É o futebolista com mais jogos e mais golos pelo V. Setúbal na I Divisão. No período áureo do clube, entre 1969 e 1972, foi titular em 129 jogos seguidos. Tudo com uma qualidade difícil de igualar.
2016-06-07

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1963

Chegou de Angola como avançado-centro, mas foi convertido em médio por Fernando Vaz. O sucesso da transformação foi tão grande que José Maria se fez um dos primeiros “box-to-box” do futebol nacional, tornando-se figura incontornável da história do V. Setúbal. Alma das grandes equipas de Vaz e depois de Pedroto, do super-Vitória europeu, é ainda hoje o homem com mais jogos (318) e mais golos (94) pelos sadinos na I Divisão. Radicado em New Jersey, nos Estados Unidos, não perde uma oportunidade de reviver esses tempos de glória com antigos colegas a cada vez que vem a Portugal.

José Maria começou a jogar futebol no Atlético de Luanda, clube que hoje dá pelo nome de Petro Atlético. Ali se destacou ele, como avançado-centro, mas também o irmão, Joaquim Conceição, que era um ano mais velho e jogava como defesa-direito. Os dois vieram para Setúbal já com a época de 1962/63 em curso, mas foi mais rápida a adaptação de José Maria a uma nova realidade: estreou-se pela mão de Filipo Nuñez a 20 de Janeiro de 1963, com uma derrota por 3-0 em Guimarães. À segunda partida, uma semana depois, fez o primeiro golo. E foi logo na baliza de Carvalho, na altura a estabelecer o resultado da receção ao Sporting em 2-0 – Osvaldo Silva e Morais acabariam, no entanto, por fazer o empate final. Até final da temporada, José Maria só falhou três jogos, acabando como segundo melhor marcador da equipa sadina, apenas atrás de Quim.

Era um avançado veloz, diziam que parecia um galgo a correr, e além disso tinha boa técnica e um remate colocado a fazer inveja a muitos. Não espantou por isso que se tornasse a referência no ataque do Vitória: em 1963/64 dividiu a honra de ser melhor marcador da equipa com Carlos Manuel, o seu parceiro de ataque, que chegara do Sporting envolto na transferência do defesa-central Alfredo para Alvalade. A verdade é que nas quatro primeiras jornadas do seu segundo campeonato, José Maria já tinha feito seis golos. E fê-los a adversários de respeito: um ao Benfica, outro ao FC Porto, dois à Académica e outros tantos ao Barreirense. Até final do campeonato voltou a marcar ao Benfica e conseguiu mais um bis (ao V. Guimarães), não perdendo a pontaria na Taça de Portugal, prova na qual fez mais quatro golos, três dos quais ao Sporting. Um deles, aliás, serviu para separar as duas equipas num emocionante terceiro jogo, em Évora, depois dos dois empates iniciais (2-2 em Setúbal e 0-0 em Alvalade).

O Vitória acabou por cair nos quartos-de-final, afastado pelo Belenenses. Na época seguinte, porém, já com Fernando Vaz aos comandos, foi até ao fim, batendo o Benfica na decisão por 3-1, a 4 de Julho de 1965. José Maria, que já tinha feito mais sete golos na caminhada até ao Jamor – incluindo outros dois ao Sporting, em mais uma excitante eliminatória com três desafios – abriu o ativo no último dia, aproveitando um passe de Jaime Graça para bater Costa Pereira. O próprio Jaime Graça e Armando fizeram os outros dois golos da surpreendente vitória sadina sobre um Benfica que era tricampeão nacional e perdera há mês e meio a final da Taça dos Campeões Europeus em Milão. Era a confirmação de que em Setúbal estava a formar-se uma excelente equipa, algo que o sexto lugar na I Divisão já tinha deixado entender. E José Maria era o goleador dessa equipa: fez 16 golos no campeonato, com destaque para um póquer nos 8-0 ao Seixal, logo à segunda jornada, a 18 de Outubro de 1964.

