Chegou do Brasil para se tornar uma lenda do futebol algarvio. Membro do ataque MFA que deu cartas no Farense na primeira metade da década de 70, ainda brilhou em Setúbal antes de representar Portimonense e Olhanense.
2016-05-31

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1969

Sergipano de nascimento e algarvio por adoção, Mirobaldo foi um caso curioso de um jogador que já era craque antes de o ser. Chegou a Portugal para representar o Farense, em 1971, vindo do Santa Cruz, onde se sagrara tricampeão pernambucano, mas onde nunca conseguiu corresponder à enorme onda de euforia que a sua contratação representou. Em Portugal, porém, construiu uma bela história de golos. Este esquerdino esguio, que aliava ao chuto forte um bom jogo de cabeça, foi um dos poucos a jogar nos três grandes do Algarve – Farense, Portimonense e Olhanense – mas nunca fez tantos golos como na primeira época no V. Setúbal.

O lançamento da carreira de Mirobaldo deu-se em inícios de 1969, tinha ele 22 anos. Revelado no Confiança, de Aracaju, jogou ainda em mais duas equipas segipanas – o Olímpico  o América – antes de se transferir para o Recife. Aí, em busca de uma glória que devolvesse a equipa aos dias de glória de outros tempos, foi aguardado com uma expectativa inusitada, como se de um novo Pelé se tratasse. A manchete do Jornal do Comércio – “Mirobaldo Vem Aí” – ainda hoje é citada como uma das que mais euforia provocaram em toda a história do futebol pernambucano. E a verdade é que resultou: o jogador foi recebido por uma multidão no aeroporto de Guararapes, teve duas mil pessoas a ver o seu primeiro treino (a 2 de Fevereiro de 1969) e começou por confirmar tudo o que dele se dizia, com nove golos em 13 jogos na caminhada que permitiu ao Santa Cruz interromper nove anos de jejum e conquistar o primeiro de cinco títulos estaduais consecutivos. Mirobaldo esteve nos três primeiros, ainda que vendo a sua influência na equipa decrescer em favor de Ramon, que acabou por tornar-se o verdadeiro ídolo da torcida. E a meio do campeonato de 1971 foi transferido para Portugal.

Chegado a Faro, Mirobaldo estreou-se no campeonato a 19 de Setembro de 1971, frente ao Boavista, no Bessa. Com a equipa a perder por 1-0 ao intervalo, porém, Manuel de Oliveira trocou-o por Valdir – sem sucesso, pois o resultado já não se alterou. Correu-lhe melhor a segunda partida, uma vez que fez dois golos (ambos de penalti) na vitória do Farense sobre o Leixões (4-3), a 17 de Outubro. Viria a somar nove nesse primeiro campeonato, tornando-se melhor marcador da equipa e a referência no centro do ataque, à frente de Ernesto. O nono lugar do Farense teve muito do seu contributo, por isso mesmo. E o seu nome já não foi ignorado quando se começou a preparar a temporada seguinte, na qual começou a surgir nas coleções de cromos. À segunda época, Mirobaldo repetiu a marca goleadora: nove golos no total, com dois bis, que desta vez castigaram as redes de V. Guimarães e U. Tomar. O Farense acabou por assegurar nova manutenção, agora com mais alguma dificuldade, mas tempos melhores estavam a surgir, com o sétimo lugar de 1973/74. Com a direção de Carlos Silva, a equipa melhorou e Mirobaldo também: apesar da expulsão no dérbi com o Olhanense lhe ter roubado, por castigo, duas partidas, terminou o campeonato com 12 golos, incluindo o primeiro hat-trick. Escolheu a dedo a ocasião para o festejar: na receção à equipa de Olhão, que o Farense ganhou por 3-1, a 10 de Março de 1974.

