Maior símbolo vivo da história do Sporting, Manuel Fernandes só está atrás de Peyroteo em golos marcados de leão ao peito. Começou na CUF e foi acabar ao V. Setúbal.
2016-06-05

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1970

Símbolo do Sporting para um par de gerações, bem pode dizer-se que Manuel Fernandes tinha o destino traçado. A mãe, Justina, que morreu tinha Manuel 11 anos, disse-lhe um dia que ele havia de jogar na CUF e no Sporting. E ele assim fez. Depois de um preâmbulo no Sarilhense, passou seis épocas nos verdes do Barreiro antes de chegar a goleador, capitão, treinador e dirigente do Sporting, o clube pelo qual o seu coração batia desde tenra idade. Tudo somado, ter-lhe-ão faltado títulos, reflexo de uma altura em que os leões não só já não eram a maior potência futebolística do país como viram o FC Porto crescer para se bater em primeira instância com o Benfica. A qualidade, porém, esteve sempre lá, como se percebia na técnica, no instinto e na inteligência do homem que reforçou o seu lugar na história do futebol português por ter feito quatro golos nos célebres 7-1 ao Benfica.

Nascido em Sarilhos Pequenos, aldeia na margem sul do Tejo, filho de um fragateiro e de uma camponesa, Manuel não teve uma infância fácil, fruto até da prematura morte da mãe. A dureza da vida do pai levou a que fossem as duas irmãs mais velhas quem se ocupou do rapaz. Manuel ainda foi conseguindo estudar no Ensino Industrial, mas a paixão pelo futebol era forte. Chegou aos Sarilhense para jogar nos juvenis e, dali, começou a dar cumprimento ao vaticínio da mãe, sendo recrutado para jogar na CUF. No Barreiro, depois de um jogo pelas reservas contra o Luso, no qual marcou dois golos, Costa Pereira, antigo guarda-redes do Benfica que na altura liderava a equipa fabril, viu nele condições para vingar e não deu-lhe a primeira oportunidade a sério a 19 de Outubro de 1969, tinha Manuel Fernandes apenas 18 anos. O adversário era de peso: o Benfica. Só que, ao contrário do que tantas vezes veio a suceder ao longo da sua carreira, o avançado sarilhense não foi capaz de desequilibrar: entrou a 25 minutos do fim para o lugar de Capitão-Mor, mas os encarnados, que já tinham aberto o ativo, por Torres, ainda fizeram o 2-0, obra de Artur Jorge.

Nessa primeira época a trabalhar com os seniores, Manuel Fernandes ainda jogou pouco: apenas três presenças em todo o campeonato, sempre como suplente utilizado. Seria muito diferente a nova época. Carlos Silva, que acabara o campeonato anterior como técnico da CUF e levou o jovem Manuel a um torneio de fim de temporada a Badajoz, apostou nele logo de início. Titular pela primeira vez no campeonato a 13 de Setembro de 1970, em nova derrota frente ao Benfica, na Luz, Manuel Fernandes arrepiou caminho logo à segunda jornada, fazendo três dos sete golos com que os cufistas ganharam ao Leixões no Lavradio (7-1). Ainda marcou mais três golos nesse campeonato, mas uma lesão contraída na partida frente ao Boavista, em finais de Fevereiro, roubou-lhe a ponta final da época. Só em Outubro, já com Fernando Caiado aos comandos, o avançado de Sarilhos voltou a ser titular, para uma época notável, que culminou com o quarto lugar e a qualificação da CUF para as provas da UEFA, à frente do FC Porto. Tudo se decidiu a três jornadas do fim, quando os azuis e brancos visitaram o Alfredo da Silva. A um minuto do fim, com 0-0 no marcador, um golpe de cabeça de Manuel Fernandes bateu Rui e deu a vitória à equipa da casa, que assim ampliava para quatro pontos a vantagem que tinha sobre os comandados de António Feliciano. Era o oitavo golo de Manuel Fernandes na época e o primeiro a um grande.

