Veio para Portugal pela mão do tio, que jogara no FC Porto e no Varzim, como forma de contornar a intransigência do Madureira em vender o seu passe. Sempre rigoroso na defesa das suas equipas, chegou ao Sporting depois de quatro excelentes anos no Chaves.
2016-05-19

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1981

A vitória de Jorginho no futebol português foi, acima de tudo, a vitória do rigor e da persistência. Saído de uma geração em que o Brasil começou a exportar defesas-centrais em doses industriais, teve de subir a pulso uma encosta que começava em Viseu, quase como refugiado ou fugitivo do Madureira. Passou por vários clubes modestos antes de se tornar uma das almas do Chaves europeu e de chegar ao Sporting, onde no entanto não teve mais sorte do que tinha tido na primeira ascensão ao topo do futebol nacional, no Boavista, uns anos antes, passando grande parte da época no banco. Como nunca foi de se acomodar, aceitou regressar à luta diária pela permanência ou pela subida de divisão e, até acabar a carreira, com 35 anos, foi sempre um baluarte em todas as equipas que representou.

Apesar de a posição que ocupava recomendar a experiência, Jorginho foi um sucesso precoce: aos 18 anos já estava na equipa do Madureira que, sob as ordens do antigo guarda-redes campeão do Mundo Félix, se sagrou campeã carioca da II Divisão, em 1980. Só falhou a semana da celebração porque ao mesmo tempo estava a defender a seleção carioca de juniores. As coisas no ano seguinte, contudo, azedaram e Jorginho acabou por sair para Portugal. Assediado para assinar pelo Botafogo ou pelo Fluminense, na sequência da presença na seleção carioca, viu o Madureira recusar-lhe a saída e enfrentava a ameaça de dois anos sem jogar quando recebeu uma chamada do tio, Jorge Gomes, um médio brasileiro que tinha jogado no FC Porto e no Varzim e era membro da equipa técnica do Académico de Viseu. Abriu-se então a possibilidade de Jorginho assinar como amador pelo Académico de Viseu, de forma a evitar o pagamento de uma indemnização relativa à transferência. Não aconteceu assim, porém. Jorginho foi mesmo inscrito como profissional e a 22 de Novembro de 1981 estreou-se na equipa pela mão de Fernando Cabrita, ocupando o lugar de Emanuel num jogo da Taça de Portugal que os beirões ganharam ao Alferrarede, por 1-0. Uma semana depois, a 29 do mesmo mês, fazia a estreia no campeonato, com uma derrota por 3-0 frente ao Benfica no Estádio da Luz.

Depois de três jornadas a entrar vindo do banco, a qualidade permitiu ao jovem brasileiro segurar um lugar de titular. Com ele a formar dupla de centrais com Emanuel, o Académico viveu a melhor fase da época, com vitórias sobre o Estoril, o Belenenses e o V. Setúbal. A sete jornadas do fim, após um empate a zero com o Sp. Espinho, os viseenses ocupavam a 10ª posição, com quatro pontos de avanço sobre a linha de água. Até final, porém, Jorginho só defrontou o Benfica (0-2 em Viseu), regressando depois apenas para a última jornada, uma visita ao Estoril, que precisava de ganhar para fugir à descida. Ganharam os estorilistas por 1-0, o que conjugado com a vitória do Amora sobre o Sp. Braga acabou por condenar o Académico a uma inesperada despromoção. Jorginho nem acabou o jogo, sendo expulso por António Garrido com um segundo cartão amarelo a sete minutos do final.

Condenado à II Divisão, o central brasileiro acabou por jogá-la, mas não em Viseu. Assinou pelo Recreio de Águeda, que nessa época de 1982/83 ganhou a Zona Centro – um ponto de avanço sobre o Académico de Viseu – e subiu pela primeira vez ao escalão principal. Jorginho voltou assim à I Divisão, formando com o seu compatriota Paulo César a dupla de centrais de eleição de José Carlos. Titular absoluto – só falhou os jogos que se seguiram a uma lesão sofrida na partida em casa contra o V. Guimarães, a 11 de Dezembro – Jorginho fez o primeiro golo no campeonato a 9 de Março de 1984, numa vitória por 1-0 frente ao Penafiel que deixava a equipa na décima posição, três pontos acima da linha de água. O problema é que nem a demissão do treinador José Carlos, a quatro jogos do fim, impediu a catastrófica reta final da equipa, que só fez dois pontos nas últimas nove rondas e viu a descida confirmada ao perder no último dia com o Rio Ave em Vila do Conde, por 5-1. Desta vez, porém, Jorginho não desceu. O Boavista interessou-se por ele e serviu-lhe de salvo-conduto para a manutenção. No Bessa, porém, apesar de ter começado o campeonato como titular de Mário Wilson (empate a duas bolas em Braga, na jornada inaugural), Jorginho só jogou mais duas vezes na Liga e outras tantas nos jogos da Taça de Portugal contra os secundários Praiense e São Martinho. E com a chegada de João Alves, em Março, deixou mesmo de ir ao banco, pelo que não foi surpresa a sua dispensa no final da temporada.

