Era o brasileiro favorito de José Maria Pedroto, que o trouxe para o seu V. Setúbal e depois o foi recuperar a Espanha para ajudar na construção do FC Porto campeão.
2016-08-04

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1971

Ficou famosa a frase de José Maria Pedroto acerca de jogadores brasileiros: “Um é bom, dois é demais, três é uma escola de samba”. Mas se houve brasileiro em quem o mestre confiou sempre foi em Duda, um alagoano que viveu com ele os melhores anos da sua carreira, ainda no V. Setúbal, e que ele depois foi buscar ao Sevilha para ser a peça que faltava no FC Porto que veio a ser campeão nacional, no final da década de 70. Os adeptos recordarão mais o hat-trick ao Manchester United ou o golo do meio da rua que eliminou o Milan em San Siro, mas o contributo de Duda para uma década de futebol nacional não se ficou por aí.

Duda não era só o faro de golo ou a potência no remate. O atacante alagoano era também de uma abnegação invulgar, o que o levou a aceitar sem reservas e a cumprir sem mácula as missões mais defensivas que Pedroto passou a confiar-lhe quando tinha outras opções para o ataque. Quando uma lesão grave, em Setúbal, lhe interrompeu demasiado cedo uma carreira que podia ter sido bem mais longa no FC Porto, em Fevereiro de 1980, Duda já era mais médio do que atacante. Aos 33 anos, já não teve capacidade para recuperar da lesão nem da crise que o clube viveu após a perda do tricampeonato e que levou à substituição de Pedroto por Herman Stessl. Ainda tentou regressar ao Vitória, mas já não era o mesmo jogador. Era tempo de colocar o ponto final numa carreira que, em termos europeus, tinha começado ali.

Duda tinha sido destaque do Club Sportivo Alagoano, da sua Maceió, com o qual conquistara o título estadual de Alagoas. Subiu um degrau na escada do sucesso ao assinar pelo Sport Recife, mas apesar dos muitos golos feitos em 1970 e 1971, o clube andava na sombra do Santa Cruz e do Náutico e ele viu na saída para o exterior a melhor oportunidade de progressão. À chegada a Setúbal, podia ser só mais um gingão brasileiro, mas depressa veio declarar que não: Pedroto estreou-o a 30 de Janeiro de 1972, fazendo-o entrar para o lugar de Rebelo ao intervalo de uma partida com o Tirsense no Bonfim e o novo recruta ainda fez dois golos numa ampla goleada de 6-0 que mantinha os sadinos na segunda posição da tabela. Duda só foi titular na última ronda, um 0-0 com o Belenenses no Restelo, e só fez mais um golo nessa época, mas deixou a ideia de que estava apenas a aquecer os motores. E, titular desde os primeiros momentos da época seguinte, como extremo-direito, logo se assumiu como maior goleador de uma equipa que tinha ainda Torres e Jacinto João na linha da frente.

Ao todo, Duda marcou 25 golos na sua primeira época completa em Portugal: 17 no campeonato, três na Taça de Portugal e cinco na Taça UEFA. Bisou sete vezes, uma delas frente ao Sporting (2-0 na jornada de encerramento da Liga) e outra na sua estreia europeia, um 6-1 caseiro aos polacos do Zaglebie Lubin, em meados de Setembro. E desde logo se mostrou pródigo nos golos a equipas italianas: fez os dois com que o Vitória eliminou a Fiorentina (1-0 em casa e 1-2 fora) e o primeiro nos 2-0 ao Inter de Milão no Bonfim. Para a época ser ainda mais perfeita só faltou a equipa ser capaz de ganhar um troféu. E esteve perto, pois perdeu a final da Taça de Portugal para o Sporting, por 3-2, tendo Duda marcado um dos tentos sadinos. Foram precisos largos anos para que o Vitória voltasse a estar tão perto das taças: a demissão de Pedroto, em Dezembro de 1973, antecipou a crise que aí vinha. E, mesmo tendo Duda passado incólume a ela do ponto de vista do rendimento individual, a equipa nunca mais se reencontrou.

A época de 1973/74 foi, ainda assim, a de maior produção goleadora para Duda, que só não se sagrou melhor marcador do campeonato porque havia um certo Yazalde. O brasileiro marcou 24 golos nas 30 partidas da Liga – sempre titular, tanto com Pedroto como, depois, com José Augusto – mas o argentino do Sporting chegou aos 46. Duda pode orgulhar-se de três hat-tricks, a Olhanense, Boavista e Montijo, bem como de um bis ao Leeds United, que à data da partida a contar para a Taça UEFA (Dezembro de 1973) era líder do campeonato inglês, mas ainda assim baqueou por 3-1 no Bonfim. Mais dez golos em 1974/75, com a particularidade de ter marcado aos três grandes, permitiram a um Vitória que pela primeira vez em muitos anos tinha ficado longe dos primeiros lugares (foi sétimo) negociá-lo para Espanha. Duda assinou pelo Sevilha, mas apesar de um bom início acabou por cair rapidamente no esquecimento e um ano depois estava de regresso a Portugal. Desta vez, porém, vinha para jogar no FC Porto, onde José Maria Pedroto regressara e o acolheu de braços abertos.

