e Djão o seu principal ariete. Nas primeiras seis jornadas desse campeonato, marcou dez golos, incluindo um hat-trick à Académica (4-1 a 16 de Setembro) e um póquer ao Salgueiros (4-3 a 30 de Setembro). Mesmo que até final da temporada só tenha marcado mais três, nos dois jogos com o Vizela, assinou a temporada com a melhor produção goleadora de sempre. Como mancha, apenas a expulsão na eliminação azul da Taça de Portugal, logo à segunda partida, em Elvas (derrota por 1-0). Djão não voltou, porém, a jogar na seleção nacional, e quando na época seguinte Jimmy Melia deu o lugar ao belga Henri Depireux foi convertido em extremo-esquerdo, afastando-se mais dos golos. Em 1985/86 fez apenas dois na Liga, aos quais somou mais dois na caminhada dos azuis até à final da Taça de Portugal. No Jamor, foi suplente, entrando para o lugar de Norton de Matos aos 50 minutos, quando o Benfica já ganhava por 1-0. O 2-0 final prova que não ajudou tanto quanto por certo quereria.

Mais seis golos em 1986/87 (quatro deles nas primeiras cinco jornadas, no já tradicional arranque à Djão) marcaram a última época do moçambicano no Restelo. Ainda fez mais três temporadas no Penafiel, onde José Romão lhe foi sempre dando a ponta-esquerda do ataque no 4x3x3 que mais vezes utilizava. E de regresso ao Norte ainda viveu bons momentos, como o 4-0 ao Sporting, em finais de Janeiro de 1988, jogo no qual fez um golo. Marcou pela última vez na I Divisão a 6 de Maio de 1990, ajudando os penafidelenses a vencerem o V. Guimarães por 2-1 e a afastarem-se mais da zona de despromoção que no final do campeonato evitariam à justa. Despediu-se jogando apenas os primeiros 45 minutos da derrota em casa frente ao Nacional, na última ronda dessa Liga, a 20 de Maio. Ainda jogou um ano no Marco, na II Divisão B, e três na III Divisão, no Rebordosa, onde chegou a fazer parte da equipa técnica. Retirou-se depois, mas teve o nome perpetuado pelo filho, também ele com o nome de guerra “Djão”, mas jogador de menor categoria, que alinhou em vários clubes dos escalões secundários da zona de Lisboa.