Um ano no Felgueiras, a lutar sem sucesso pela subida de divisão, permitiu-lhe o regresso ao escalão principal, desta vez para representar o Chaves. E foi em Trás-os-Montes que a carreira de Jorginho arrancou mesmo. Após uma época de aproximação, o Chaves de Raúl Águas deu o salto de qualidade e obteve um quinto lugar que lhe valeu a primeira qualificação europeia. Jorginho, que formava dupla de centrais com Garrido e falhou apenas três jogos em toda a época, soube pela primeira vez o que era ganhar a um grande a 4 de Janeiro de 1987, quando os flavienses se impuseram ao Sporting por 2-1. Em finais de Março, nova sensação, com o empate a zero contra o Benfica na Luz. Foi, por isso, com inteiro merecimento que a 16 de Setembro de 1987 entrou em campo como um dos titulares na estreia europeia do Chaves, uma derrota por 3-2 na Roménia frente ao Universitatea Craiova que a equipa portuguesa reverteu com um 2-1 na segunda mão. Foi uma época em cheio para o defesa carioca, que além dos quatro jogos europeus (defrontou ainda o Honved, marcando até um golo na derrota por 3-1 em Budapeste), alinhou em 37 das 38 jornadas do campeonato, contribuindo com mais dois golos para o sétimo lugar do Chaves. Um desses golos marcou-o ao Sporting, num empate caseiro (1-1) de um Chaves que para lá do Marão também ganhou ao Benfica (1-0).

Jorginho manteve a regularidade até quando a equipa falhava. Foi o caso em 1988/89, quando formou pela primeira vez dupla com Filgueira. Com o final da ligação de Raul Águas ao clube, a equipa vacilou e teve de lutar até ao fim para não descer: só o garantiu à penúltima jornada, com um empate em casa com o Sp. Braga. A chegada de José Romão, em 1989, porém, voltaria a guiar a equipa flaviense aos mais altos voos. Jorginho voltou a marcar ao Sporting – e a ganhar aos leões em casa, agora por 2-1 – e a celebrar um quinto lugar que, porém, não permitiu a entrada na Taça UEFA, porque o E. Amadora foi o surpreendente vencedor da Taça de Portugal. De qualquer modo, aos 28 anos, o jogador achou-se suficientemente maduro para testar uma aventura no estrangeiro e assinou pelo Mulhouse, da II Liga francesa. Não ficou muito tempo – um ano depois estava Sousa Cintra a chamá-lo para reforçar o plantel do Sporting. A primeira passagem por um grande nem lhe correu mal de todo: os problemas físicos de Venâncio levaram Marinho Peres a apostar nele com alguma frequência para jogar ao lado de Luisinho, na primeira metade da época, mas após um autogolo decisivo em Guimarães, em meados de Novembro (derrota do Sporting por 2-1) e já com os dois titulares aptos, Jorginho passou a mera alternativa na equipa leonina que terminou a Liga em quarto lugar. E no final da temporada saiu para Famalicão, onde reencontrava José Romão, um dos treinadores que mais dele tirou em Chaves.

O primeiro ano no Minho foi excelente. Apesar das duas expulsões, Jorginho foi o defesa central mais votado da Liga nos prémios de regularidade dos jornais, contribuindo para a salvação da equipa do Famalicão. Voltou a marcar ao Sporting (derrota por 4-3 em Alvalade) e ganhou ao FC Porto (1-0) nas Antas, em meados de Março de 1993. Na época seguinte, porém, magoou-se com gravidade logo em inícios de Outubro e quando Abel Braga o fez regressar, em meados de Abril, já não conseguiu ajudar a tirar os famalicenses da penúltima posição. Jorginho despediu-se da I Divisão a 2 de Junho de 1994, já com a certeza antecipada da despromoção, numa derrota com o Gil Vicente, em Barcelos (1-0). Ainda ajudou o Felgueiras de Jorge Jesus a subir, em 1995, passando depois duas épocas a meio da tabela da II Divisão de Honra com a camisola do Beira Mar.

Jorginho já foi treinador do Águeda, cidade onde vive, sendo neste momento professor de educação física no agrupamento de escolas de Campia e Vouzela. Está ainda a terminar o doutoramento em treino de alto rendimento na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Porque se há coisa que se percebe da sua carreira é que nunca gostou de deixar nada à sorte.