Dez vezes campeão nacional e duas vezes campeão europeu, Coluna foi o mais duradouro capitão de toda a história do Benfica e o irmão mais velho que Eusébio encontrou em Lisboa.
2016-08-06

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1954

Mário Coluna foi, durante anos, o exemplo futebolístico perfeito para a diferença entre um chefe e um líder. Tranquilo e sereno, não precisava sequer de falar alto para se fazer seguir: liderava com um sorriso permanente, porque tinha aquela aura que fez dele o capitão de maior longevidade na história do Benfica: sucedeu a José Águas em 1963 e só perdeu o estatuto quando, aos 35 anos, em 1970, acabou por ser dispensado para dar lugar aos mais novos. Uma decisão que nunca aceitou, pois achava que tinha ainda intactas as qualidades que fizeram dele um dos melhores médios do futebol mundial.

O “mais velho”, como lhe chamava Eusébio, em sinal de respeito por aquele a quem a sua mãe tinha encarregue de tomar conta dele em Lisboa, era um jogador de mão cheia. Tinha visão de jogo e uma capacidade de decisão invejável, tendo sempre em conta os interesses da equipa. Passava curto ou longo, consoante a ocasião recomendasse. Rematava forte e certeiro, ou não tivesse ele jogado como avançado nos primeiros tempos em Moçambique. E além disso possuía um fôlego que, somado a uma potência invulgar, lhe permitia encher o campo, de uma área à outra. Tudo razões a contribuírem para um dos currículos mais brilhantes da história do futebol português, com dez títulos de campeão nacional, sete Taças de Portugal e duas Taças dos Campeões Europeus, além da honra de capitanear a seleção nacional na maioria dos jogos que constituíram o brilharete no Mundial de 1966. “Grande Capitão”, “Monstro Sagrado” ou “Didi português”, nenhuma alcunha que lhe era colada fazia verdadeiramente justiça a um dos maiores de sempre do jogo da bola no nosso país.

Coluna nasceu no Alto Mahé, o mesmo bairro dos irmãos Matateu e Vicente Lucas e onde anos mais tarde apareceria Hilário. Filho único de uma família de classe média, teve uma infância virada para os estudos, na qual a bola nem teve grande impacto. A sua primeira paixão foi o boxe, mas não lhe deu seguimento. E só aos 15 anos começou no futebol, a jogar no João Albasini. A adolescência trouxe-lhe outros interesses e Coluna quis começar a trabalhar para ganhar o seu próprio dinheiro. Sabedor disso e conhecedor das suas qualidades, o Ferroviário propôs-lhe um emprego para que assinasse pela sua equipa de futebol e o negócio até se teria feito, não tivesse José Maria Coluna, pai do jogador, interferido. Ex-guarda-redes e fundador do Desportivo, não permitiu que o filho vestisse uma camisola rival e encaminhou-o para o seu clube do coração, por sinal filial do Benfica na capital moçambicana. Sem que ele o soubesse, começava ali a escrever-se a história de Mário Coluna em Portugal.

No Desportivo, Coluna não se ficava pelo futebol, onde a partir dos 17 anos se mostrou um avançado goleador. Jogava ainda na equipa de reservas de basquetebol e brilhava no atletismo, onde chegou a bater o recorde moçambicano do salto em altura: 1,835m, destronando por meio centímetro Espírito Santo, uma antiga glória benfiquista. Foi o que mostrou nos campos de futebol, contudo, que chamou a atenção dos clubes da metrópole. Carlos Mesquita, seu treinador no Desportivo, recomendou-o ao FC Porto, cujas cores tinha defendido de chuteiras calçadas, e a proposta não se fez esperar: 90 contos por um contrato de três anos. Apareceu depois o Sporting a melhorá-la: 100 contos por duas épocas. O Benfica surgiu apenas depois, mas tinha a simpatia dos dirigentes do Desportivo e contratou a jovem promessa com uma proposta idêntica à dos leões. Coluna chegou assim a Lisboa a 22 de Agosto de 1954, com 19 anos, e foi imediatamente conduzido ao recém-inaugurado lar do jogador.

Insatisfeito com a forma como as coisas lhe corriam longe de casa, queixando-se até da diferente interpretação das cláusulas do contrato que os dirigentes benfiquistas faziam, Mário quis voltar a Moçambique, no que até foi encorajado pelo pai. Só que, instruídos para tal, os funcionários do lar nunca lho permitiram. Estreou-se a jogar a avançado-centro, contra o FC Porto, na festa de Rogério e Feliciano e as coisas não lhe correram particularmente bem. Mas a 12 de Setembro de 1954, no Estádio Nacional – a Luz só ficou pronta lá para o final do ano – Otto Glória deu-lhe a titularidade na primeira jornada do campeonato. O adversário era o V. Setúbal, o Benfica ganhou por 5-0 e Coluna fez os dois últimos golos, o primeiro num remate de longe e o segundo numa jogada individual. Nada mau como cartão de visita. Essa primeira época, na qual alternou entre avançado-centro e interior direito ou esquerdo (José Águas começou como extremo e só a meio da temporada passou para o centro do ataque), foi a mais goleadora de toda a sua carreira: 14 golos no campeonato, entre os quais um hat-trick nos 11-0 ao Boavista, em inícios de Outubro, mais três na Taça de Portugal. Coletivamente, o Benfica ganhou as duas provas.

