Quatro vezes campeão espanhol pelo Atlético Madrid, Aparício chegou a Portugal aos 33 anos, para jogar duas épocas no Boavista. Ainda deixou marcas.
2016-08-14

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1942

Uma das maiores figuras de toda a história do Atlético Madrid, e por inerência do futebol espanhol, o defesa Aparício escolheu o Boavista para encerrar uma longa carreira, que o levou a ser oito vezes internacional pelo seu país e a ganhar quatro Ligas. No clube axadrezado, jogou dois anos, ainda que sem títulos, é verdade, e deu início a uma carreira de treinador que nunca o levaria muito longe. Ainda assim, continuou ligado ao futebol: passou mais de 20 anos como delegado de campo do Atlético Madrid, clube da sua vida, de onde se reformou em meados da década de 80, com muitas histórias para contar.

Natural de Santander, Aparício viu a paixão pelo futebol despertar nele desde muito novo. Em menino, jogou pelos jesuítas locais, pelo Daring Club, pelo Magdalena e pelo Union Juventud, ao mesmo tempo que assistia religiosamente aos desafios do Racing, já por esses tempos o maior clube da cidade. Quando rebentou a guerra civil espanhola, o jovem Aparício deu-se como voluntário para a aviação leal a Franco, acabando por ser recrutado pelo alferes Salamanca, o homem que resolveu formar uma equipa de futebol para ocupar os tempos livres dos aviadores. O generalíssimo deu uma força e foi encaminhando os melhores jogadores em idade de prestar serviço militar para o Atlético Aviación, clube que acabou por fundir-se com o Atlético Madrid e formar a maior potência local daqueles anos. Com Ricardo Zamora aos comandos, no papel de treinador, e Aparício ainda a jogar como defesa-esquerdo, o Atlético ganhou a primeira Liga espanhola disputada após o fim da guerra civil, impondo-se na disputa corpo-a-corpo com o Sevilha graças a uma vitória sobre o Valencia, no último dia.

A essa primeira Liga seguiu-se a Taça dos Campeões de Espanha – antecessora da Supertaça – e uma segunda vitória no campeonato, antes de o Valencia e o Barcelona passarem a dominar o futebol espanhol, relegando o Atlético para segundo plano. Os colchoneros só voltariam a ganhar a Liga em 1949/50 e 1950/51, com o mago Helenio Herrera como treinador e Aparício no papel de defesa-central, entre Riera e Lozano. Os três formaram uma linha defensiva mítica em Espanha, conhecida como “Telón de Acero”, ou “Cortina de Ferro”, tão difícil era ultrapassá-los. Aparício era já, por essa altura, internacional espanhol: estreara-se a 11 de Março de 1945, no Estádio do Jamor, em Lisboa, com um empate a duas bolas contra Portugal, jogo no qual, face às constantes picardias entre os dois, o árbitro suíço o obrigou a dar as mãos a Peyroteo, o avançado-centro português que fez os dois golos lusos. Com os quatro títulos de campeão nacional ganhos, Aparício é, ainda hoje, o jogador que mais vezes foi campeão com a camisola do Atlético Madrid, clube pelo qual jogou 260 vezes e marcou quatro golos.

Em finais de 1952, porém, aos 33 anos, já afastado da seleção, rumou a Portugal, assinando pelo Boavista juntamente com o seu compatriota Pin, também natural de Santander. Alfredo Valadas, o treinador axadrezado, surpreendeu ao colocar Aparício como avançado-centro na estreia, feita a 7 de Dezembro de 1952, frente à Académica, no Estádio Municipal de Coimbra. E Aparício respondeu à altura, mostrando que sabia como se geriam as bolas na área: marcou três golos na vitória do Boavista por 3-1. Viria a marcar mais dois nesse campeonato, frente a Estoril e Sp. Covilhã, e a jogar nos dois empates obtidos pelo Boavista frente ao Sporting, que se sagraria campeão, mas não esteve nas partidas da Taça de Portugal que levaram ao afastamento axadrezado, frente ao FC Porto. Voltaria na época seguinte, já como treinador-jogador e a jogar fundamentalmente como defesa-central, a posição que o notabilizara em Espanha. O Boavista voltou a escapar à descida de divisão e Aparício marcou apenas um golo, o último que fez no campeonato, a 13 de Dezembro de 1953, num empate caseiro com o Lusitano de Évora (1-1). Despediu-se da Liga enquanto jogador a 7 de Março de 1954, com uma derrota pesada (9-1) frente ao FC Porto, que o levou a centrar-se na função de treinador nas derradeiras seis jornadas. Ainda regressou para mais cinco jogos (e quatro golos) na Taça de Portugal desse ano, tendo a derrota em Setúbal (0-6, a 18 de Junho, nas meias-finais) sido o último jogo da sua carreira.

De regresso a Espanha, Aparício treinou o Levante e o Rayo Vallecano, ambos na III Divisão espanhola, e o Atlético Baleares, no segundo escalão. Sem grande sucesso, em 1962 regressou a Madrid, para exercer funções de delegado aos jogos do Atlético Madrid. Por lá esteve até se reformar, em meados dos anos 80.