Foi um médio tecnicista e de bom remate, mas também um lateral aguerrido e forte na marcação. Carvalho fez quase 300 jogos na I Divisão e chegou à seleção nacional, já depois do regresso dos proscritos de Saltillo.
2017-12-10

1 de 11
1980

Quando um clube consegue meter miúdos da formação nas seleções da categoria, é normal que deles se espere que cheguem à equipa principal. Foi o que aconteceu com Carvalho no Vitória de Guimarães, no final da década de 70. Internacional juvenil na primavera de 1978, numa equipa que ainda levou alguns jogadores ao Mundial de juniores, no ano seguinte, o médio vimaranense teve, no entanto, de esperar muito tempo e de correr o país antes de se afirmar no emblema que o viu nascer. Foi aperfeiçoando as caraterísticas que levavam a que tanto o identificassem como um centrocampista de boa técnica e remate apurado como com um defesa lateral aguerrido, combativo e duro na marcação. No fundo, ele era tudo isso e foi assim que, regressado ao berço, aproveitou em 1987 para se estrear na seleção principal de Portugal, já depois do regresso dos proscritos de Saltillo.

O início foi nos juvenis do Vitória, numa equipa que veio a dar ao país mais internacionais, como Costeado ou Laureta. O problema era chegar à equipa principal, que por aqueles tempos era feudo de tecnicistas brasileiros. Costeado, por exemplo, fez um jogo, em 1978, e seguiu para um longo périplo pelas divisões inferiores antes de se afirmar. Carvalho teve mais tempo para mostrar ao que vinha. A 11 de Novembro de 1979, depois de já o ter levado para o banco de suplentes em duas ocasiões, o argentino Mario Imbelloni deu-lhe os primeiros minutos de jogo, colocando-o em vez de Almiro, nos últimos sete minutos de um jogo em casa com o Marítimo. O resultado (1-1) já não sofreu alterações, mas Carvalho ia ganhando peso nas opções: quase sempre convocado, no início de Dezembro teve a prova de confiança, quando à passagem da hora de jogo, com a equipa a perder em Évora com o Juventude, em jogo da Taça de Portugal, o treinador o colocou em vez de Abreu. O Vitória arrancou o empate a ferros e ganhou (3-1) no prolongamento.

Até final da época, Carvalho jogou mais três vezes, sendo pela primeira vez titular na derradeira jornada do campeonato. Na sequência da derrota em casa (0-1) que valeu o título de campeão ao Sporting, Cassiano Gouveia, o treinador que recentemente substituíra Imbelloni, sacrificou Ferreira da Costa, Festas e Manaca e optou por experimentar Carvalho no empate (1-1) frente ao Varzim com que os vimaranenses garantiram o sexto lugar. E na nova época, Fernando Peres manteve o rapaz no plantel. Carvalho foi ganhando espaço, chegou mesmo a ser titular entre finais de Setembro e inícios de Outubro, mas a chicotada psicológica – substituição de Peres por Pedroto e Artur Jorge, nos papéis de “manager” e treinador – e a chegada a Guimarães de Nivaldo tiraram-lhe espaço no grupo. Com Pedroto e Jorge, entre Outubro e o fim da época, Carvalho só jogou 30 minutos, substituindo Festas na última meia-hora da vitória caseira sobre a Académica. Aos 20 anos, precisava de rodar. E foi nesse sentido que saiu para a Sanjoanense, cujo treinador era Fernando Peres.

Na II Divisão, Carvalho foi tendo continuidade. Teve-a com Peres, mas depois também com Joaquim Meirim, que manteve a equipa de São João da Madeira na luta pela subida até ao fim: a Sanjoanense acabou em terceiro lugar, a dois pontos do Varzim (que subiu direto e tirou o pé no final) e do Salgueiros, que garantiu a Liguilha ganhando na última jornada ao AD Fafe. A equipa de Paranhos acabaria mesmo por subir, depois, e Carvalho disso se aproveitou, pois no Verão de 1982 estava vestido de vermelho e a jogar no pelado de Vidal Pinheiro. Henrique Calisto gostara do que vira na Zona Norte da II Divisão e apostou no rapaz, fazendo dele pedra base da equipa acabou o campeonato num tranquilo décimo lugar. Titular em 25 das 30 jornadas, Carvalho saiu do banco em mais três e fez mesmo três golos, o primeiro dos quais a valer um empate (1-1) no Barreiros, frente ao Marítimo, a 17 de Outubro de 1982. Os outros dois fê-los ao Rio Ave, um em cada jogo. E esteve ainda nos empates arrancados a FC Porto (0-0) e Sporting (1-1) em Paranhos.

