A guerra em Angola e a incompreensão de alguns treinadores atrasaram a afirmação de Seninho no futebol de mais alto nível, mas o extremo ainda foi a tempo de brilhar no FC Porto e no Cosmos
2016-06-01

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1970

Durante muitos anos foi a prova viva de que o futebolista português podia ter sucesso “lá fora”, que era como se chamava ao estrangeiro quando Portugal se abriu ao Mundo. Ele que nem tinha sido dos mais credenciados da sua geração – fustigado, é verdade, pelo serviço militar, que lhe atrasou a vida durante quatro anos – valeu-se como cartão de visita de uma noite mágica em Old Trafford, com dois golos ao Manchester United, para acabar ao lado de Beckenbauer, no Cosmos de Nova Iorque. Tudo porque um dia Abdul Zubaida, um empresário americano de origem árabe, meteu na cabeça que haveria de levá-lo para lá e fez finca-pé aos patrões da Warner. E Seninho nunca se deu mal nos Estados Unidos, acabando por ganhar por quatro vezes o SocerBowl, a final do então renomado campeonato da América do Norte.

A origem do jogador esteve, porém, num terceiro continente: África. E o atraso no seu crescimento também. Seninho nasceu Arsénio, em Junho de 1949, na cidade que então dava pelo nome de Sá da Bandeira e hoje se chama Lubango, em Angola. O pai morreu quando ele tinha nove meses de idade, o que não o obrigando a uma infância de privações o levou a trabalhar cedo. Começou por ser contabilista, ao mesmo tempo que dava os primeiros pontapés na bola nas equipas de formação do FC Lubango, mas os golos fizeram falar dele e o Ferroviário acenou-lhe com uma proposta que ele não podia recusar: emprego dos caminhos-de-ferro, 3500 escudos mensais e um lugar na equipa de futebol. Seninho aceitou e, mesmo tendo em determinada altura da sua vida saído um pouco de circulação – porque foi destacado para trabalhar no Dongo, perto da fronteira com a Gâmbia, deixando o futebol para segundo plano – não passou despercebido a Rubens Mendonça, adepto portista que vivia na zona. Daí que, quando o FC Porto fez uma digressão de final de época a Angola, em 1969, tenha conseguido um pouco da atenção de Elek Schwartz, à data treinador dos azuis e brancos, e Hernâni, a antiga glória portista que era chefe do departamento de futebol e se ofereceu para o ver num treino individual.

Logo ali, Hernâni percebeu que quem chutava, recebia, driblava e corria como Seninho tinha lugar no plantel do FC Porto. Acertou-se então a transferência, por 100 contos para o Ferroviário – mais 50 para o jogador – e Seninho chegou ao Porto a 17 de Agosto de 1969. Tinha 20 anos e não era um dos preferidos de Schwartz, que alegava que o angolano só tinha futebol para 20 ou 30 minutos. Ia quase sempre para o banco, mas só em meados de Novembro conseguiu ser titular. A estreia oficial com a camisola portista, Seninho fê-la nas Antas, jogando em vez de Chico Gordo – que haveria de ser seu colega na tropa, em Angola – nos últimos 13 minutos de um empate (3-3) com a Académica. Dez dias depois, outra vez como suplente utilizado, conheceu a estreia europeia, alinhando 29 minutos na vitória por 2-1 frente ao Hvidovre, na Dinamarca. A 26 de Outubro, o primeiro golo: entrou a 22 minutos do fim e aproveitou um passe de Salim para fixar o 2-0 final num jogo em casa com o Sp. Braga. Marcou o segundo na primeira vez que foi titular, na vitória em casa contra o U. Tomar, a 16 de Novembro, e apesar da confusão que foi a época nas Antas, com a saída de Schwartz e o longo interinato de Vieirinha antes da chegada de Tommy Docherty, ainda contribuiu com seis golos para o modesto nono lugar dos portistas. Fez, inclusive, o primeiro bis, numa vitória por 2-0 contra a CUF, em Janeiro.