E Coluna já era um jogador credenciado. A 4 de Maio de 1955, antes mesmo de fazer 20 anos, Tavares da Silva fez dele o “Homem das Cinco Seleções”, estreando-o na equipa principal da nação numa derrota por 3-0 contra a Escócia depois de ele já ter alinhado por todas as categorias inferiores, incluindo a militar. Dava ali o primeiro passo para as 57 internacionalizações – não assim tão comuns, em tempos em que as equipas nacionais jogavam muito menos vezes do que agora – que tiveram o ponto alto no Mundial de 1966, em que Portugal alcançou o terceiro lugar com Coluna como capitão em campo: Germano, o capitão de facto, só alinhou na primeira partida da prova. E se os primeiros tempos na equipa das quinas não foram de grandes conquistas, pois Portugal perdia muito mais do que ganhava por aqueles tempos, a digressão do Benfica ao Brasil no Verão de 1955 trouxe a Coluna os primeiros laivos de reconhecimento internacional. Voltou com uma alcunha de grande honra, por vir de quem vinha: era o “Didi Português”.

O Benfica perdeu ao sprint o campeonato de 1955/56 para o FC Porto, tendo Coluna tirado dessa época o seu primeiro golo internacional: a 29 de Junho de 1956, em recarga a Cavém, fez um dos golos do Benfica na derrota por 4-2 frente ao Milan na meia-final da Taça Latina, em Milão. Aquele Benfica, no entanto, estava destinado a ganhar, o que voltou a fazer em 1956/57. Coluna perdeu alguns jogos desse campeonato, por causa de uma lesão contraída frente à CUF, mas estava em campo a 24 de Fevereiro, a três jornadas do fim, quando se deu a ultrapassagem: vitória do Benfica em Setúbal, por 3-2 (com um golo dele) e derrota do FC Porto no Restelo, por 4-3. E não só estava como voltou a marcar na final da Taça de Portugal, ganha ao Sp. Covilhã por 3-1, a 2 de Junho, para consumar a segunda dobradinha que o moçambicano conseguia em três anos em Lisboa. Nada mau para quem pensava em desistir.

Aquele era, porém, um Benfica ainda em construção para a glória. A estreia na Taça dos Campeões Europeus, em 1957/58, não correu bem: derrota por 3-1 em Sevilha (Coluna assistiu para o golo de Palmeiro), seguida de empate a zero em Lisboa e eliminação logo à primeira ronda. O campeonato, terminado em terceiro lugar, não ajudou, o mesmo sucedendo com a Taça de Portugal, que os encarnados perderam na final com o FC Porto (0-1). E o maior salto em frente ainda demorou mais um ano, tendo passado pela chegada à Luz de Bela Guttmann. Otto Glória voltou a perder o campeonato de 1959 à justa – é o ano do famigerado caso Calabote, com o FC Porto a ser campeão por um golo – e ainda que o Benfica tenha ganho a final da Taça de Portugal aos azuis e brancos, é com a chegada de Guttmann que tudo muda. Campeão em 1959/60 ainda a jogar como membro da linha avançada, quase sempre como interior direito ou esquerdo, Coluna voltou a fazer 17 golos nessa época, entre campeonato e Taça de Portugal. E a Taça dos Campeões Europeus que se seguiu a esse título mudou a história do futebol português.

Goleador cada vez menos frequente, porque o novo treinador lhe pedia cada vez mais atenção a tarefas de meio-campo, Coluna escolhia bem os jogos em que marcava. Em 1960/61, somou o mais baixo pecúlio até à data em jogos de campeonato (apenas quatro golos), mas apareceu em grande na fase decisiva da Taça dos Campeões Europeus, com um golo na meia-final (3-0 ao Rapid Viena) e outro na final (3-2 ao Barcelona). Este, um míssil de fora da área, que Ramallets não conseguiu deter, terá sido já conseguido em estado meio inconsciente: reza a lenda que Coluna estava meio zonzo, depois de um choque com um adversário, que terá continuado a jogar mas que no final, ante os festejos nos balneários, pareceu surpreso e terá perguntado aos colegas por que razão festejavam tanto. E a questão é que à primeira Taça dos Campeões se seguiu a segunda: um ano depois da final de Berna, em Amesterdão, o Benfica ganhou por 5-3 ao Real Madrid e manteve o troféu em casa. Coluna marcou na segunda final consecutiva – só ele e José Águas podiam gabar-se disso – e já não havia forma de duvidar da sua importância no panorama do futebol mundial. Coluna veio, aliás, a capitanear a seleção do Mundo que em 1967 defrontou o Real Madrid na festa de homenagem a Zamora e esse foi um dos episódios de que mais se orgulhou ao longo da sua vida.