Não espantou, por isso, que continuasse a contar para 1983/84. Em toda a época, só faltou a um jogo: foi suplente na derrota em Braga (1-3), no início de Abril. Fez apenas um golo, mas que golo: em meados de Fevereiro, com um remate do meio da rua, bateu Jesus e começou a dar forma à vitória (2-1) do Salgueiros sobre o seu Vitória de Guimarães. O Vitória vingou-se, afastando o Salgueiros nos quartos-de-final da Taça de Portugal, mas Carvalho já tinha feito nome a justificar uma transferência. No final da época, correspondeu ao convite de Manuel José e rumou ao sul, para integrar o ambicioso projeto do Portimonense. No Algarve, fez duas épocas de elevado rendimento. Na primeira, com Manuel José, a equipa acabou num extraordinário quinto lugar e Carvalho só não esteve em quatro jogos, devido a duas pequenas lesões contraídas nos campos do Salgueiros e do Farense. Manuel José seguiu para o Sporting, para o seu lugar passou Vítor Oliveira, e Carvalho voltou a ser preponderante no sétimo lugar final dos algarvios. Além disso, jogou os 180 minutos europeus da história do clube: vitória por 1-0 frente ao Partizan, no Algarve, e derrota por 4-0 em Belgrado.

Aos 26 anos, Carvalho voltou finalmente a casa. Assinou pelo Vitória de Guimarães ainda a tempo de viver a épica temporada sob os comandos de Marinho Peres. Atuando predominantemente como defesa-esquerdo, esteve em 29 dos 30 jogos que conduziram os minhotos ao terceiro lugar na tabela, marcando um golo (ao Marítimo, em Setembro), participando ainda nas duas primeiras eliminatórias da Taça UEFA, contra o Sparta de Praga e o Atlético de Madrid. A expulsão, a meia-hora do fim da partida do Vicente Calderón, afastou-o depois dos jogos contra o FC Groningen e o Borussia M’Gladbach, mas a categoria que impunha na posição levou-o a mais altos voos: em Fevereiro de 1987, jogou pela seleção olímpica frente à Itália e à Holanda e, em Dezembro do mesmo ano, chegou mesmo à seleção A. É verdade que se tratava de uma época em que, acabados de regressar os proscritos de Saltillo, a seleção vivia período de enorme desorientação, mas foi ele o defesa-esquerdo escolhido por Juca para a visita a Itália (derrota por 3-0, mas com dois golos nos últimos minutos), alinhando depois no final do sucesso em Malta (1-0), para ajudar a segurar o resultado.

A desorientação que se viveu, também, nessa época em Guimarães não roubou protagonismo a Carvalho, que mesmo com três treinadores (René Simões, António Oliveira e José Alberto Torres) faltou em apenas duas das 38 jornadas do campeonato, que o Vitória acabou num modesto 14º lugar. Esteve, além disso, nas eliminações do Tatabanya e do Beveren, bem como na queda frente ao Vitkovice, nos oitavos-de-final da Taça UEFA. E marcou presença na final da Taça de Portugal, que os vitorianos perderam (1-0) frente ao FC Porto, depois das tensas eliminações do Gil Vicente e do Portimonense, ambas em prolongamento. Quase sempre titular ainda durante a época de 1988/89 – jogou, por exemplo, as duas partidas que valeram ao Vitória a conquista da Supertaça, frente ao FC Porto (2-0 no Minho e 0-0 nas Antas) – Carvalho foi começando a perder gás com a chegada a Guimarães de Paulo Autuori e a adoção de um 3x5x2 que fazia de Roldão o ala esquerdo. Passou a ser muitas vezes suplente utilizado, condição na qual marcaria o seu último golo no campeonato, a 21 de Abril de 1991: rendeu Caio Júnior a dois minutos do fim de uma receção ao Vitória de Setúbal, provavelmente para segurar o resultado, mas ainda estabeleceu o 4-2 final.

No Verão de 1991, correspondeu ao convite de Vítor Oliveira, seu antigo colega e treinador no Portimonense, e assinou pelo FC Paços de Ferreira. Ajudou na permanência da equipa pacense, fazendo a meio-campo o último dos seus quase 300 desafios de I Divisão. Foi a 16 de Maio de 1992 e a derrota caseira com o Estoril (1-2) ainda custou dois lugares na tabela, mas em nada afetou o esforço de permanência dos castores. Carvalho ainda jogou mais duas épocas, na II Divisão B, com as camisolas do Moreirense e do Juventude de Ronfe. Encetou depois uma carreira de treinador que o levou a passar pelas camadas jovens do Vitória, mas também a festejar subidas de divisão com os Sandinenses (em 2005) ou a AD Oliveirense (em 2013).