Quando parecia estar a ganhar o lugar na equipa, porém, apareceu-lhe a contrariedade. Primeiro o destacamento para o serviço militar, que fez entre Coimbra e Viana do Castelo. Depois, um telefonema que recebeu no lar dos jogadores e onde lhe disseram que estava mobilizado para a guerra, na Guiné. Foi ao quartel e soube que afinal não era a Guiné que o esperava, mas sim Angola, onde tinha nascido. A frustração foi a mesma: na segunda época, Seninho jogou apenas dois minutos no campeonato, tendo depois que pôr o futebol em espera. Com a ajuda do FC Porto, ainda encontrou um voluntário que, devidamente recompensado, aceitou ir em vez dele para o Ultramar, mas o pedido foi indeferido pelo governo. Restava-lhe mesmo a viagem para Luanda. Disputado por todos os clubes da capital angolana, acabou por ser mobilizado – juntamente com Chico Gordo – para o Moxico, onde assinam ambos pelo clube local. Ainda lhes calharam umas semanas de guerra no mato, mas os dirigentes do clube moveram as suas influências e os dois foram chamados de volta, para poderem ajudar o clube numa caminhada triunfal que acabou com o título provincial angolano. Em Abril de 1974, semanas antes da revolução, ainda veio a Portugal, jogar com a CUF uma eliminatória da Taça de Portugal, da qual o FC Moxico saiu vergado a um 6-0 absolutamente normal.

Finda a guerra, Seninho voltou ao Porto. Aimoré Moreira, o treinador que se ocupava na altura dos azuis e brancos, quis vê-lo em ação e deu o veredicto positivo à sua integração no plantel. O regresso, no entanto, foi muito gradual. Primeiro porque Seninho estava há muito afastado do futebol de alto nível. Depois porque trazia mazelas num joelho, uma antiga lesão ligamentar que não só não tinha sido curada como provocara atrofia muscular durante a guerra colonial. Na época de regresso, Seninho só fez sete jogos no campeonato – e apenas um como titular, frente ao Leixões, a 13 de Abril de 1975. Ainda marcou um golo ao U. Santiago do Cacém, na Taça de Portugal, mas era sempre visto como arma secreta e não como craque de primeira escolha. Tudo mudou, porém, no seguimento das férias. O Sport Recife interessou-se por ele, depois de o ver na digressão de final de temporada que o FC Porto fez ao Brasil, mas o clube pediu muito dinheiro para o libertar. O que não queria dizer que continuasse: é que o contrato de Seninho acabava e, dentro do país, podia assinar por quem quisesse. O V. Guimarães chegou-se à frente, mas a opção do jogador acabou por ser a renovação com o FC Porto, onde chegou o treinador jugoslavo Branko Stankovic e o futebol pleno de velocidade e explosão de Seninho passou a ser visto com outros olhos.

Depois de ser suplente nas quatro primeiras jornadas – marcando ainda assim dois golos nos 3-1 ao Belenenses, a 21 de Setembro – Seninho foi pela primeira vez titular com Stankovic a 1 de Outubro, na descomplicada visita aos luxemburgueses do Avenir Beggen, na primeira eliminatória da Taça UEFA. Os azuis e brancos já tinham ganho a primeira mão nas Antas, por 7-0, e voltaram a ganhara a segunda, por 3-0, tendo Seninho feito o terceiro golo. Foi o primeiro de três que fez nessa edição da Taça UEFA, pois esteve mais tarde na folha de goleadores das duas partidas com o Dundee Utd., da Escócia. Além disso, marcou ainda um golo na Taça de Portugal (ainda que no dia da eliminação, frente ao V. Guimarães) e dez no campeonato, com destaque para um bis ao Farense e um hat-trick ao Atlético. Titular absoluto, tanto com Stankovic como com Monteiro da Costa, que o substituiu em finais de Janeiro, conheceu ainda um incidente desagradável, quando viu o primeiro vermelho da sua carreira, em vésperas da Natal, por se envolver numa agressão mútua com o brasileiro Pedrinho, do V. Guimarães. Por esta altura, Seninho já era visto como extremo direito, posição na qual conheceu a primeira internacionalização: a 7 de Abril de 1976, Pedroto colocou-o em campo ao intervalo de um amigável com a Itália, que Portugal perderia por 3-1. Foi a primeira de quatro internacionalizações, todas conquistadas antes de trocar o Porto por Nova Iorque, no final da época de 1977/78.