A terceira final com golos e vitória podia ter acontecido… Nunca se saberá, pois em Maio de 1963, já como capitão de equipa e a jogar a meio-campo, para onde Fernando Riera o baixara numa jogada de mestre, Coluna foi vítima de uma entrada maldosa de Giovani Trapattoni e passou toda a final de Wembley ao pé coxinho. Ainda não havia substituições e o Benfica perdeu por 2-1 com o Milan, que lhe sucedeu como campeão europeu. Entretanto, em Portugal, os encarnados iam somando títulos. Eram campeões três anos em cada quatro, só tendo cedido o ceptro ao Sporting em 1962, 1966 e 1970 nos dez anos em que Coluna e Eusébio jogaram juntos. Eusébio era, aliás, a nova grande responsabilidade do agora escolhido como capitão de equipa do Benfica. Dona Elisa Ferreira, mãe do jovem craque, pedira-lhe que olhasse pelo filho em Lisboa e Coluna foi sempre uma espécie de tutor não oficial do Pantera Negra. Os dois entendiam-se como poucos e isso viu-se, por exemplo, na campanha que a seleção nacional fez no Mundial de 1966: Coluna foi uma trave a aguentar o meio-campo, curiosamente ao lado daquele que viria a ser primeiro seu colega e depois seu sucessor no Benfica (Jaime Graça); Eusébio foi a potência no ataque que tornava Portugal uma equipa quase imbatível.

A queda daquela seleção voltou a dar-se em Wembley, desta vez frente à Inglaterra e pelo mesmo resultado: um 2-1 que deixou Eusébio lavado em lágrimas e levou Portugal para a luta pelo terceiro lugar. Na verdade, depois daquelas duas primeiras finais da Taça dos Campeões Europeus, Coluna e o Benfica também ficaram sempre um pouco aquém do desejado a nível internacional. Perderam as Taças Intercontinentais de 1961 (com o Peñarol, em três jogos) e de 1962 (com o Santos de Pelé). E além da final da Taça dos Campeões Europeus de 1963, perdida face ao Milan, voltaram a sair derrotados nas finais de 1965, em San Siro, frente ao Milan, na noite do mítico frango de Costa Pereira, e de 1968, outra vez em Webley, face ao Manchester United. Coluna jogou todas essas partidas, como jogava quase sempre que o Benfica entrava em campo. Mas à medida que os 30 anos iam ficando mais para trás foi perdendo fulgor. A 11 de Dezembro de 1968, jogou pela última vez na seleção nacional, em jogo de qualificação para o Mundial de 1970: em Atenas, Portugal perdeu por 4-2 com a Grécia e começava a ver que muito dificilmente teria a hipótese de defender no México o terceiro lugar conquistado em Inglaterra. Nessa época (1968/69), Coluna ainda só faltou a dois jogos de campeonato, um da Taça de Portugal e a eliminação na Taça dos Campeões, os 3-0 frente ao Ajax de Cruijff em Paris, nos quais a sua posição foi ocupada por Jacinto.

Em 1969/70, porém, tudo mudaria. Enquanto Otto Glória esteve à frente da equipa, Coluna foi sendo titular, jogando ao lado de Humberto Coelho no centro da defesa. Marcou mesmo o seu último golo pelos encarnados a 26 de Outubro de 1969, numa vitória por 8-0 frente ao Boavista, na Luz. Após uma derrota em casa com a CUF, a 8 de Fevereiro de 1970, em jogo disputado no Estádio Nacional, por interdição da Luz, o treinador brasileiro foi substituído por José Augusto. Aquele foi também o último jogo de Coluna pelo Benfica. No final da época, aos 35 anos, foi dispensado. Nâo aceitou bem a decisão, acusou mesmo José Augusto, seu antigo colega de balneário, de querer estar mais à vontade sem ele por perto, mas a decisão foi irrevogável. Coluna ainda teve direito a uma festa de despedida, na Luz, em Dezembro de 1970, mas por essa altura era já jogador do Lyon, de França, tendo pelo meio recusado ofertas do FC Porto e do Belenenses. Não se deu muito bem por terras francesas, o que o levou a regressar a Portugal e a assinar pelo modesto Estrela de Portalegre, onde ainda passou uma época, na III Divisão, como treinador-jogador.

Aqueles campos, porém, não dignificavam a sua gigantesca carreira, pelo que Coluna pôs mesmo um ponto final no futebol jogado. Ainda foi treinador de formação e presidente da Federação Moçambicana de Futebol, depois de ter regressado ao país que o vira nascer na sequência da independência. Manteve para sempre uma ligação ao Benfica, sendo frequentemente convidado de honra para jogos e aniversários. Veio a falecer num hospital em Maputo, com 78 anos, na sequência de uma infeção pulmonar que lhe provocou uma paragem cardio-respiratória.