Entrou de rompante na I Divisão, com uma grande época no Marítimo seguida da entrada na equipa titular do Benfica. Jogou o Mundial do México e depois foi feito bode expiatório dos 7-1 em Alvalade. Recompôs-se na Madeira e no Beira Mar.
2016-06-08

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1980

Nunca foi homem de grandes brilhos. Oliveira, defesa-central saído do viveiro Moita-Barreiro, era de se impor pela seriedade de processos e pela regularidade, que o levou a ganhar o mítico prémio Somelos-Helanca na primeira época que fez na I Divisão, ao serviço do Marítimo, já com 24 anos. Para trás tinha a subida a pulso na hierarquia do futebol nacional, sem passar por cima de ninguém, talvez até com excesso de timidez face à qualidade que mostrava na posição. Pela frente estava um futuro de jogador do Benfica, titular no centro da defesa por três anos e meio até ser convertido em bode expiatório dos 7-1 que a equipa sofreu em Alvalade e sacrificado na caminhada que ainda levou esse plantel ao título de campeão nacional. E também um regresso ao Marítimo e um final de carreira no Beira Mar, sempre como líder do setor defensivo e em honrosas posições de meio da tabela.

Natural da Moita, Oliveira começou a jogar nas camadas jovens do Sarilhense. Passou ainda pelo modesto Rosairense antes de chegar à CUF, no final da década de 70. Aquela CUF era já uma sombra do que tinha sido e andava pela II Divisão apenas com o intuito de não baixar mais. Foi durante a permanência do central da Moita que o clube mudou de nome, passando a chamar-se Quimigal, devido à nacionalização do grupo económico que o suportava. Quatro anos como patrão da defesa verde-e-branca chegaram para que Oliveira chamasse a atenção dos olheiros de clubes da I Divisão: por indicação do treinador barreirense Manuel de Oliveira, antiga glória da CUF, assinou pelo Marítimo em 1982 e, mesmo já não o encontrando no Funchal quando lá chegou, isso não o impediu de se tornar patrão incontestável da defesa verde-rubra. A estreia na I Divisão, lançado por António Teixeira – o treinador que ocupou a vaga de Manuel de Oliveira – fê-la a 22 de Agosto de 1982, em Alvalade, numa derrota por 1-0 contra um Sporting que ostentava as divisas de campeão nacional. Eram outros tempos e o mero facto de uma equipa como o Marítimo ter aguentado o 0-0 em Lisboa até aos 73’ (foi quando Virgílio fez o golo) já era visto como uma proeza.

Nessa primeira época, Oliveira foi titular em todos os jogos do Marítimo e venceu mesmo o prémio instituído pelo jornal A Bola para o jogador mais regular do campeonato, o Somelos-Helanca. O Marítimo acabou num modesto 14º lugar, acabou por descer, mas Oliveira – que de caminho fez um golo, ao Estoril, a 13 de Março de 1983 – ficou na I Divisão, assinando pelo Benfica, que nele viu condições para integrar o plantel que entretanto se sagrara campeão e chegara até à final da Taça UEFA. Era todo um mundo novo que se abria à frente de um jogador que um ano antes andava a lutar para não descer à III Divisão, mas que entretanto, em mês e meio, chegara a três seleções nacionais. Estreou-se na seleção olímpica – 3-1 à RFA, no apuramento para os Jogos de Los Angeles – a 24 de Abril de 1983. A 4 de Maio jogou pelas esperanças, num particular com a Argélia, em Argel, que terminou empatado a zero. E a 8 de Junho alinhou pela equipa A contra o Brasil, em Coimbra, numa partida que Portugal perdeu por 4-0 e que, por suceder após os 5-0 encaixados na URSS, levou ao afastamento de Otto Glória.

Apesar de tudo, foi um Oliveira cheio de moral que chegou à Luz, mesmo tendo em conta que era visto como suplente. A lesão grave contraída por Humberto Coelho logo no início da temporada, no entanto, deu-lhe uma oportunidade que ele não enjeitou. Estreou-se oficialmente com a camisola do Benfica a 3 de Setembro, numa vitória por 1-0 frente ao Rio Ave, na Luz. No dia 28, já com Humberto fora das contas de Eriksson, fez o primeiro jogo na Taça dos Campeões Europeus, um 3-2 ao Linfield, na Irlanda do Norte. Até final da época, completou 34 presenças na equipa encarnada, sagrando-se campeão nacional pela primeira vez. A aposta estava ganha. Eriksson deixou a Luz no final da época, rumo a Itália, e apesar de o homem que veio substituí-lo, o húngaro Pal Csernai, ter feito uma verdadeira revolução, Oliveira não foi afetado por ela. A seu lado, o jovem Samuel ganhou o lugar ao meio, empurrando António Bastos Lopes para a direita, mas o moitense perdeu apenas 60 minutos em toda a época encarnada, sendo titular em todas as partidas, incluindo a final da Taça de Portugal, na qual reza a lenda que foram os líderes de balneário a escolher o onze. Nessa tarde, os 3-1 ao FC Porto permitiram-lhe somar mais um trofeu ao seu palmarés. Mais se seguiriam, pois Oliveira tornava-se uma certeza do Benfica, fosse qual fosse o treinador. Em 1985 chegou o inglês John Mortimore, que também não abdicou dele.