Até lá, contudo, Seninho ainda viveu duas épocas plenas com Pedroto no FC Porto. O regresso do mestre às Antas, em 1976, valeu logo uma Taça de Portugal na primeira época. Seninho tinha marcado um golo na caminhada até à final, com o Sp. Braga – nos oitavos-de-final, ao Aliados de Lordelo – e, na noite da decisão, marcada para as Antas, entrou ao intervalo para o lugar de Taí, na tentativa de desbloquear o 0-0 que se eternizava no placard. Gomes marcou, o FC Porto ganhou por 1-0 e, no final, Seninho trocou de camisola com Chico Gordo, seu antigo camarada de armas que estava na equipa rival. Melhor seria, ainda assim, a época de 1977/78, porque nela o FC Porto pôs finalmente fim a um jejum de 19 anos sem ganhar o campeonato nacional. Seninho esteve em 28 dos 30 jogos – viu os outros dois do banco – tendo marcado quatro golos na epopeia. Tudo isso somado à noite mágica de Old Trafford valeu a atenção do Cosmos: nessa 2 de Novembro de 1977, Seninho fez dois golos a Stepney em lances individuais, garantindo a passagem do clube português face ao Manchester United, mesmo como uma derrota por 5-2. A 23 de Junho, quando jogou – e marcou – na derrota do FC Porto na finalíssima da Taça de Portugal, frente ao Sporting (1-2), Seninho já sabia que tinha como destino o Cosmos de Nova Iorque, que sob a batuta de Franz Beckenbauer competia na época regular da NASL.

A transferência, porém, não foi fácil de concretizar, pois Pinto da Costa, à data chefe do departamento de futebol do clube portista, elevou ao máximo as suas exigências, acabando por ver entrar nos cofres do clube oito mil contos. Abdul Zubaida, o empresário que fez o negócio, teve de ser muito persistente, pois a dada altura, face à intransigência portista, já eram os donos do clube nova-iorquino que queriam desistir. A verdade é que, cinco dias depois de ter jogado pela última vez com a camisola portista, na tal finalíssima da Taça de Portugal, Seninho estreava-se pelo Cosmos a 28 de Junho de 1978, entrando como suplente utilizado numa vitória por 3-0 face ao Philadelphia Fury. Ainda fez um golo nesse primeiro campeonato, a fechar os 5-0 aos Portland Timbers, na final de conferência, alinhando como suplente utilizado no SocerBowl, disputado em Nova Iorque a 27 de Agosto e no qual o Cosmos bateu os Tampa Bay Rowdies por 3-1. Dois meses depois de ser campeão de Portugal, Seninho era campeão dos Estados Unidos também. E o espantoso é que repetiu a proeza mais três vezes, mantendo a preponderância na equipa apesar da chegada de craques de dimensão mundial como Neeskens ou Carlos Alberto (1979), Óscar, Romerito ou Cabañas (1980). Seninho ainda fez seis golos no campeonato de 1981 (aos 32 anos) e nem a pouca utilização em 1982 (apenas uma partida) o levou a acabar a carreira, fazendo ainda duas excelentes épocas no Chicago Sting e voltando a ser campeão em 1984 (com oito golos no ativo). A vitória por 3-2 frente ao Toronto Blizzard, no Canadá, a 3 de Outubro de 1984, a valer o troféu de campeão de uma NASL já em decadência foi o último jogo a sério de Seninho, um futebolista que Portugal não terá sabido apreciar devidamente.