Extremo que jogava com os dois pés e por isso podia alinhar em qualquer das cinco posições do ataque, Franklim ganhou uma Taça de Portugal no Belenenses antes de regressar ao Minho para jogar no V. Guimarães
2016-06-06

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1942

Um dos extremos mais goleadores do futebol português na década de 40, Franklim só representou dois clubes: o Belenenses, onde deu os primeiros toques, depois de sair da escola nos Pupilos do Exército, e o V. Guimarães, no seu Minho natal, onde se refugiou quando os responsáveis azuis não corresponderam ao pedido de um emprego na Companhia Nacional de Navegação. Entre os dois emblemas, foi de uma regularidade impressionante, a que não era estranho o facto de poder jogar nas cinco posições do ataque, pois usava com a mesma arte os dois pés.

Natural de Vila Praia de Âncora, Franklim era filho de um sargento da marinha e desde cedo soube o que era a disciplina militar. Veio para Lisboa estudar nos Pupilos do Exército e começou a jogar no Belenenses, onde se estreou muito jovem: tinha apenas 18 anos quando, a 2 de Junho de 1940, Alejandro Scopelli o incluiu no onze que goleou nas Salésias o Sp. Covilhã, por 6-0, em partida da segunda mão dos oitavos de final da Taça de Portugal. Nesse jogo, foi Franklim quem, a passe de Quaresma, inaugurou o marcador – e, mesmo não tendo jogado mais nessa edição da prova, esse desafio podia ter-lhe garantido um troféu, tivesse o Belenenses feito melhor que a derrota por 3-1 na final com o Benfica. Apesar desse início promissor, o jovem extremo minhoto não fez parte dos planos iniciais de Artur José Pereira, quando este pegou na equipa, em 1940/41. Só entrou na equipa perto do final da época, por lesão de Horácio Tellechea: estreou-se no campeonato a 30 de Março de 1941, quando faltavam três jornadas para o fim da prova, tendo ajudado a equipa a subir do quarto para o terceiro lugar, com vitórias sobre a Académica, o Sporting e o Boavista. A esses três jogos juntou mais cinco na Taça de Portugal, com mais dois golos, a boavisteiros e academistas. Nas meias-finais, com o regresso de Tellechea e a passagem de Gilberto para a direita, Franklim foi o sacrificado, pelo que viu mais uma vez do lado de fora a sua equipa perder a decisão do troféu, desta vez frente ao Sporting, e por 4-1.

À terceira, porém, foi de vez. Com a saída dos irmãos Tellechea, Gilberto mudou-se mesmo para o centro do ataque, o que levou o novo treinador, Rodolfo Faroleiro, a dar continuidade a Franklim na direita. Titular desde o início do campeonato – só falhou três jornadas, entre Março e Abril – fez o primeiro golo na prova a 22 de Fevereiro de 1942, numa goleada de 5-1 ao Carcavelinhos. Havia de marcar mais nove, dois dos quais ao Benfica e outros tantos ao FC Porto, nos 7-3 com que os azuis encerraram a Liga. Na Taça de Portugal, participou em todas as partidas, com mais quatro golos, incluindo novo bis ao FC Porto. Foi, por isso, titular – ainda que como extremo-esquerdo – na terceira final do Belenenses. Com a particularidade de ter sido a final certa, pois foi aquela que os azuis ganharam: 2-0 ao V. Guimarães, em jogo disputado no Lumiar, rezam as crónicas que debaixo de uma ventania anormal para aquele mês de Julho.

Habituado à posição na esquerda do ataque, foi por aí que Franklim jogou o campeonato de 1942/43, com António Lopes como treinador azul. E, usando bem os dois pés, aproveitava para aumentar a frequência goleadora: acabou a época com 13 golos no ativo, três dos quais ao Sporting, o único grande a quem ainda não tinha marcado. O Belenenses, porém, não saía do terceiro lugar do campeonato, atrás dos dois rivais lisboetas. E desta vez nem a Taça de Portugal sorriu à equipa da cruz de Cristo, que acabou eliminada pelo Sporting nos quartos-de-final. Franklim estava já com 22 anos e começava a pensar na vida além do futebol. É então que, no seguimento de uma época que já não lhe correu tão bem – mesmo sendo titular em 15 das 18 jornadas com Sandor Peics, já só marcou quatro golos – se lembrou de pedir aos dirigentes do clube que lhe providenciassem um emprego na Companhia Nacional de Navegação. Américo Thomaz, que acabara de ser escolhido como presidente do clube, tinha uma longa carreira como presidente da Junta Nacional da Marinha Mercante e tinha sido nomeado também Ministro da Marinha, pelo que o pedido tinha pernas para andar. Só que não aconteceu. Cansado de esperar, com uma proposta do Celta de Vigo – que o abordara durante as férias em Vila Praia de Âncora –, Franklim acabou por assinar pelo V. Guimarães, que dessa forma podia vangloriar-se de ter tirado um jogador a um dos clubes de Lisboa. Pouco habitual para a época.