Aos 12 golos nesse campeonato – e podiam bem ter sido mais, não tivesse o brasileiro perdido três penaltis – houve ainda a somar mais cinco na Taça de Portugal, incluindo novo hat-trick, este ao Lusitânia de Lourosa. No fim do campeonato, o momento político deu ao trio de ataque que ele formava com Farias e Adilson um novo ânimo: os três formavam o MFA, setor responsável pelo alvor bem sucedido do Farense na I Divisão. Duas lesões, contraídas contra o U. Tomar (a primeira, a 5 de Janeiro de 1975) e a Académica (a segunda, que lhe pôs termo à época, em meados de Março) custaram a Mirobaldo a cedência do título de melhor marcador farense em 1974/75 e ao clube um final de época agitado: era sétimo antes da lesão do brasileiro, mas já não fez mais um único ponto até final do campeonato, que terminou em 11º lugar. A descida de divisão acabaria por chegar em 1976, apesar do promissor início de época, no qual Mirobaldo garantiu com um golo em nome próprio a vitória sobre o FC Porto (1-0), em Faro, em finais de Setembro. Mas nem a associação do brasileiro a Jacques, outro grande goleador, evitou a descida da equipa comandada por Pedro Gomes – no início – e Manuel de Oliveira – no final. Restou a Mirobaldo a transferência para o V. Setúbal, onde viria a conhecer a época mais goleadora das que passou em Portugal, mas também o início da curva descendente da sua carreira.

Num ataque com Jacinto João à esquerda e Diamantino à direita, o brasileiro tornou-se sinónimo de golos: fez 15 no campeonato de 1976/77, mais oito na Taça de Portugal. Destes, cinco surgiram num mesmo jogo, a goleada de 9-0 ao Ançã. Mas no campeonato voltou a fazer golos ao Sporting e ao FC Porto, mantendo o Benfica como o único grande que não conseguia bater. O sexto lugar final do Vitória de Fernando Vaz não teve, porém, continuidade na época seguinte, na qual Vítor Madeira veio ameaçar o lugar de Mirobaldo como referência de ataque. Ainda assim, apesar de uma ausência de três meses, entre Janeiro e Abril, ainda acabou a Liga com sete golos, um dos quais ao Sporting, numa vitória dos sadinos por 2-1. A propensão para encher o saco nos jogos com equipas mais fracas revelou-a com o seu último hat-trick, num 4-1 ao Macedo de Cavaleiros, a 13 de Novembro, para a Taça de Portugal. Mirobaldo ainda cumpriu o último ano de contrato em Setúbal, mas já sem jogar com grande regularidade. Nem Carlos Cardoso – que começou a época – nem Rui Silva – que o substituiu em Janeiro – lhe deram grande continuidade, mas o brasileiro ganhou novo alento no momento em que o comando técnico foi entregue aos seus colegas de balneário Rebelo e José Mendes, marcando três golos nas últimas três jornadas do campeonato.

Terminado o contrato, contudo, voltou ao Algarve. Acenaram-lhe do Portimonense, que acabara de regressar à I Divisão e Mirobaldo já lá entrou como referência de ataque e capitão de equipa. Aliás, quando, em Novembro, uma derrota frente ao Boavista, por 5-1, custou o lugar a António Medeiros, foi ele o convidado pelo presidente a treinar a equipa – o que fez, no mês de Dezembro, com um empate e duas derrotas em três jornadas. A chegada de Manuel de Oliveira, o treinador que o acolhera em Faro quase uma década antes, permitiu ao Portimonense estabilizar e chegar ainda a um meritório oitavo lugar, ao qual não foram alheios os dez golos com que o brasileiro voltou a ser melhor marcador da equipa. A 1 de Junho de 1980, Mirobaldo despedia-se da I Divisão com um golo no último minuto de jogo, a dar uma vitória do Portimonense sobre o V. Setúbal, por 1-0. Aos 34 anos, assinou pelo Desp. Beja, que jogava na II Divisão. Ainda regressaria ao Algarve, para mais duas boas épocas no Farense (13 golos na II Divisão, em 1981/82, com a subida perdida por pouco para o Marítimo) e no Olhanense (14 golos em 1982/83, no terceiro lugar que a equipa ocupou na Zona Sul). Ficou por isso para sempre ligado à história do futebol algarvio e até do próprio Algarve, como se comprovou pelo facto de ter recentemente sido homenageado pelo Moto Clube de Faro.