A estreia na Taça UEFA aconteceu a 20 de Setembro de 1972, com uma vitória por 1-0 em Bruxelas frente ao Racing White, num jogo em que Conhé defendeu um penalti. Manuel ainda fez um golo europeu nessa época – na derrota caseira por 3-1 frente ao Kaiserslautern – a juntar a mais três na Taça de Portugal e outros oito no campeonato. A prova rainha acabou mais uma vez demasiado cedo para ele, pois saiu lesionado num empate com o Sporting, no Barreiro, perdendo as últimas três jornadas. Um mês antes, Manuel Fernandes tinha-se estreado na seleção de “esperanças”, os antecessores dos atuais sub21, numa vitória por 1-0 frente à Itália, pelo que os grandes clubes começaram a olhar para ele de outra forma. A CUF é que não estava pelos ajustes e o próprio jogador, protegido pelo emprego que o clube lhe proporcionava, também não tinha pressa de sair. Mais seis golos no campeonato e dois na Taça de Portugal – nos 1-3 com que a CUF foi eliminada pelo FC Porto – completaram-lhe a época de 1973/74. Manteve a importância em 1974/75, antes de a CUF entrar em processo de auto-destruição, na sequência do 25 de Abril e do desmoronamento de todo o grupo económico que a sustentava, obtendo mais dez golos, com destaque para o seu primeiro póquer, a 4 de Maio de 1975, numa vitória por 7-2 Olhanense. A equipa ainda acabou a prova num simpático oitavo lugar – desceria na época seguinte – mas o estatuto de internacional A que Manuel Fernandes conquistara a 9 de Março, lançado no mesmo dia de Fernando Gomes num particular contra a seleção de Goiânia, no Brasil, somado ao fim da Lei da Opção, permitiu-lhe escolher o futuro. Manuel Fernandes tinha um convite aliciante do FC Porto, mas acabou por aceitar outro, do Sporting, porque era o clube do coração e porque assim dava cumprimento à profecia da mãe.

Em Alvalade, onde o Sporting acabara de perder a revalidação do título de campeão nacional, cabia-lhe a árdua tarefa de substituir Yazalde, o goleador argentino que conquistara a Bota de Ouro um ano antes. E apesar do quinto lugar final mostrar uma equipa com problemas, o goleador de Sarilhos não se saiu mal: na primeira época de leão ao peito fez logo 26 golos no campeonato, aos quais juntou mais três na Taça UEFA. Voltou a fazer golos ao FC Porto, primeiro nas Antas, no famoso jogo do nevoeiro que os leões ganharam por 3-2, e depois em Alvalade, num sucesso por 5-1, e somou três hat-tricks (U. Tomar, Sp. Braga, Leixões e Académica), numa época promissora que lhe valeu mais duas internacionalizações pela seleção A. Com a chegada de Jimmy Hagan ao clube, Manuel Fernandes passou a jogar mais pela direita, num ataque a três que contava ainda com Manoel e Keita, mas nem por isso o seu total de golos baixou muito: terminou a temporada de 1976/77 com 21 golos no campeonato e mais um na Taça de Portugal, sagrando-se mais uma vez o melhor marcador da equipa. Além disso, celebrou os primeiros golos ao Benfica (marcou na vitória por 3-0 em Alvalade logo a abrir o campeonato e depois na derrota por 2-1 na Luz, em Janeiro) e obteve mais um póquer (nos 6-1 ao V. Setúbal) e um hat-trick (nos 4-0 ao Belenenses). Faltavam-lhe títulos, porém.

