Começou por ser o sucessor adivinhado para Eusébio no Benfica e acabou por ser o parceiro ideal de Manuel Fernandes no Sporting. Jordão não quer hoje nada com o futebol, mas está no lote dos cinco maiores avançados da história do futebol português.
2016-08-09

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1972

O futebol tornou-o famoso, mas assim que pôde, farto dos choques de egos tão vulgares entre as estrelas, Jordão virou-lhe as costas. Um dos mais talentosos avançados da história do jogo em Portugal, este angolano ágil e veloz, que fez suspirar corações benfiquistas e sportinguistas antes de conhecer um regresso extraordinário e inesperado, com as cores do V. Setúbal, fechou as portas à notoriedade alcançada nos relvados. Desde que deixou de jogar, em 1989, raramente foi visto num estádio. E as poucas entrevistas que concedeu desde então têm como assunto praticamente exclusivo a sua nova vida, de artista plástico.

Nem parece que durante quase duas décadas foi a maior referência nacional na profissão de goleador. Nunca ganhou uma Bota de Ouro, como Gomes, mas era invariavelmente escolhido à frente deste para o ataque da selecção, sobretudo por ser mais facilmente conjugável com o resto da equipa. Dentro do campo, pouco lhe escapava: tinha o instinto, a agilidade e o remate certeiro de um ponta-de-lança, mas somava-lhe a velocidade, a criatividade e o drible de um extremo, a inteligência e a capacidade de passe de um organizador e até o sentido de responsabilidade e de pressing de um médio-defensivo. Em 18 anos de carreira, Rui Manuel Trindade Jordão ganhou seis campeonatos nacionais, três Taças de Portugal e uma Supertaça, acabando duas épocas como melhor marcador da I Divisão. Pela selecção, fez 43 jogos, sendo uma das figuras da Mini-Copa de 1972, no Brasil, e do Europeu de 1984, em França. Nada mau para quem viu três lesões gravíssimas roubar-lhe mais de dois anos e passou um terceiro equivocado em Espanha.

Nascido em Benguela, Angola, a 9 de Agosto de 1952, Jordão destacou-se nas camadas jovens do Sporting local. O caminho recto tê-lo-ia levado a Alvalade, mas foi o Benfica a contratá-lo, em 1970, por 30 contos. Vinha para os juniores e só um ano depois foi chamado por Jimmy Hagan à equipa principal: a estreia fê-la a 5 de Setembro, contra o Sporting, em jogo da Taça de Honra da A.F. Lisboa, marcando um dos golos no sucesso benfiquista (2-1). Dez dias depois, a 15, entrou perto do fim para o lugar de Nené, numa vitória dos encarnados em Innsbruck (4-0), a contar para a Taça dos Campeões. E a 3 de Outubro fez o primeiro dos seus 357 jogos no campeonato nacional, mais uma vez no lugar de Nené, desta vez para os derradeiros 16 minutos de uma sofrida vitória sobre o Beira Mar. Antes do final do mês já era titular e em Março de 1972 chegou à selecção: José Augusto, que naquele dia se estreava como seleccionador, deu-lhe a titularidade na recepção a Chipre e ele marcou o último dos quatro golos portugueses.

Foi já na condição de campeão nacional e vencedor da Taça de Portugal que Jordão integrou a selecção que no Brasil jogou a Mini-Copa. Actuando quase sempre como extremo-direito, fez apenas um golo – que valeu a vitória sobre a URSS, nas meias-finais –, mas nem por isso deixou de sair da competição com o rótulo de sucessor de Eusébio a facilitar-lhe a escalada na hierarquia do competitivo ataque do Benfica. O Rei, contudo, ainda marcava muitos golos e contava com a companhia do “magriço” Simões, de Artur Jorge e dos também emergentes Nené e Vítor Baptista, pelo que Jordão não teve vida fácil. E sofreu o primeiro revés em Outubro de 1974: num Benfica-FC Porto, em choque com Gabriel, fracturou o menisco e fez uma rotura dos ligamentos cruzados do joelho. Foram sete meses de paragem, com regresso apenas na última jornada desse campeonato, na festa do seu terceiro título nacional.

