Médio com golos, que se sagrou melhor marcador do Mundial de juniores em 1991, Cherbakov podia ter sido um fenómeno. Faltava-lhe a cabeça. Um acidente mandou-o para uma cadeira de rodas aos 22 anos, quando era uma das figuras do Sporting.
2016-08-15

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1991

Um sinal vermelho em Lisboa pôs fim muito precoce à carreira de um médio goleador que tinha tudo para ser grande. Tudo, menos juízo, como o próprio já admitiu. Vindo do jantar de despedida de Bobby Robson, demitido por Sousa Cintra na semana anterior, Cherbakov optou por conduzir o seu Renault 21 e, pior, por não parar naquele vermelho, na interceção da Avenida da Liberdade com a Avenida Alexandre Herculano. Foi abalroado por um veículo que cruzava o se caminho, projetado contra outro que estava parado no vermelho, no sentido descendente, e acabou condenado a uma cadeira de rodas. Paraplégico, via acabar aos 22 anos uma carreira que prometia e afastarem-se muitos dos que o idolatravam.

Serguei Cherbakov nasceu ainda na União Soviética, em Donetsk, mas numa altura em que o Shakthar, seu clube do coração, não era nada parecido com a potência que hoje divide a hegemonia do futebol ucraniano com o Dynamo Kiev. Fez todo o percurso nas camadas jovens da equipa laranja, pela qual se estreou em 1989, ainda com 17 anos, ajudando na fuga à justa à despromoção. Em Março de 1990, em Dushanbe, atual capital do Tajiquistão, fez o primeiro golo pelo Shakthar, ainda assim numa derrota frente ao Pamir (1-2). E entrou na lista de convocados da seleção de sub-19 que, na Hungria, se sagrou campeã europeia, ganhando a Portugal na final, com 4-2 nos penaltis após um 0-0 nos 120 minutos de jogo. Esse título foi o seu passaporte para a equipa soviética que veio a Portugal disputar o Mundial de sub-20, em 1991, prova da qual Cherbakov foi o melhor marcador, com cinco golos.

Os soviéticos acabaram o campeonato em terceiro lugar, mas a Bota de Ouro levada para casa por Cherbakov desde logo lhe assegurou voos mais altos. Ainda fez o início da época de 1992 no primeiro campeonato da Ucrânia após a independência, alinhando ao lado de Kanchelskis ou Onopko numa equipa do Shakthar que acabou a prova em quarto lugar, mas no Verão já estava em Lisboa para jogar no Sporting. Sousa Cintra vivia obcecado com a contratação de jovens prometedores, já tinha juntado vários portugueses campeões mundiais de juniores de 1989 e 1991 no plantel orientado por Bobby Robson e ofereceu-lhe ainda o melhor marcador da prova de 1991. Ainda por cima, Cherbakov já chegava como internacional A: estreou-se pela seleção ucraniana em 29 de Abril de 1992, com uma derrota por 3-1 frente à Hungria, em Uzhorod. Este foi o primeiro jogo da nova seleção ucraniana, ainda amputada de jogadores que faziam parte da equipa da Comunidade de Estados Independentes que foi jogar o Europeu na Suécia como legítima sucessora da URSS. E a verdade é que, com a vinda para Portugal, nunca mais Cherbakov foi lembrado pelo selecionador, tendo resumido a sua carreira internacional a dois jogos.

Tendo chegado a Lisboa lesionado, Cherbakov só se estreou pelo Sporting a 15 de Novembro de 1992, entrando para o lugar de Filipe a cinco minutos do fim de uma vitória por 2-0 em Chaves. Duas semanas depois, em Aveiro, Robson deu-lhe a primeira camisola de titular e, daí até final da época, o ucraniano foi-se impondo. Marcou pela primeira vez a 14 de Fevereiro de 1993, obtendo o golo da vitória (2-1) do Sporting em Famalicão e, ainda nesse campeonato, fez mesmo o golo do ano. Foi na baliza norte de Alvalade, após um canto que Balakov bateu para a meia-lua, onde Cherbakov apareceu a pontapear sem deixar a bola bater no chão, num gesto técnico perfeito, que deixou o guarda-redes brasileiro Acácio sem reação. O terceiro lugar do Sporting na Liga foi uma deceção, mas Cintra manteve a confiança em Robson e reforçou a equipa com jogadores do calibre de Paulo Sousa ou Pacheco, tirados ao rival Benfica. Na nova época, tudo parecia correr sobre rodas. A equipa jogava bem e ganhava. Cherbakov marcou o seu último golo na Liga a 29 de Agosto de 1993, numa vitória por 3-2 em Setúbal, estreando-se em Setembro na Taça UEFA, com um empate na Turquia contra o Kocaelispor. Ainda fez um golo europeu, a 23 de Novembro, abrindo o marcador nos 2-0 em casa ao Casino Salzburg, mas a derrota em casa com o FC Porto e sobretudo a eliminação na UEFA contra os austríacos, depois da derrota por 3-0, no prolongamento, em Salzburgo, levou o presidente a medidas extremas. Ainda no avião, Cintra despediu Robson e optava pela sua mais velha paixão: Carlos Queiroz.

Começou aí a desgraça de Cherbakov. Queiroz até lhe deu a titularidade na sua primeira partida em funções: 1-0 ao Beira Mar, a 13 de Dezembro de 1993. Dois dias depois, o plantel reuniu-se num jantar de despedida ao treinador anterior. Cherbakov bebeu demais e, perto das cinco da manhã, sofreu o acidente que lhe roubou a possibilidade de voltar a andar. Ficam na memória de quem os viu os gritos emocionados de Figo – um dos amigos que Cherbakov diz que se manteve sempre a seu lado – a festejar um golo ao Benfica, no jogo que se seguiu: “Cherba! Cherba!”, berrou, com o dedo indicador a apontar para cima. Mas Cherbakov não voltou a jogar. Nos mais de 20 anos que já passaram, tem mantido uma relação estranha com o Sporting, clube ao qual declarou amor eterno, mas nunca deixando de acusar Sousa Cintra de não ter cumprido o que lhe prometeu na sequência do acidente. O Sporting organizou-lhe uma festa de homenagem, com um jogo contra uma seleção do resto do Mundo, angariando cerca de 30 mil contos (150 mil euros, na moeda atual) para o ajudar. A vida de Cherbakov passou então a ser uma luta para voltar a andar, com sessões de tratamento e fisioterapia, na Rússia. Voltou a trabalhar no futebol, como olheiro do Lokomotiv, mas nunca mais pôde fazer o que fazia melhor: chegar do meio-campo à área e finalizar de pé esquerdo ou de cabeça.