A época de 1985/86 foi tão perfeita para Oliveira que nela só faltou mesmo o título nacional, perdido ingloriamente para o FC Porto à conta de uma derrota frente ao Sporting, na Luz, na penúltima jornada. Oliveira falhou apenas uma partida em todo o campeonato, fazendo ainda a titular toda a caminhada que levou o clube a nova final da Taça de Portugal, desta vez ganha ao Belenenses, por 2-0. No fim da época, apesar de não ter voltado a jogar na seleção depois da partida com o Brasil, três anos antes, foi chamado por José Torres para o lote de jogadores que viajaram para o Mundial do México. E também ali se impôs, jogando como titular as três partidas que a equipa fez em solo mexicano. Na verdade, já ninguém discutia a presença de Oliveira entre os melhores defesas-centrais de Portugal. Até que chegou o fatídico dia 14 de Dezembro de 1986. Sporting-Benfica, da 14ª jornada do campeonato. Oliveira, que era totalista no campeonato até essa altura, fez dupla de centrais com Dito, mas os dois não foram capazes de travar o ataque do Sporting, liderado pelo endiabrado Manuel Fernandes. No final, 7-1 para os leões, com quatro golos de Manuel Fernandes. No final da época, o Benfica ainda foi campeão, mas Oliveira só esteve mais um minuto em campo, substituindo Diamantino na ponta final de uma vitória por 2-1 em Guimarães. Ganhava o segundo título nacional, mas perdia a carreira no Benfica, por ter sido escolhido como bode expiatório de uma derrota anormal.

Auto-afastado da seleção, acabou por regressar ao Marítimo, onde Manuel de Oliveira – que também lá voltara – lhe piscou outra vez o olho e fez dele capitão de equipa. A vingança, Oliveira serviu-a fria logo a 12 de Setembro, quando formou com Teixeirinha uma dupla de centrais que o Benfica não foi capaz de superar, ganhando por 1-0 na Luz e ajudando a criar o clima para a demissão do treinador dinamarquês Ebbe Skovdahl. Nessa época, aliás, já liderado por Ferreira da Costa mas com os mesmos dois centrais, o Marítimo ganhou também ao Sporting em Alvalade, pelo mesmo resultado (1-0), acabando o campeonato em nono lugar. Nem as fracas aspirações da equipa impediram o regresso de Oliveira à seleção, assim que acabou o auto-afastamento dos excomungados de Saltillo: em Outubro de 1988, Juca chamou-o para um empate a zero contra a Suécia em Gotemburgo, dando-lhe mais cinco internacionalizações, nas quais fez até um golo (nos 6-0 a Angola, a 23 de Março de 1989). Depois de sair do Benfica, Oliveira fez ainda dois anos e meio como indiscutível no Marítimo, acabando por perder a titularidade em Janeiro de 1990, numa época marcada pela ascensão de Carlos Jorge.

Aos 32 anos, podia perfeitamente ter encerrado a carreira, mas optou por aceitar um convite do Beira Mar. E, mais uma vez, fez bem, porque em Aveiro ainda fez quatro campeonatos do mais alto nível. Sobretudo os três primeiros, com Vítor Urbano como treinador, que se saldaram por um sexto e dois oitavos lugares. Totalista na primeira época – a da sexta posição – Oliveira voltou a jogar uma final da Taça de Portugal, perdendo desta vez contra o FC Porto, por 3-1. Faltou a apenas dois jogos na segunda temporada, por causa de uma lesão contraída em Dezembro de 1991, numa receção ao U. Madeira, e voltou a ser totalista na terceira, mostrando que não perdera as qualidades que tinham feito dele um dos melhores defesas-centrais da sua geração. A chegada de Zoran Filipovic para treinar os aveirenses, em 1993, não lhe roubou importância na equipa. Perdeu a titularidade nas últimas quatro jornadas, mas a 29 de Maio de 1994, fez a última das suas 352 partidas na I Divisão, entrando a 12 minutos do final para o lugar de Draskovic com o intuito de segurar um empate a uma bola com o Boavista que praticamente salvava os aveirenses: só uma vitória do Paços de Ferreira frente ao Sporting em Alvalade, no último dia, somada a uma derrota do Beira Mar com o FC Porto nas Antas condenaria a equipa à despromoção.

Aos 36 anos, Oliveira encerrava assim a carreira de futebolista, passando logo a ocupar o cargo de treinador-adjunto no Campomaiorense. Com Manuel Fernandes, o homem que ajudara a acabar-lhe com a carreira no Benfica, mas que com ele partilhava as origens no Sarilhense, formou uma dupla técnica de algum sucesso: subiram de divisão com o Campomaiorense (1995), Santa Clara (1999) e Penafiel (2004). Depois de Penafiel, deixou o futebol, trabalhando atualmente na Casa das Enguias, na Lançada, junto ao Montijo.