A 25 de Agosto de 1965 José Maria fez, sem marcar, a estreia nas provas europeias de clubes, sendo escalado por Fernando Vaz para o onze que foi à Dinamarca perder com o Aahrus por 2-1. Este era ainda um mero ensaio-geral para o super-Vitória europeu que o final da década acabaria por revelar e novo desaire em casa acabou mesmo por ditar a eliminação. Em termos nacionais, a equipa sadina ganhava asas. Na Taça de Portugal, José Maria contribuiu com mais cinco golos para nova presença na final, mas aqui chegado não foi capaz de repetir a proeza da época anterior e o Vitória acabou por perder com o Sp. Braga (0-1). No campeonato, com mais oito golos do avançado angolano, os sadinos subiram mais um degrau na escada, acabando a época em quinto lugar e garantindo nova presença europeia, desta vez na Taça das Cidades com Feira. José Maria defrontou a Juventus, em Novembro de 1966, mas voltou a não fazer golos.

O campeonato de 1966/67 ficou marcado, para o V. Setúbal, pela saída de Jaime Graça. A principal força do meio-campo sadino confirmara no Mundial o brilho que já se lhe vira no campeonato, acabando transferido para o Benfica. Fernando Vaz precisava então de resolver esse problema e lembrou-se de recuar José Maria. Primeiro de forma tímida, fazendo dele segundo avançado no 4x4x2. Depois de um modo perfeitamente assumido, mudando o esquema da equipa para um 4x3x3 em que o angolano era o motor do meio-campo. José Maria não deixou, porém, de fazer golos, tamanha era a sua amplitude de movimentos. Aparecia em todo o lado, corria quilómetros, mas era capaz de aparecer na mesma em condições de aplicar o seu remate colocado à entrada da área. Ainda marcou, por isso, 15 golos nessa época, um dos quais na terceira final da Taça de Portugal consecutiva que jogou. E se ele marcou, o Vitória ganhou, batendo a Académica por 3-2, com o tento decisivo a aparecer já num segundo prolongamento, com a noite a cair sobre o vale do Jamor, na mais longa final da Taça de Portugal de sempre. No campeonato, os sadinos voltaram a ser quintos, tendo José Maria concentrado a maior parte dos seus golos (dez em doze) na segunda volta. Destaque para um bis ao Benfica, a 23 de Abril de 1967, decisivo na viragem de um jogo marcado para o Barreiro por interdição do Bonfim e em que os encarnados se tinham colocado em vantagem, ainda na primeira parte, num penalti de Eusébio, mas que os sadinos acabaram por ganhar por 3-2, graças a um terceiro tento de Tomé.

O final de temporada majestoso levou, por essa altura, José Maria à seleção nacional. Gomes da Silva chamou-o para uma jornada dupla em Estocolomo e Oslo, em Junho de 1967, e o empate na primeira partida, frente à Suécia, levou o selecionador nacional a dar-lhe a titularidade na segunda, na qual alinhou em vez de Serafim ao lado de Eusébio na frente de ataque. Portugal ganhou por 2-1, com bis do Pantera Negra, mas a carreira de José Maria na seleção não foi longa: só voltaria em Abril de 1969, para um particular contra o México, tendo-se despedido da equipa das quinas em Outubro de 1970, com uma vitória na Dinamarca (1-0) conseguida graças a um golo de Jacinto João. Jacinto João, aliás, tinha sido uma das grandes vitórias de José Maria no Bonfim: o mágico JJ veio de Luanda para Lisboa para jogar no Benfica, mas José Maria e Conceição tanto lhe atormentaram as ideias que ele acabou por regressar a Angola, acabando depois por assinar pelo Vitória. Em Setúbal, os três eram inseparáveis em campo e fora dele – chamavam-lhes os “pássaros madrugadores”. À data da chegada de Jacinto João ao clube já José Maria era assumidamente centrocampista, o que teve um reflexo natural no seu total de golos, mas não lhe diminuiu o valor de mercado. No final da época de 1967/68, depois de o Vitória voltar a ser quinto classificado, mesmo tendo José Maria feito o campeonato com menos utilização desde o ano de estreia, o Benfica quis contratá-lo. Oferecia 1400 contos, mas os sadinos não terão gostado de algumas atitudes dos dirigentes do clube grande, dando o negócio como irrecusável, e recusaram fechar negócio.