Prejudicado por tanto tempo sem competição, Duda chegou ao Porto com excesso de peso. Começou, por isso, o campeonato no banco. O adversário era o Portimonense, nas Antas, e por volta da meia-hora Oliveira lesionou-se, com o resultado ainda em branco. Pedroto chamou o brasileiro e os azuis e brancos acabaram por ganhar por 3-0, tendo Duda marcado o terceiro golo, já em cima do apito final. Ainda fez onze golos nesse campeonato – um deles ao Sporting e outro ao V. Setúbal – mas onde mais se destacou foi na Taça de Portugal, que o clube nortenho acabou por vencer. Até à final, Duda marcou dez golos, com hat-tricks ao Montijo e ao Aliados de Lordelo e mais um ao seu grande predileto, o Sporting, que os portistas eliminaram nos quartos-de-final. Na final, jogada nas Antas contra o Sp. Braga, Duda não marcou, mas deu o passe decisivo para o golo de Gomes, que valeu o resultado definitivo (1-0).

Ficava ali provado que este FC Porto podia ganhar coisas. E na época seguinte a equipa portista interrompeu mesmo um longo jejum de 19 anos, ganhando o campeonato. Alinhando a partir da esquerda do ataque, Duda formou com Oliveira, Murça e Fonseca o quarteto de azes de Pedroto: foram os únicos a marcar presença nas 30 jornadas. O maior protagonismo de Gomes na corrida aos golos não lhe secou a fonte. Duda ainda marcou 12 vezes no campeonato, duas delas ao Sporting. O golo que fez em Alvalade, a bem mais de 30 metros da baliza, ficou na história da competição e valeu uma importante vitória por 3-2, já nos últimos 20 minutos. A coroa de glória da temporada, porém, terá sido o hat-trick ao Manchester United. Foi a 19 de Outubro de 1977 que o alagoano forçou Stepney a ir buscar a bola três vezes ao fundo das suas redes, a primeira num remate do meio da rua, a segunda num volei após solicitação de cabeça de Seninho e a terceira na passada, após raide do mesmo Seninho até à linha de fundo. Os 4-0 final ecoaram por toda a Europa e não foram demasiado largos para o que esperava a equipa na segunda mão, onde só sobreviveu (com uma derrota por 5-2) graças à noite mágica de Seninho.

Foi já a atuar a meio-campo que Duda contribuiu ara o bicampeonato portista. Marcou, por isso, menos golos, mas ainda fez um particularmente importante, na Luz, no empate a uma bola contra o Benfica, a 21 de Janeiro de 1979. O resultado permitia ao FC Porto manter-se a apenas um ponto dos encarnados. Até final da época, os portistas só cederam mais dois pontos – empates com o Belenenses e o Sporting, em Lisboa – pelo que acabaram por beneficiar das escorregadelas do Benfica frente a Marítimo, Varzim e Beira Mar para se sagrarem campeões. Para melhor carimbar a euforia, Duda marcou no jogo da festa (4-1 ao Barreirense). E tudo parecia indicar que ao bi se sucederia o tri. As indicações dadas, até a nível europeu – eliminação do Milan em San Siro, depois de um empate a zero nas Antas, graças a um golo do meio da rua de Duda – eram boas. Com um golo de Duda, o FC Porto ganhou em Setúbal ao Vitória (2-0) a 24 de Fevereiro de 1980 e isolou-se no topo da Liga, beneficiando do empate do Sporting na Póvoa de Varzim (0-0). A dez minutos do fim da partida de Setúbal, no entanto, Duda caiu inerte no relvado. Sofrera uma contusão cervical, com perturbações do foro neurológico, que o impediu até de andar durante duas semanas e que fez temer pelo seu futuro enquanto futebolista. Já não jogou mais naquela época, na qual o FC Porto acabou por perder o título para o Sporting e a final da Taça de Portugal para o Benfica. E quando voltou ao ativo, o FC Porto tinha mudado.

O insucesso e o clima de guerrilha instaurado por Pinto da Costa e José Maria Pedroto motivaram a reação do FC Porto de outros tempos, mais urbano, mas ao mesmo tempo mais submisso. O líder do departamento de futebol e o treinador saíram, alguns jogadores foram também, e ao FC Porto chegou o austríaco Herman Stessl. Duda, que se lesionara em Fevereiro, voltou a jogar em finais de Setembro. Regressou com um golo (vitória frente ao Boavista, no Bessa, por 1-0), mas não estava em condições de assegurar a mesma qualidade que conferia à equipa antes da lesão. Despediu-se da camisola portista com mais um golo, por acaso o último que fez no campeonato: a 21 de Fevereiro de 1981, na vitória do FC Porto frente ao Varzim, na Póvoa, por 2-1. Duda ainda tentou jogar uma época no V. Setúbal, mas depois de começar a época a titular, tanto com Rodrigues Dias como com Peres Bandeira, o treinador que o substituiu logo em Setembro, desapareceu dos onzes sadinos. Jogou pela última vez no campeonato a 14 de Fevereiro de 1982, numa derrota por 4-1 frente ao Sporting, em Alvalade. Antes de pendurar as chuteiras, Duda ainda jogou uma época no Famalicão, na II Divisão, e outra no Oliveira do Douro, no distrital do Porto.