Teve no Boavista a árdua tarefa de substituir António Nunes, que no ano do regresso axadrezado à I Divisão se mudara para o FC Porto. Cumpriu a tarefa defensiva a preceito e por ali ficou até ao final da carreira.
2017-10-19

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1945

Tempos houve em que o Boavista batalhava todos os anos pelos escalões secundários para que lhe fosse reconhecido o direito a jogar com os grandes. Foi o que aconteceu nos anos 30 e 40, por exemplo. Nesse aspeto, 1940 foi um bom ano: os axadrezados começaram por ganhar a segunda série Douro Litoral da II Divisão e chegaram depois aos quartos-de-final da Taça de Portugal, com uma reviravolta épica contra a Académica (5-0 em Coimbra, depois de terem perdido em casa por 5-1). Só que nessa altura ainda não havia subidas nem descidas e o acesso à I Divisão de 1940/41 ia ser decidido no campeonato regional do Porto, no final no ano civil. E quando chegou a altura de o jogar, a equipa já tinha perdido as principais vedetas: Julinho seguiu para o Académico do Porto, antes de brilhar no Benfica, e António Nunes para o FC Porto. O testemunho do primeiro, havia de pegar nele Fernando Caiado. O segundo foi imediatamente substituído à altura por Raimundo.

Não há maneira de confirmar se Raimundo estava já no grupo do Boavista ou se chegou apenas nesse ano. Certo é que fez parte da equipa que se classificou em segundo lugar no regional do Porto, dessa forma se apurando para jogar a I Divisão. E que a 29 de Dezembro de 1940 se estreava no campeonato, logo à primeira jornada, exibindo os seus dotes de marcador rigoroso no empate a uma bola com o Benfica, no Campo do Bessa. Seria sol de pouca dura, porém. O campeonato não correu muito bem à equipa portuense, que o acabou em último lugar, com apenas cinco pontos ganhos e uma defesa nada exemplar: 63 golos sofridos em 14 jogos. Vale a Raimundo a desculpa de não ter estado em dois deles e de nesses as coisas também não terem corrido melhor: 0-6 com o Unidos de Lisboa e 1-7 com o FC Porto. E nem o alargamento para três vagas portuenses no campeonato permitiu aos boavisteiros regressar na época seguinte à I Divisão: quem as alcançou no regional de 1941/42 foram o FC Porto, o Académico do Porto e o Leça.

Só em 1945 é que Raimundo voltou aos grandes palcos. Com os irmãos Caiado a dar cartas, o Boavista ganhou a Série 2 da II Divisão e conseguiu depois o acesso ao campeonato principal no Regional, juntamente com o FC Porto. Raimundo voltou como elemento fundamental na equipa, garante da segurança defensiva indispensável à manutenção – que nessa época começaram as subidas e descidas. Esteve, por exemplo, na vitória frente ao Sporting (1-0), um dos poucos jogos em que Peyroteo não marcou nesse campeonato. A manutenção, conquistada na penúltima jornada, através de uma rija vitória sobre o FC Porto (3-2), foi amplamente celebrada, abrindo caminho a dois anos mais tranquilos. Totalista no campeonato de 1946/47, no qual o Boavista conseguiu empatar com FC Porto e Belenenses, Raimundo fez mesmo um golo, o único de todo o seu historial na I Divisão: aconteceu a 27 de Abril de 1947 e foi o quarto de uma goleada por 5-0 frente ao Famalicão.

O médio – posição a que no WM cabia a marcação do avançado-centro contrário e que depois evoluiu para o atual defesa-central – estava a entrar na casa dos 30 anos. Ainda fez uma época muito regular em 1947/48, campeonato em que o Boavista repetiu a nona posição, mas entrou depois no ocaso normal para a idade. Despediu-se da I Divisão a 10 de Abril de 1949, com uma derrota em Setúbal, frente ao Vitória, por 5-0, num jogo já disputado com a certeza matemática da descida de divisão. Uma semana depois, ainda esteve nos 7-1 com que o Boavista foi eliminado da Taça de Portugal, pelo Benfica. Era altura de dar lugar aos mais novos.