O primeiro chegaria logo na época seguinte. Em 1977/78, com a adição de Jordão a um ataque onde já havia Keita e Manuel Fernandes, o Sporting ganhou a Taça de Portugal. Manuel Fernandes fez nove golos na prova, um deles na finalíssima, ganha ao FC Porto por 2-1 no dia 23 de Junho. Antes, porém, já tinha bisado duas vezes (uma delas nos 3-1 ao Benfica, nos quartos-de-final) e feito um hat-trick, nos 5-0 ao Salgueiros. Foi, com Jordão, o único jogador leonino a marcar em todas as competições – e a lesão de Jordão, em Fevereiro, no famoso jogo do brinco de Vítor Batista, deu-lhe de bandeja mais uma distinção como melhor marcador leonino da época. Ao todo, Manuel Fernandes fez 24 golos, 14 deles no campeonato. E se em 1978/79 o total desceu para 13 (dez no campeonato e três na Taça de Portugal), nova lesão grave de Jordão, desta vez contra o Famalicão, voltou a consagrar Manuel Fernandes como melhor marcador da equipa. Só que aquilo que o avançado de Sarilhos queria era ser campeão. E para isso fazia-lhe falta ter Jordão a seu lado. Em 1979/80, o ano em que assumiu de vez a braçadeira de capitão, Manuel Fernandes deu a primazia goleadora a Jordão, mas marcou ainda assim 18 golos em toda a época – dez deles no campeonato – e o Sporting voltou a vencer a prova. Marcou mais um póquer (desta vez ao Sp. Espinho, na Taça de Portugal) e voltou a celebrar um golo ao Benfica, na vitória leonina por 3-1, em meados de Abril, quando a equipa de Fernando Mendes acelerou para a conquista do campeonato.

Depois de uma temporada perdida, chegou ao Sporting Malcolm Allison e os leões ganharam tudo o que havia para ganhar no país. Manuel Fernandes, que já jogava em dupla com Jordão num 4x4x2 que se baseava muito no entendimento perfeito entre estes dois avançados, até começou muito mal a época, sendo expulso por Mário Luís no polémico empate a duas bolas com o Belenenses, em Alvalade, logo na primeira jornada. O castigo fê-lo falhar as três rondas seguintes, mas quando ele entrou no onze foi com golos. Marcou, ao todo, 15 no campeonato, aos quais somou mais três na Taça de Portugal – um deles, ganha por 4-0 ao Sp. Braga – e ouros três na Taça UEFA, onde conheceu uma noite de glória ao contribuir com um bis para os 4-2 com que o Sporting ganhou em Inglaterra ao Southampton. Uma proeza para aqueles tempos. Nem assim, contudo, o Sporting evitou a entrada no mais longo jejum da sua história. O despedimento de Allison, na pré-época de 1982, abriu a crise que a escolha de António Oliveira para o papel de treinador-jogador não evitou. Os leões ainda ganharam aquela Supertaça – e Manuel Fernandes celebrou um hat-trick nos 6-1 da segunda mão, depois da derrota por 2-1 m Braga – mas no campeonato ficaram muito aquém do que se esperaria de um campeão nacional. O sarilhense conheceu a sua época de menor produção goleadora com a camisola leonina: seis golos no campeonato, mais três na Taça de Portugal, três na Supertaça e dois na Taça dos Campeões Europeus, prova na qual o Sporting chegou aos quartos-de-final, caindo ante a Real Sociedad em San Sebastian.

Na qualidade de referência do clube, era nessa altura pedido a Manuel Fernandes que exercesse alguma influência sobre os mais jovens. Entre eles despontava Futre, que muitas vezes vinha com o capitão de boleia desde a margem sul do Tejo para os treinos orientados pelo checoslovaco Joszef Venglos. Futre retribuía com assistências. Em 1983/84, Manuel Fernandes fechou a época com 24 golos, 17 dos quais no campeonato, mas o Sporting foi terceiro e levou apenas um jogador à equipa de Portugal que jogou a fase final do Europeu, em França: Jordão. Na lista de Cabrita não estavam Manuel Fernandes nem Futre. O capitão, que de qualquer modo não participara em nenhuma das partidas de qualificação, perdia a primeira oportunidade de estar numa fase final de uma grande competição de seleções. E no início da época, ficou um dia plantado à espera que Futre aparecesse para a habitual boleia em direção a Alvalade. De nada lhe serviu, pois o jovem esquerdino já tinha rumado às Antas para se comprometer com o FC Porto, fugindo ao que se dizia seria o seu destino: um empréstimo à Académica. Ainda assim, com Jaime Pacheco e Sousa, o Sporting de John Toshack parecia ser um forte candidato ao título. Com 16 golos de Manuel Fernandes – outra vez melhor marcador da equipa, aproveitando algumas ausências de Jordão – os leões discutiram a prova enquanto puderam, mas o campeão foi o FC Porto.

