O sorriso permanente, de quem está de bem com a vida, dava sempre lugar a uma atitude mais competitiva em campo, onde usava as longas pernas e a ligeireza que o físico lhe permitia para ir buscar adversários em recuperações tidas como improváveis.
2018-02-18

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1988

Marco Aurélio era e não era um típico futebolista brasileiro, dos que no início da década de 90 começaram a trocar até grandes clubes do Rio ou de São Paulo por equipas modestas de Portugal. Era, porque ria muito, apregoava sempre a boa disposição com base na fé, e foi até um dos maiores impulsionadores do movimento dos Atletas de Cristo em Portugal. Não era, porque exatamente por isso nunca foi “baladeiro”: cuidava-se como poucos, o que lhe favorecia o rendimento em campo. Esguio e veloz, era senhor de dois bons pés, sabia sair a jogar, e dono de uma leitura de jogo e de um sentido posicional que fizeram dele um dos melhores defesas-centrais da década de 90 em Portugal.

A história, porém, começa bem longe. No Rio de Janeiro. Formado nas categorias de base do América FC, Marco Aurélio só se impôs verdadeiramente na equipa principal em 1987, no ano em que festejou 20 primaveras. A equipa foi mal na confusão que foi o campeonato brasileiro mas Pinheiro, o treinador, manteve a aposta nele para a disputa do campeonato carioca de 1988. Aí, o brilho que o jovem defesa-central ia atingindo motivou a aposta do gigante Vasco da Gama. Em 1989, Marco Aurélio já era titular indiscutível na equipa que Nelsinho montou para ser campeã do Brasil, ao lado de vedetas como Mazinho ou Bebeto. A “zaga” começava nele, podendo depois incluir, à vez, o equatoriano Quiñonez ou o forte Célio Silva, conhecido como a “Bomba” do Brasil, por causa dos golos de livre que marcava.

A verdade é que os tempos estavam particularmente complicados no Brasil e, a meio da época de 1990, Marco Aurélio quis mudar de vida. O que ganhava esfumava-se depressa numa inflação galopante, a insegurança no Rio era muita e o jovem jogador queria casar com Sheila, a sua namorada. Começou a alimentar ideias de emigrar e, quando lhe falaram em Portugal, veio ver. As primeiras impressões, naquele verão de 1990, foram muito más. Chegou ao Funchal e logo o levaram à sede do União da Madeira, um prédio que estava em ruinas e tinha ardido há pouco num incêndio. Marco Aurélio chegou a sugerir ao agente que o trouxera que o levasse de volta. Estava habituado a outras ordens de grandeza: afinal jogava no Vasco da Gama. Mas à noite, no hotel, deixou-se convencer por Jaime Ramos, o político e empresário madeirense que presidia ao clube. Nunca se arrependeu. Assinou contrato e a 26 de Agosto estreava-se oficialmente na equipa principal azul e amarela, formando dupla com o jugoslavo Dragan Gacesa numa vitória por 2-1 frente ao FC Famalicão, nos Barreiros.

Marco Aurélio foi um pilar de estabilidade na época feita pela equipa de Rui Mâncio. Em toda a Liga, falhou apenas dois jogos no 12º lugar obtido: ficou no banco na derrota por 3-0 em Penafiel, a 18 de Novembro, e estava castigado no empate em casa com o Tirsense, em virtude de ter sido expulso na derrota em Chaves (1-2), a 2 de Fevereiro de 1991. Estava em campo no dia da festa da manutenção, uma vitória por 2-1 no dérbi com o Nacional, que já estava há algum tempo condenado à descida. Já não lhe correria tão bem a segunda época. Duas lesões, uma em Setembro e outra em Janeiro, a meio de um jogo em casa com o Farense, custaram-lhe meia dúzia de ausências. É verdade que ainda teve a alegria de marcar ao Marítimo (empate a um golo, em Outubro de 1991) ou de empatar nos Barreiros com o FC Porto (2-2, em Abril de 1992), mas no final da época a equipa de Rui Mâncio foi última da tabela e acabou rebaixada à II Divisão de Honra.

Seria uma passagem curta, é verdade – e ainda por cima a permitir a Marco Aurélio descobrir uma veia goleadora única na sua vida. O central brasileiro marcou nove golos na campanha que conduziu a equipa a partir de certo momento comandada pelo seu compatriota Ernesto Paulo ao regresso à I Divisão. Mesmo assim, o União só entrou nos lugares de promoção na penúltima ronda, quando ganhou em Leiria (1-0), assegurando o segundo lugar e a certeza da subida no último dia, com nova vitória caseira ante o Feirense (2-0). No Verão de 1993, Marco Aurélio já estava de volta à I Divisão, voltando a ser um dos pilares da defesa de um União que voltou a ser 12º e a manter-se na elite. A passada larga, a velocidade de recuperação, o jogo aéreo e a técnica de desarme fizeram com que se falasse dele e com que os grandes o atacassem. E se o Benfica, por intermédio de Gaspar Ramos, não chegou a acordo com o União, acabou por ser o Sporting a contratá-lo. Os leões tinham perdido o campeonato in-extremis, nos 6-3 do Benfica inspirado por João Pinto, e apostavam no reforço da equipa colocada ao dispor de Carlos Queiroz. Só defesas centrais havia Valckx, Naybet, Vujacic e Marco Aurélio. Parecia difícil para o brasileiro ter vaga ali.