Campeão do Minho à chegada, Franklim não deu um contributo tão grande como se esperaria à equipa comandada por Virgílio Freitas. Começou a temporada como titular, mas só marcou um golo – ao V. Setúbal, em Fevereiro – e, tendo-se magoado logo a seguir, esteve fora nas derradeiras oito jornadas da prova. Viu ainda o Belenenses ser campão nacional. Quando finalmente recuperou da lesão, em Fevereiro de 1947, Franklim entrou na equipa de Artur Baeta como extremo-esquerdo, que era a posição da qual saía para fazer mais golos. Ainda marcou nove nas 19 partidas em que tomou parte nesse campeonato, oito dos quais nas últimas sete rondas e um deles a valer um empate com o Belenenses (1-1) nas Salésias, a 11 de Junho. Duas semanas depois, fez a Azevedo, guarda-redes do Sporting e da seleção nacional, um golaço de canto direto que mostrava que estava de volta a arte do extremo que encantara no Belenenses. Em 1947/48 já foi outra vez o jogador de rendimento constante, uma das armas que levaram o V. Guimarães de Alfredo Valadas ao sétimo lugar do campeonato. Falhou apenas uma partida – a derrota frente ao Sporting em Alvalade – e acabou a competição com seis golos, aos quais somou mais um no único jogo que o Vitória fez na Taça de Portugal: 1-5 com o Sporting, no dia em que celebrava 27 anos.

Franklim estava a chegar ao pico do rendimento, como se viu nos 14 golos que fez no campeonato de 1948/49, premiado com o sexto lugar dos vimaranenses e com um troféu simbólico para o melhor marcador das equipas do Norte: bateu o boavisteiro Serafim, que terminou a Liga com 12 tentos. Obteve nesse campeonato o seu primeiro hat-trick, precisamente ao Boavista, numa vitória por 3-1 a 3 de Outubro de 1948, destacando-se ainda com um bis ao Benfica (3-3, em casa) ou no golo da vitória (2-1) sobre o Belenenses. Por esta altura já Franklim tinha sido promovido à posição de capitão de equipa, alternando os jogos à direita e à esquerda com algumas escalações para ser avançado-centro. Janos Biri, treinador vimaranense em 1949/50, recorria a esse truque com alguma frequência, e o jogador correspondia. Apesar dos 12 golos que ele marcou nesse campeonato (mais um hat-trick, desta vez ao Olhanense), o Vitória sofreu para assegurar a manutenção na I Divisão: só a garantiu na penúltima jornada, graças a um 3-1 sobre o Estoril, tendo Franklim apontado o terceiro tento. Mas as dificuldades tinham vindo para ficar. Em 1950/51, o 13º lugar final teria relegado os vimaranenses para a II Divisão, não tivesse o V. Setúbal descido administrativamente, na sequência de um caso de suborno a jogadores do Oriental.

Com a nomeação de Sandor Peics, no início da temporada de 1951/52, Franklim – que o treinador já conhecia dos tempos em que ambos estiveram juntos no Belenenses – manteve a influência na equipa. Foi totalista nesse campeonato (décimo lugar), bem como nas três partidas a que a equipa foi obrigada antes de cair da Taça de Portugal, eliminada pelo Salgueiros. O último lugar que o Vitória ocupava a meio do campeonato seguinte, porém, levou a direção do clube a substituir Peics por Cândido Tavares. E uma das medidas que o novo treinador assumiu na tentativa de recuperar a equipa – que depois acabou o campeonato na oitava posição – foi o afastamento de Franklim. O extremo minhoto fez o último jogo a 1 de Fevereiro de 1953, uma vitória por 1-0 na Amorosa contra o Barreirense. O seu único golo dessa época tinha sido obtido a 19 de Outubro de 1952, numa derrota por 4-1 contra o Atlético. Franklim ainda fez parte do plantel durante mais um ano, mas a verdade é que não voltou a jogar, o que o levou a guardar ressentimento para com o treinador depois de abandonar a carreira e fixar residência em Guimarães, onde veio a falecer.