Já com 34 anos, Manuel Fernandes podia começar a pensar no fim da carreira. Mas a nomeação de Manuel José para treinador do Sporting trouxe-lhe uma espécie de segunda juventude. Em 1985/86 o capitão leonino foi pela primeira vez melhor marcador do campeonato. Saiu logo na frente da tabela, marcando cinco dos seis golos com que o Sporting ganhou ao Penafiel (6-0), a 24 de Agosto de 1985, na primeira jornada. Acabou o campeonato com 30 golos – mais seis na Taça de Portugal e três na Taça UEFA – mas nem assim José Torres o chamou uma única vez para a seleção nacional. Injustamente, ficou fora do Mundial do México, ao qual decidiu comparecer como adepto. Era a última chance que ele tinha para estar numa grande competição. A confusão em que se transformou a participação portuguesa, com o escândalo de Saltillo, o castigo a vários jogadores e o afastamento voluntário dos outros, porém, levou Manuel Fernandes a regressar à equipa nacional. A 12 de Outubro de 1986, aos 35 anos, três anos e meio depois da última internacionalização, esteve no empate a uma bola frente à Suécia, no Jamor, com que Portugal abriu a qualificação para o Europeu de 1988. Nesta segunda vida ainda somou mais cinco internacionalizações, a última das quais um embaraçoso empate a dois golos com Malta no Funchal, em Março de 1987, marcando de caminho o seu sétimo golo pela seleção, num empate a uma bola com a Suíça em Berna. No Sporting, viveu a mais épica das tardes da sua carreira, quando a 14 de Dezembro de 1986 marcou quatro dos golos com que os leões derrotaram o Benfica por 7-1. Ainda fez 15 golos nesse campeonato, mas nem isso impediu Keith Burkinshaw, o treinador inglês que chegou no final da época a Alvalade, de o dispensar.

Só que em vez de terminar a carreira, Manuel Fernandes – que representara o Sporting em 433 jogos oficiais, marcando 255 golos, sendo o terceiro homem com mais presenças e o segundo goleador de toda a história do clube – acedeu ao convite de Fernando Oliveira, ex-colega na CUF, que presidia ao V. Setúbal. Com Malcolm Allison a treinador e com os ingressos simultâneos de Manuel Fernandes, Eurico e Jordão, os sadinos acabaram o campeonato em oitavo lugar. Manuel Fernandes ainda fez 16 golos no campeonato, entre eles se contando o primeiro que fez ao Sporting: aconteceu logo ao primeiro minuto de um jogo que o Vitória ganhou por 2-1, a 28 de Novembro de 1987. Três semanas depois de um póquer ao Varzim (5-0), o goleador de Sarilhos haveria de fazer o seu último golo na I Divisão. Foi a 2 de Abril de 1988, num jogo que os sadinos ganharam por 2-0. Manuel Fernandes ainda fez mais sete jogos, encerrando a época como jogador-treinador e promovendo a sua própria despedida quando, a 22 minutos do fim do jogo da última jornada com o Farense, no Bonfim (0-0), saiu para dar o lugar ao jovem Hélio – que mais tarde viria a ser também treinador sadino.

Estava a começar uma carreira de treinador que levou Manuel Fernandes do V. Setúbal (quinto lugar em 1988/89) ao Estrela da Amadora e à Ovarense antes de regressar ao Sporting, como adjunto de Bobby Robson. Nessa altura, quis levar com ele um jovem técnico de Setúbal para o qual arranjou o cargo de tradutor: era José Mourinho. Campomaiorense, Tirsense, outra vez V. Setúbal, Santa Clara (subida de divisão), Penafiel (outra subida), ASA, U. Leiria (ainda outra subida) e Sporting (onde ganhou a Supertaça de 2000/01) completaram a carreira de treinador de Manuel Fernandes que voltou recentemente a Alvalade para ocupar um lugar na estrutura do futebol leonino.