O melhor de Jordão estava, contudo, para vir. Apesar dos 15 golos de 1973/74, no seu primeiro campeonato regular – e o único que o Benfica não ganhara desde que ele chegara aos seniores – foi em 1975/76 que se mostrou ao Mundo. Com 30 golos dele, o Benfica voltou a ser campeão e Jordão sagrou-se melhor marcador da prova. Os ricos da Europa queriam-no: falou-se do Paris St. Germain, do Betis e até do Bayern, mas quem acabou por levá-lo foi o modesto Saragoça. O Benfica recebeu nove mil contos e Jordão assinou um contrato de três anos, cada um a valer-lhe 3,5 milhões de pesetas. “É quatro vezes o que ganhava em Portugal”, revelou. Mas o que o esperava era o inferno, com o paraguaio Arrua a causar-lhe problemas intermináveis. Dizia-se que não lhe passava a bola, por exemplo. Para a história ficou pelo menos um episódio, num jogo com o Salamanca, em que Jordão se preparava para bater um penalti e Arrua lhe tirou a bola, iniciando uma discussão entre os dois que só acabou com a intervenção do árbitro. Não admirou, por isso, que em Março de 1977 já aparecesse nos jornais a pedir para voltar. Fechou a época com uns ainda assim honrosos 14 golos, mas o Saragoça desceu. E, após duras negociações, Jordão voltou, mas para o Sporting.

A estreia fê-la a 30 de Agosto, num particular contra o Vasco da Gama em que marcou os dois golos da vitória leonina (2-1). Quatro dias depois estava ao lado de Manuel Fernandes – com quem veio a fazer uma dupla formidável – na abertura do campeonato, contra o Benfica. Mesmo ganhando menos – só dois dos seus seis títulos nacionais foram de leão ao peito – foi no Sporting que Jordão teve mais relevância. Apesar das lesões, que pareciam não o deixar. A 12 de Fevereiro de 1978 uma entrada do benfiquista Alberto fracturou-lhe tíbia e perónio da perna direita, afastando-o até Setembro. Regressou, mas por pouco tempo: ao segundo jogo, um choque com o então famalicense José Eduardo – um dos poucos amigos que guardou do futebol – provocou-lhe nova fractura do perónio, uma rotura dos ligamentos do tornozelo e mais cinco meses de fora. Por tudo isso, só na época seguinte é que Jordão deu razão aos dirigentes que o resgataram: foi pela segunda vez melhor marcador do campeonato, com 31 golos, ajuda decisiva para que o Sporting se sagrasse campeão. A ilustrar a proeza ficaram cinco golos num só jogo, um Sporting-Rio Ave que os leões ganharam por 5-0 – Jordão só fez mais um “penta”, face ao mesmo adversário, em 1982.

Foi com esse título que Jordão renasceu para o futebol. Em Agosto de 1979, com 27 anos, só tinha sido 13 vezes internacional. A partir daí tornou-se peça chave na equipa que haveria de assegurar um lugar no Europeu’84. Foi de Jordão, gélido marcador de penaltis, o golo que valeu o apuramento, marcado dos onze metros a Dassaev, como foram de Jordão os dois tentos que deixaram Portugal em vantagem (2-1) na meia-final, contra a França, antes de Domergue e Platini acabarem com o sonho lusitano. Findo o Europeu, contudo, com a chegada de John Toshack ao Sporting, Jordão foi perdendo espaço na equipa: fez oito golos com o galês e apenas três na primeira época de Manuel José. Já não esteve no Mundial’86 e, nesse Verão pôs ponto final na carreira. Foi por isso para espanto geral que, um ano depois, o inglês Malcolm Allison (treinador no último título de Jordão, em 1982) o convenceu a regressar.

Em Setúbal, ao lado de outros veteranos com quem fora campeão em Alvalade, como Meszaros, Eurico, Zezinho e Manuel Fernandes, Jordão ainda fez duas épocas, a última premiada com onze golos e um regresso à selecção, para mais três partidas. Tornou-se o segundo jogador com maior distância temporal entre a primeira e a última internacionalização: da estreia, frente a Chipre, à despedida, face à Grécia, distaram 16 anos e 10 meses. Em Junho de 1989, pela segunda vez, acabou a carreira de jogador e cortou a ligação à bola. Preocupou-se a partir daí com a formação nas artes plásticas, sendo hoje um mais do que razoável pintor e escultor.