E no entanto, quando começou o campeonato, Vujacic foi jogar para defesa-esquerdo, Valckx subiu para médio-defensivo e Marco Aurélio formou com Naybet uma dupla de centrais muito rápida, fundamental no bloco subido que a equipa utilizava. Só perto do final da época, já em Maio, e por lesão contraída na Luz no famoso jogo da expulsão de Cannigia (2-1 para os leões) é que Marco Aurélio falhou um jogo de campeonato. O Sporting seguia a quatro pontos do FC Porto e, por isso, a aposta máxima era a Taça de Portugal: a 10 de Junho de 1995, depois de já ter estado no banco em Guimarães, na última jornada da Liga, o central brasileiro voltou ao onze para jogar a final da Taça de Portugal, ganha no Jamor (2-0) ao Marítimo. Foi a primeira de várias finais jogadas por ele de verde e branco: esteve em 1995/96 nos dois jogos da final (0-0 e 2-2) e na finalíssima (vitória por 3-0, em Paris) da Supertaça, frente ao FC Porto; e repetiu no fim dessa época a presença na decisão da Taça de Portugal, desta vez para perder frente ao Benfica (1-3), no jogo do “very-light”.

No campeonato, contudo, os leões não foram além do terceiro lugar, o que nem foi mau para tanta instabilidade: a meio da época, o presidente, Pedro Santana Lopes, e o treinador, Carlos Queiroz, entraram em rota de colisão e a equipa foi entregue a Otávio Machado. O mesmo Otávio, aliás, voltaria a pegar na equipa a meio da época seguinte, após a demissão de Robert Waseige, o belga que o Sporting contratara na tentativa de conduzir a equipa a pôr fim ao jejum de títulos. Não conseguiu naquela circunstância, mas o segundo lugar de 1996/97, quase sempre com Marco Aurélio no onze, chegou para levar a equipa a qualificar-se para uma Liga dos Campeões que dava os primeiros passos. Em Agosto de 1997, Marco Aurélio esteve, assim, nos dois jogos da pré-eliminatória com o Beitar Jerusalém (0-0 e 3-0) e a 17 de Setembro foi um dos eleitos de Otávio Machado para a primeira jornada da fase de grupos. Contudo, apesar de um início muito promissor (3-0 ao AS Mónaco num Estádio de Alvalade quase sem relva, devido aos concertos de verão), os leões não passaram da primeira fase. A crise voltara antes: consumido pelas inúmeras guerras que tinha aberto, o treinador saiu. Vieram Francisco Vital (provisório), Vicente Cantatore e por fim Carlos Manuel, mas o Sporting acabou a época num sofrido quarto lugar.

Já para lá dos 30 anos, Marco Aurélio mantinha a influência na equipa, mas dificilmente era visto como solução de futuro. Em 1998 chegou a Alvalade Mirko Jozic, treinador croata que tinha a incumbência de lançar jovens, muitos jovens. O brasileiro manteve a titularidade até que, em Janeiro de 1999, surgiu a oportunidade de se transferir para a Série A do futebol italiano, onde o Vicenza tentava a todo o transe salvar-se da descida e via nele um carimbo no passaporte para a permanência. Marco Aurélio despediu-se do campeonato português a 15 de Janeiro de 1999, jogando os 90 minutos num empate a zero do Sporting frente ao Vitória FC, em Alvalade, e nove dias depois estava no centro da defesa da equipa de Franco Colomba num empate a zero frente ao Parma de Crespo e Chiesa. Marco Aurélio impôs-se como titular do Vicenza nessa época, apesar de duas expulsões, contra o Bari e a Sampdoria, mas a equipa acabou por descer à Série B. Ainda esteve na equipa de Edy Reja que foi campeã do segundo escalão no ano seguinte e voltou à Série A m 2000/01, para nova campanha com despromoção.

Até final da carreira, representou o Palermo e o Cosenza, ambos na Série B, e quando este clube faliu rumou à Spal, da terceira divisão. Jogou nos azuis e brancos e no Teramo até pendurar as chuteiras, já próximo dos 40 anos. Vive atualmente em Lins, no estado de São Paulo, no Brasil, onde é observador de jogadores e empresário.