Para trás ficava uma época com mais oito golos no campeonato, o primeiro golo europeu do agora médio angolano – a 6 de Setembro de 1967, num 5-1 ao Fredrikstad, na Noruega – e apenas um na Taça de Portugal, na qual o Vitória atingiu a quarta final consecutiva. Desta vez, porém, perdeu, com o FC Porto, por 2-1. No banco portista estava outro José Maria, o Pedroto, que ainda ia viver muitas alegrias em conjunto com o seu homónimo – só que nenhum dos dois o sabia ainda. José Maria ainda fez mais uma época com Fernando Vaz em Setúbal: o quarto lugar de 19658/69, já todo feito a meio-campo com Vagner e Tomé como companheiros, no qual José Maria só falhou um jogo, que foi o empate em Tomar (0-0). Foi também o ano da primeira aventura europeia a sério do V. Setúbal, com a chegada aos quartos-de-final da Taça das Cidades com Feira, deixando pelo caminho equipas como o Lyon e a Fiorentina (dois golos de José Maria na vitória por 3-0 no Bonfim). No final da época, quando poucos pensavam que fosse possível fazer um upgrade, a chegada de Pedroto levou o Vitória para um novo patamar, tanto no plano nacional como internacional. O terceiro lugar de 1969/70 (com presença nos oitavos de final da Taça das Cidades com Feira) teve um pequeno retrocesso em 1970/71 (quarto lugar, mas com meia-final da Taça de Portugal e quartos-de-final da prova da UEFA), mas seguiu-se o pulo para a segunda posição de 1971/72 (outra vez com oitavos-de-final da Taça UEFA).

A importância de José Maria nestas conquistas fica bem à vista de quem se der ao trabalho de reparar num pormenor: Pedroto chegou ao Vitória no verão de 1969 e a primeira vez que fez um onze sem José Maria foi a 15 de Outubro de 1972. E só porque o médio angolano se lesionara uma semana antes, logo aos 14 minutos de uma derrota em Tomar. Entre todas as provas, foram 119 jogos consecutivos com José Maria a titular no período mais brilhante da história do V. Setúbal. Fazendo 30 anos no final da época de 1972/73, que o Vitória encerrou com mais um terceiro lugar, o médio angolano mantinha todas as suas qualidades. Por isso voltou a ser totalista em 1973/74, num campeonato em que o Vitória seguia a apenas um ponto do Sporting, em segundo, à viragem para a segunda volta. Foi aí que se deu a demissão de Pedroto, ainda hoje mal explicada, mas que oficialmente teve a ver com a imposição da lei da rolha por parte do presidente: no regulamento interno, os jogadores eram proibidos de falar à imprensa, de ir à praia e até de casar sem autorização do clube e isso foi o suficiente para o treinador bater com a porta. José Augusto, que substituiu o Zé do Boné, ainda segurou a terceira posição, e levou os sadinos aos quartos-de-final da Taça UEFA, mas a história gloriosa do V. Setúbal estava a caminhar para um presente cheio de dúvidas e sem grandes resultados.

A lesão contraída por José Maria em Setembro de 1974, em Espinho, que o afastou até Fevereiro de 1975, não ajudou em nada o Vitória. Quando o angolano regressou, em Fevereiro, já José Augusto tinha saído, com José Torres a ocupar o lugar na qualidade de treinador-jogador. Com ele nas últimas nove rondas, o Vitória ainda recuperou de 11º para sétimo, mas isso não apagou a forma como caíra da UEFA à primeira, afastado pelo Saragoça, numa eliminatória em que o angolano alinhou apenas a tempo parcial, substituindo Duda a meio da segunda parte do empate caseiro (1-1) e faltando na derrota em Espanha (4-0), por já estar lesionado. José Maria ainda cumpriu o último ano do contrato, com um nono lugar que confirmava o declínio. Despediu-se do campeonato e do V. Setúbal com um golo e uma assistência, a 30 de Maio de 1976, uma semana antes de fazer 33 anos, num empate em casa (2-2) com o U. Tomar. Surgiu-lhe então a oportunidade de emigrar para os Estados Unidos e ele não a enjeitou. Por lá, ainda jogou, entre Maio e Junho de 1977, na equipa do Toronto Metros, que em 1976 tinha sido campeã da NASL com Eusébio, mas que desta vez não passou da primeira ronda do play-off. O futebol, para ele, acabava ali. Continuou a acompanhar a vida do Vitória, até por ter tido um filho a jogar na equipa principal, em 1986/87: Tó Maria, médio de ataque como o pai, fez algumas partidas na subida de divisão com Malcolm Allison, saindo depois para o Farense, mas apenas para confirmar que não tinha tanto talento como o pai.